Todos os meses, 5.300 pessoas ingressam no sistema carcerário do Estado de São Paulo. Ao mesmo tempo, 4.200 deixam os presídios com a esperança de se ressocializar. Mas não é nada fácil encontrar empregadores dispostos a não julgá-las por seus erros do passado. Conheça o projeto que tem aberto portas a ex-condenados

Leonardo Precioso, de 34 anos, foi preso em 2008, enquanto negociava o resgate de um sequestro em um orelhão da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. Passou sete anos e 13 dias preso. No mês passado, completou dois anos em liberdade e tem muito o que comemorar. Agora, é coordenador do projeto Recomeçar, do Instituto Gerando Falcões, que reencaminha ex-presidiários para o mercado de trabalho. Localizada em Poá, na Grande São Paulo, a organização também promove, desde 2011, outras iniciativas ligadas ao esporte e à cultura e já impactou mais de 30 mil adolescentes em todo o Brasil.

Leonardo Precioso

O contato com a ONG começou quando ainda estava detido na Penitenciária de Parelheiros. Em uma visita da mãe, Léo, como é mais conhecido, recebeu o livro “Dialogando com Lideranças”, com uma dedicatória do autor. “Quando eu abri a última página vi a foto do escritor. Era o Eduardo Lyra, o Edu Grandão, amigo de infância, com quem eu costumava jogar bola”, lembra. Os dois se conheceram em Poá, quando Léo, com 18 anos, era jogador profissional e atuava em times como São Caetano, Corinthians e Palmeiras. Lyra, que também pretendia seguir a carreira nos gramados, admirava a desenvoltura do amigo nos treinos. Hoje, com 29 anos, é jornalista e fundador do Gerando Falcões. Ao enviar o presente, sua ideia era reavivar no ex-companheiro de campo a esperança de que poderia escolher outra direção para sua vida ao sair de lá.

Participante do Recomeçar ganha oportunidade em restaurante parceiro

Passos para o recomeço em liberdade

Em saídas temporárias, Léo teve a oportunidade de conhecer melhor o trabalho do instituto. “Nesses encontros, o Edu sempre me cutucava, perguntando o que eu faria depois de deixar a prisão. Eu achava melhor falar disso quando saísse, porque sabia que ainda tinha meus compromissos ligados ao crime”, explica Léo. Dois dias após deixar o cárcere, recebeu um desafi o: retornar ao mundo do esporte auxiliando professores de educação física do instituto justamente no bairro onde, anos antes, havia gerenciado um ponto de drogas. Com o passar do tempo, virou coordenador, ajudando a criar um polo esportivo e cultural dentro da comunidade. Começou, inclusive, a cursar uma Faculdade de Educação Física.

Mas Léo ainda se sentia em dívida com a sociedade. Queria devolver de alguma forma as oportunidades de reinserção proporcionadas pelo Gerando Falcões. Ajudar pelo menos um ex-detento era sua meta. Após conversas com Lyra e apenas três meses depois de deixar a prisão, nascia o projeto Recomeçar, que em parceria com grandes empresas já encaminhou cerca de 30 pessoas para o mercado de trabalho e tem outras 150 na fila de espera. Léo é responsável pela captação dos ex-presidiários. “No começo, eu saía na rua e como tinha uma vida egressa, esses caras me procuravam para outros fins. Eu explicava que não tinha mais uma arma, um quilo de droga ou um ponto, mas poderia ajudar de outra forma”, afirma. Uma das primeiras ações do Recomeçar é auxiliar o ex detento a regularizar sua documentação. Após essa fase, realiza um agendamento com assistentes sociais e psicólogas e dá suporte com cursos de capacitação até reencaminhar a pessoa ao mercado.

 

Leonardo Precioso, coordenador do projeto Recomeçar, também teve uma nova chance quando conheceu a ONG

Hoje, o Recomeçar conta com quatro grandes parceiros que recebem os participantes dentro do seu quadro de funcionários ou ajudam a empoderar os ex-presidiários: a Capafe, IS Logística, JR Diesel e o projeto Rexista, criado por estudantes da Fundação Getúlio Vargas. Além de Léo, o Gerando Falcões conta com outros três ex detentos como colaboradores. Quem contrata sabe que está apostando em algo inovador e veste a camisa do projeto. “Todos nós somos falhos e erramos. Se as pessoas parassem de julgar e dessem oportunidade para o próximo, veriam que qualquer ser humano é recuperável”, acrescenta Geraldo Rufino, proprietário da JR Diesel, empresa de autopeças de caminhões que empregou dois egressos.

Voltando a sonhar

Jezey de Souza, de 26 anos, é um deles. Trabalha como auxiliar de logística há um ano e quatro meses e nesse período já foi promovido mais de uma vez. “Seu Geraldo e os encarregados sempre dão oportunidades para aprender a trabalhar em várias áreas”, conta o jovem, que conseguiu se reorganizar com o apoio do projeto, após passar três anos preso por tráfico de drogas.

Ao deixar o presídio, Jezey encontrou dificuldades. “Quando a gente sai da cadeia, a sociedade nos olha como monstros. Muitas vezes, eu pensei em voltar. Mas agradeço a minha mulher e ao Recomeçar, que me fortaleceram e me fizeram entender que não há nada melhor do que o homem trabalhar para ganhar o seu sustento”, refl ete o funcionário da autopeças. Ele sonha em se desenvolver na área comercial e montar um salão de beleza para a esposa. Se depender de seu empenho, vai longe. “O Jezey é o melhor exemplo de que as pessoas merecem uma segunda chance, é funcionário modelo da empresa”, conclui Rufino.

Léo também nutre grandes aspirações. Tem planos de introduzir um supletivo à distância para os participantes poderem cursar o Ensino Fundamental e Médio e tornar seu trabalho referência na área social. Sabe que ainda tem grandes desafios pela frente. “Não somos nós que acreditamos nos egressos. Eles que acreditam que o projeto vai mudar suas vidas. E aí, a gente acaba dormindo e acordando com essa responsabilidade”, conclui.

Jezey e Geraldo Rufino, uma oportunidade e muitas promoções

Léo também coordena um projeto de esportes para as crianças de Poá

Uma chance mesmo entre as grades

Ainda dentro dos presídios há esperança para quem pretende trilhar uma nova trajetória. Uma delas é o trabalho desenvolvido pela Ramblas, fabricante de cartões tridimensionais com a logomarca dos clientes para ações de marketing. Pioneira em chamar a atenção dos empresários para a necessidade de profissionalizar os presos, desde 1989, confecciona seus produtos de arquitetura em papel com uma linha de montagem dentro das cadeias. Sua fundadora, Dulce Ramos, 58 anos, já tinha trabalhado com presidiários do Carandiru em outros projetos e sabia que poderia depositar neles sua confiança. Logo no começo, quando surgiu com a ideia nos corredores do pavilhão 9, de réus primários, a proposta teve uma boa adesão, 20 presos. A empresária capacitou os interessados e iniciou em 1992 sua primeira grande encomenda de dois mil cartões para a Rossi Residencial. O trabalho era minucioso. “Eram 24 peças de encaixes e que exigiam paciência e delicadeza para serem montadas”, conta a empresária. A produção foi interrompida com a rebelião e invasão do presídio, que culminou com a morte de 111 detentos, em outubro daquele ano. “Ficamos quase três meses no portão aguardando notícias. Enfim, soubemos que tínhamos perdido todos os presos da nossa linha de montagem. Quando conseguimos entrar no presídio, o nosso cartão estava impecavelmente pronto”, se emociona Dulce ao lembrar do episódio.

Desde aquele dia, todos os cartões da empresa passaram a vir com a marca “Hand Made By Carandiru Prisioners”. “Quem compra tem orgulho de abrir o cartão e ver sua qualidade”, explica. Com o fechamento da penitenciária, passou a atuar em outros centros de detenção. Hoje está no Adriano Marey, de Guarulhos, na Grande São Paulo. Entre detentos e ex-detentos, conta com 400 colaboradores, que recebem por milheiro produzido. Para os presidiários é pago R$ 300 a cada mil cartões, além do benefício da redução de um dia na pena a cada três trabalhados. Assim que cumprem a sentença, são convidados a produzir para a empresa nas ruas.

Dulce é uma das pessoas que acredita na recuperação da população carcerária através da laborterapia. “Dificilmente um preso que trabalhou para mim ou que trabalha fora do presídio após conseguir a liberdade volta à cadeia novamente”. Cada vez mais reconhecido, o trabalho da Ramblas passou a ser admirado por artistas e grandes empresas. Ela tem entre seus clientes marcas como Avon, Nestlé, Petrobras, Bradesco, SBT e algumas prefeituras paulistas. Em 2000, a empresária ganhou o Prêmio Claudia e também reconhecimento no mercado internacional pela sua proposta. Quatro anos depois da premiação, foi convidada pelo governo dos Estados Unidos para dar palestras e falar sobre seu projeto em penitenciárias federais norte-americanas.

Mais possibilidades:

Além do Recomeçar, existem outras iniciativas de ONGs ou de empresas privadas que estão ajudando na
ressocialização de presos ou egressos. Veja alguns desses projetos:


Segunda Chance:
Criado pelo Grupo Cultural Afroreggae, funciona como uma agência de empregos para ex-detentos e suas famílias. Com sedes no Rio de Janeiro e São Paulo, a ONG oferece postos de trabalho em mais de 60 empresas parceiras e fica responsável por acompanhar o desempenho dos participantes. Também realiza sessões de orientação profissional, preparando os candidatos para o mercado de trabalho, e apoia quem deseja deixar o crime ou se entregar. Desde 2012, já atendeu mais de quatro mil pessoas e reencaminhou cerca de 400 ao mercado.
www.afroreggae.org

Conexão Liberdade:
Marketplace de objetos produzidos por mulheres que estão ou estiveram em situação de privação de liberdade. Entre os produtos encontrados atualmente no site estão sabonetes feitos por reeducandas do regime semiaberto das penitenciárias femininas de Campinas e Mogi Guaçu/SP, sandálias personalizadas confeccionadas por egressas do sistema penitenciário do Estado de São Paulo, artesanatos criados por uma cooperativa composta por detentas do Centro de Reeducação Feminina de Ananindeua/PA e roupas e acessórios elaborados por participantes da PanoSocial.
www.conexaoliberdade.org


Pano Social:
A startup criada em 2014 pela produtora de moda brasileira Natacha Barros e pelo designer austríaco Gerfried Gaulhofer tece roupas sustentáveis com a ajuda de egressos do sistema prisional. São peças confeccionadas a partir de algodão 100% orgânico ou PET reciclado para a própria grife, outras marcas e clientes institucionais, como o Greenpeace. Os ex-detentos empregados pelo negócio, que tem sede em São Paulo, vêm do Projeto Segunda Chance (AfroReggae) e do Pró-Egresso, programa da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado. E não é apenas na mesa de costura que eles encontram oportunidades. Há vagas para os egressos como relações públicas, ajudante geral, assistente social e até mesmo no show room do marca.
http://store.panosocial.com.br

Construtores do Amanhã:
Com esse projeto, a ONG Bem Querer, de São Paulo, presta apoio a jovens da Fundação Casa que buscam reinserção na sociedade. Os internos têm a chance de realizar uma formação técnica em hidráulica e elétrica. Na sede da organização, também há cursos de eletricista, informática e cabeleireiro. Após as aulas, convênios com empresas parceiras permitem a contratação na área de formação.
www.bemquerer.org.br

Tem Quem Queira:
Empresa social criada em 2008 e com atuação no Rio de Janeiro. Oferece treinamento para presidiários na área de costura e ensina técnicas de produção de roupas e acessórios a partir de materiais que seriam descartados, como lona vinílica, banners e fundo de palco. Por mês, as três oficinas, localizadas em presídios e em uma comunidade pacificada carioca, produzem juntas, em média, três mil peças e retiram de circulação mais de quatro mil metros quadrados de lonas.
www.temquemqueira.org.br

 

 

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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