Mulher no volante, perigo constante. Quantas mulheres já não tiveram que ouvir isso no trânsito? Vanessa Coelho nunca ligou para o estereótipo representado pelo dito popular. Filha do Seu Mário, um aficionado por corridas, quando tinha 10 anos já sabia o que queria ser: pilota de Fórmula 1. “Sempre preferi brincar com os carrinhos”, ela ri. Sonho apoiado pelo pai, com quem assistia às corridas na TV. “Ele tinha um grupo de amigos que até viajava para assistir corridas. Um dia pedi para ir junto a um campeonato de kart e ele me levou. Ali tive certeza de que meu sonho era correr”, lembra.

Faltava só um kart para começar. “Eu queria tanto correr que transformei o jardim da minha mãe em uma horta, para vender os vegetais e ganhar o dinheiro do kart”. Não foi preciso. No Natal de 1985, Vanessa ganhou o tão esperado presente do pai. E a menina falava sério. Em fevereiro do ano seguinte, estreou com ótimo tempo em um Campeonato Paulista onde era a única pilota em meio a um monte de meninos. “No começo eles me isolavam um pouco, mas aos poucos virei quase que uma irmã caçula”, conta.

va1Com o tempo, o talento e a determinação de Vanessa a colocaram em evidência e, em uma categoria onde corriam pilotos como Hélio Castro Neves e Tony Kanaan, a jovem conseguiu um lugar na equipe de Rubens Barrichello Senior, pai do famoso piloto, que também corria de kart. Na época morando em Piracicaba, Vanessa enfrentou, junto com a família, o desafio de treinar três vezes por semana em Interlagos, alternando com treinos físicos, alimentação regrada, meditação para a concentração e, claro, a escola. “Eu saía da aula e almoçava no carro, no caminho do treino. Era atleta durante o dia e de noite precisava fazer a lição de casa”, brinca.

Em um desses treinos, Vanessa que era instruída por Nuno Cobra, preparador de grandes atletas como Christian Fittipaldi, Rubens Barrichello e Mika Hakkinen, conheceu seu maior ídolo, que também era alu­no de seu instrutor. “Cheguei na USP para fazer um treino físico e o Ayrton Senna estava lá treinando também. Foi muito emocionante. Eu guardava recortes de jornais e revistas sobre o Senna e, de repente, estava ali con­versando com ele”, relata. Vanessa não se esquece até hoje da conversa com o ídolo. “Ele disse que já tinha ouvido sobre mim e me incentivou, mas me aconselhou que seria um caminho muito difícil até a F1, não só por ser mulher, mas pela questão fi­nanceira, de patrocínios”.

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Vanessa não desanimou. Nas pistas, a pilota fazia tempos cada vez melho­res. “Além do domínio do corpo e da mente, um bom piloto precisa ter boa visão de corrida, um bom traçado, boa tangência de curvas, saber ganhar tempo e respeitar os limites do carro”, explica. Os resultados a levaram para uma nova categoria, a Fórmula Ford, já correndo com monoposto, que é o modelo de carro usado nas Fórmulas 1 e Indy, por exemplo.

Foi nessa época, entretanto, que a pilota precisou abrir mão de seu sonho. Em 1991, com 17 anos, Va­nessa perdeu seus principais pa­trocinadores, afastados pela crise econômica vivida pelo Brasil du­rante o governo do ex-presidente Fernando Collor. Embora contasse com a ajuda da família, como quase todos os pilotos, o dinheiro não era o bastante para que Vanessa con­tinuasse sua trajetória nas pistas. “Senti meu mundo desabar, pois sonhei com aquilo a minha infância toda. Na escola, enquanto a maioria das minhas amigas queria ser dona de casa, todos sabiam que eu que­ria ser pilota”, recorda.

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Mas Vanessa se reergueu. Aplicou sua vontade de vencer para se espe­cializar na área comercial, profissão que exerce até hoje, 24 anos depois. “Aprendi nas pistas a dominar as minhas emoções, tomar decisões rápidas e aproveitar oportunidades, o que tem tudo a ver com a área em que escolhi trabalhar”, afirma. Com o tempo, novos sonhos foram surgindo e a realização de um deles tem mui­to a ver com a Chácara Klabin. “Sou dona de dois cachorros e comecei a trazê-los para passear na Praça Kant, onde conheci grandes amigos que me inspiraram a frequentar o bairro. Aqui conheci meu marido, o Wagner, que também levava seu cãozinho pra passear na praça. Nos casamos há cerca de 1 ano e meio e tem sido a realização do meu desejo de formar uma família”, comemora. Hoje Vanes­sa trabalha em uma imobiliária na Av. Prefeito Fábio Prado.

Satisfeita com tudo o que viveu nas pistas, Vanessa sabe que uma meni­na que fizer a mesma escolha que ela enfrentará muitas dificuldades. “É um esporte dominado por homens, com gratas exceções, como, por exemplo, a Bia Figueiredo e a Suzane Carva­lho, que são vencedoras no esporte e provaram que as mulheres podem ser ótimas pilotas”. Mas incentiva: “Qualquer pessoa que tenha um so­nho deve acreditar nele e construir o percurso para alcançá-lo, com garra, disciplina e perseverança. Assim, ele pode virar realidade”.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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