Na última edição da CHK nós contamos a história da família Meylan, que trocou, sem arrependimentos, a vida na Suíça pela Chácara Klabin. Mas Jean Claude e Mirtes não foram os únicos: em 1984, quando as ruas ainda não tinham nome e eram marcadas apenas por números, ficou pronta, onde hoje fica a Rua Agnaldo Manuel dos Santos, a casa da família Bodinaud, formada pelo ca­sal de franceses, Jean e Maggie, e seus filhos Fabian, Frank e Fabrice – o último com apenas um mês de vida, à época. No jardim da casa que ainda guarda a história dos primeiros dias do bairro, conversamos com eles sobre a vida na Chácara Klabin, o lugar que viram crescer nos últimos 30 anos.

A chegada de Jean e Maggie ao Brasil, entretanto, aconteceu mais de uma década antes. O ano era 1972, quando os dois jovens franceses recém-casados deixa­ram Toulouse, onde se conheceram durante os estudos, e mudaram-se para São Paulo. Jean, com 27 anos, já era físico formado e veio fazer seu doutorado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde hoje é pesquisador e professor convidado. Ao chegarem, ele e Maggie, com 22 anos, foram morar na Vila Madalena, bairro que deixaram alguns anos depois para uma casa na Rua da Mantiqueira, na chamada Colina do Cambuci.

Foi nesse bairro que ouviram falar pela primeira vez da Chácara Klabin, quando uma vizinha lhes contou que havia comprado um terreno no novo loteamen­to da Vila Mariana. Exatamente três dias depois, Jean e Maggie conseguiram também um terreno na região, comprado diretamente dos her­deiros da família Klabin. “Entre as nossas principais motivações estava a proximidade com o Liceu Pas­teur, colégio intimamente ligado com a cultura fran­cesa, onde nossos filhos passaram a estudar”, explica Jean. “Na época, eles iam pro Liceu, na Rua Vergueiro, e voltavam a pé. Às vezes vinham almoçar em casa, pela proximidade. O bairro era muito tranquilo na épo­ca, um ótimo lugar para criar crianças”, conta Maggie.

fraTranquilo até demais, lembra a tradutora juramenta­da. Se hoje o trânsito e as buzinas podem incomodar os moradores, nos primeiros anos da Chácara Klabin as ruas soavam em um tom diferente. “Na época, além de nós havia apenas outras duas ou três casas próximas. Lembro que quando nos mudamos era comum acordar com o barulho de cavalos soltos andando na rua. Carro por aqui era muito difícil de ver. Fora isso era um gran­de silêncio ou o som das crianças brincando na rua”, resgata Maggie. “Em agosto, mês do vento, como aqui era um grande descampado, o céu era tomado pelos grupos de meninos soltando pipa ou pelas equipes que vinham soltar balões”, completa Jean.

O oásis em meio à “cidade internacional”, como o fí­sico define São Paulo, durou por uma longa e prazerosa década. No começo dos anos de 1990, semanas após o impeachment do então presidente Fernando Collor, lembra Jean, teve início no bairro um processo de ver­ticalização que transformou o cotidiano dos antigos moradores da Chácara Klabin. Apesar de reclamar do trânsito, um problema recente no bairro, Jean e Maggie não foram contra a chegada dos prédios e o crescimen­to da região. “Acho que o prédio ajuda a vigiar a casa, nesse aspecto é bom. O lado ruim foram as demolições e as casas que deixaram de existir”, afirma a tradutora.

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Nenhuma mudança ou problema atual do bairro, en­tretanto, fizeram com que a família Bodinaud pensas­se em sair da Chácara Klabin, muito menos em voltar para a França. “Há duas coisas que nós gostamos muito no Brasil. A primeira é o brasileiro, um povo sem igual, muito caloroso e receptivo. A segunda é o clima. Isso é algo que talvez o brasileiro não se dê conta, mas quem viveu longos invernos sabe como é bom um clima ameno como o daqui”, explica Jean. Ao mesmo tempo, enxerga também os problemas do País com a clareza de quem já viveu em outros lugares do mundo. “Quando chegamos, nos deparamos com a pobreza e com uma estrutural falta de organização. Mas, talvez o principal problema do Brasil seja a falta do pensamento coletivo, algo que a França, por exem­plo, aprendeu com o sofrimento das guerras. É pre­ciso ter esse senso que o grupo vale mais do que o indivíduo isolado”, afirma.

Na prática, Maggie enxerga a falta desse sentimen­to de coletividade como a raiz dos mais complexos aos mais simples problemas de convivência no Brasil, em São Paulo ou na Chácara Klabin. “Algo que me tira do sério, por morar em uma casa, é a quantidade de pes­soas que passeiam com seus cachorros e os deixam fazer suas necessidades na minha porta. É preciso se colocar no lugar do outro…”, reclama Maggie.

Hoje os filhos do casal já não moram mais no bair­ro. Fabian mora em Paris, na França, onde tem duas filhas, Frank em Montreal, no Canadá, onde tem um filho, e Fabrice mora no Centro de São Paulo. Onde estiverem, entretanto, carregam os valores de seus pais e as amizades e experiências vividas na infância pelas ruas da Chácara Klabin.

A CHK nasceu para que histórias as­sim não se percam e possam ensinar aos leitores – es­pecialmente os mais novos – a importância da vida em comunidade. Assim como Jean e Maggie, acreditamos que o coletivo tem o poder de mudar a sociedade.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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