Os tiques na criança são queixas frequentes trazidas pelos pais, ao consultório. Caracterizados por movimentos repetitivos, estereotipados, involuntários e que podem se manifestar de forma motora ou vocal, eles representam um problema comum na infância e merecem atenção. Podemos avaliar os tiques em simples e complexos dependendo da quantidade de movimentos que envolve ou se existe associação entre movimento motor e vocal, e também de acordo com o período de permanência dos sintomas, como transitórios e crônicos.

Os tiques motores podem acontecer em qualquer parte do corpo, embora, sejam mais frequentes na face, pescoço e ombros como piscar os olhos, enrolar ou arrancar cabelo, fazer movimentos com o nariz, encolher os ombros, morder os lábios, mastigar a língua, entre outros movimentos estereotipados. Os tiques vocais são caracterizados pela produção de som sem significado como tosse, pigarros, fungados, soluços e grunhidos. Os tiques vocais podem, ainda, se apresentar como alterações no discurso e da linguagem caracterizando-se pela emissão e repetição de palavras ou frases ou ainda alterações da entonação ou do volume da voz (tique vocal fônico).

Os tiques podem ter como desencadeantes fatores emocionais ou orgânicos incluindo, neste último, predisposição genética, alterações das funções neuroquímicas, uso de substâncias psicoativas/medicamentos ou doenças neurológicas. Os tiques desencadeados por fatores emocionais, geralmente, surgem na infância e são mais frequentes por volta dos 6 anos de idade, coincidindo com o período escolar e a transição da educação infantil para o ensino fundamental. Este período é marcado pela imposição de novas exigências à criança, principalmente, relacionadas a aquisição da escrita e da leitura. O processo de aprendizagem exige habilidades cognitivas como atenção, concentração, memória e, automaticamente, são necessários comandos de inibição da expressão motora e verbal para o desenvolvimento destas habilidades. Neste período as atividades perdem o caráter espontâneo e passam a ser mais dirigidas e podem gerar tensão emocional.

O tique nervoso é uma resposta do corpo, uma forma de expressão da criança comunicando que existe uma sobrecarga, algum desconforto no seu curso de desenvolvimento. É importante que os pais observem também se existe a associação de um evento significativo ou traumático no desencadeamento do tique como perda de um familiar, de um animal de estimação, mudança de casa ou escola, separação dos pais, nascimento de um irmão, entre outros acontecimentos. Algumas dinâmicas familiares favorecem a presença destes sintomas. São famílias que tem como características rigidez, sistema parental autoritário com excesso de broncas, pouca flexibilidade para lidar com o erro, superproteção, busca persistente pelo “filho modelo” e padrão de interação baseado em cobranças e críticas. Nestas famílias, a capacidade de expressão e a autonomia ficam comprometidas e o nível de ansiedade e tensão tendem a ser elevados, gerando pressão e sobrecarga. A ação (tique nervoso) e a repetição, na maioria das vezes, não são conscientes para a criança e tem a função de trazer alívio ou diminuição de tensão emocional ou ansiedade. A intervenção dos pais, no primeiro momento, deve ser no sentido de conversar com a criança, ajudá-la a perceber o que está acontecendo com ela e tranquilizá-la de que com tratamento adequado os tiques irão cessar.

É importante que os pais tenham paciência neste processo de aprendizagem da criança para lidar com suas ansiedades e tensões e que não recorram a críticas ou repreensões. O passo seguinte consiste na busca por um especialista (neuropediatra/psicólogo) para uma avaliação dos fatores de origem do sintoma e acompanhamento. É necessário também que os pais procurem a escola para avaliar o prejuízo na socialização e no desempenho escolar da criança. Por parte da escola compete ações educativas com o objetivo de minimizar o preconceito, promover o respeito entre os colegas e reduzir impactos negativos na autoestima da criança e no seu desempenho.

 

Fabiane Matias

Fabiane Matias

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta de Família
CRP 06/68421
Especialista em Terapia de Família e Casal pela UNIFESP eem Psicologia da Saúde pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Atualmente, é psicóloga no Ponto Clínico e responsável técnica pelo Serviço de Psicologia da Associação Brasileira de Pacientes Asmáticos (ABRASP)
Atua há 15 anos nos temas avaliação psicológica em saúde, orientação e intervenção com famílias e casais, saúde materno infantil, ciclo vital, orientação profissional, psicopatologias do desenvolvimento emocional e psico-social.
www.facebook.com/psicologafabianematias
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