Não importa o que digam. Para Cacá Bloise, vilamarianense apaixonado pelo lugar onde nasceu e cresceu, o bairrismo é uma virtude necessária. Descendente de italianos, como a maioria dos primeiros moradores da
região, o músico e publicitário é um defensor da “energia da Vila Mariana” e luta todos os dias para que as histórias e tradições do bairro não se percam com o tempo. Há cerca de 7 meses, Cacá criou no facebook o grupo “Vila Mariana Amo Você”, ideia que surgiu, a princípio, de uma homenagem ao falecido pai, Nicola, conhecido comerciante entre os vizinhos da época. Chamou então o ator e amigo inseparável, Milton Levy, com quem cresceu pelas ruas da Vila, e atualmente o grupo conta com mais de 10 mil membros, que diariamente conversam, trocam fotos e lembranças.

Cacá Bloise

Cacá Bloise

Na casa onde Cacá nasceu, na esquina da Áurea com a Conselheiro Rodrigues Alves, nasceram também seus irmãos e irmãs, Maria Luiza, Ines e Nico. “A Vila Mariana era um grande fazendão”, conta, da época em que não existiam grandes avenidas como a Sena Madureira, Rubem Berta e 23 de Maio. “Eu entrava no Parque do Ibirapuera por onde é hoje o Instituto Biológico, na Rua Tutoia. Onde hoje fica a 23 de Maio, havia uma grande chácara onde eu arrancava cenoura do chão para trazer para minha avó. Na mesma região, onde hoje é o Velódromo, ficavam os campos de futebol de grandes times de várzea da Vila Mariana”, lembra.

Das lembranças de garoto, o clima de cidade de interior, onde chave na porta não era um item obrigatório. Nicola, seu pai, era dono de um comércio de Secos e Molhados. “Em um tempo em que não se usava cartão de crédito e as compras eram todas fiadas na caderneta, eram os comerciantes que mantinham as famílias, que geralmente quitavam suas dívidas no final do mês, quando recebiam o salário”, lembra. “Os vizinhos conviviam e era muito comum fechar a rua para fazer uma festa junina, por exemplo. Formava-se uma grande fileira de mesas e cada um trazia um prato”, completa Levy.

Milton Levy

Milton Levy

Vilamarianenses há algumas décadas, os dois também estavam lá quando o bairro, antes restrito a residências e comércios – uma extensão à Avenida Paulista dos barões de café –, entrou na rota da especulação imobiliária e passou a receber prédios e moradores de outros bairros. Para eles, entretanto, há algo como uma essência da Vila Mariana que não pode ser encoberto pelas novas construções. “Bairro pra mim é o lugar onde as pessoas se dão bom dia, boa tarde e boa noite. Onde você vai na padaria e fala de futebol, da sua sogra e da sua vida. É isso que mantém um bairro vivo”, afirma Cacá. “A Vila Mariana tem tradições tão sólidas que mesmo quem chegou aqui tentou se adaptar à cultura do bairro. Exemplo disso são casas que já tiveram diferentes donos e conservam a mesma fachada e a mesma pintura da época em que foram construídas”, comenta o ator.

O sucesso do grupo, que Levy e seu “meio primo”, Cacá, alimentam quase que diariamente com matérias, fotos e vídeos, mostra que a comunidade do bairro, das mais diferentes épocas, carrega consigo esse apego à região. “Nós criamos a página sem grandes pretensões e no dia seguinte tinha 3 mil seguidores”, conta o músico, que anualmente participa de um jantar com sua antiga turma, que conta com mais de 100 amigos. Atualmente são mais de 10 mil membros no Vila Mariana Amo Você, dos quais grande parte participa ativamente dos tópicos, que vão de discussões sobre o bairro a reencontros de turmas do colégio.

Mais do que saudosismo, para Cacá o grupo pode ser uma ferramenta para resgatar, nos mais velhos, e inspirar, nos mais jovens, o sentimento de pertencimento ao bairro. “Quando você se dá conta de que esse é o seu bairro, você entende que é você quem manda nele, no sentido que não é preciso esperar que os outros façam a sua parte por você. Esse sempre foi o espírito da vizinhança. Um ajudava o outro e se havia algum problema a gente juntava um pessoal e botava a mão na massa. Amar a Vila Mariana é construir um bairro melhor para todos”, conclui.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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