Todo ano, quando chega o Carnaval, o samba paulista volta a ser assunto, tendo os bloquinhos e os desfiles das grandes escolas no Anhembi como seu abre-alas. Longe dos holofotes e da atenção do grande público, entretanto, descansam grandes nomes e histórias que fizeram o samba e o Carnaval serem o que são hoje, do tempo em que batucada se fazia na caixa de engraxate e escola tinha a rua como sambódromo. Entre Toninho Batuqueiro, Dona Lola, Carlão do Peruche, Zelão da Rosa e Seu Nenê da Vila Matilde, está o nome de Silval Rosa, sambista desde a infância no Cambuci da década de 1940, onde fez parte de uma das primeiras escolas de samba de São Paulo, a Lavapés, para depois fundar a Império do Cambuci, que desfilou quase toda a década de 1970 no primeiro grupo do Carnaval paulista.  Mas o que a história de um sambista do Cambuci tem a ver com a Chácara Klabin? A resposta está na Rua Jan Breughel. Espremida pelas paredes de uma agência bancária e um grande estacionamento na Rua Vergueiro, quase no cruzamento dessa com a Av. Prefeito Fábio Prado, a pequena rua, até pouco tempo uma das últimas da Vila Mariana que ainda não possuía asfaltamento, é o endereço da grande família Rosa, de filhos, netos e bisnetos do já falecido Silval. “Aqui comigo são 10 filhos meus e 33 netos. É que nem coração de mãe, sempre cabe mais um”, diz Sérgio, 56, filho do ex-presidente da Império.

A família Rosa chegou à região em 1985, quando a escola de samba construiu seu barracão onde hoje fica a Rua Jan Breughel. “Nós morávamos na Rua Muniz de Sousa e aqui era usado para ensaiar, fazer os carros alegóricos e as fantasias para o Carnaval. Com o tempo, precisamos deixar alguém aqui pra tomar conta, senão acontecia de gente de outras escolas aparecer e destruir tudo. Foi quando meu irmão, Sidnei, construiu um quarto e veio morar aqui”, conta o ritmista, mais conhecido como Zorba. Sidnei, 58, que prefere ser chamado de Pelé, lembra bem de como era o bairro nessa época. “Praticamente não existia bairro. Era um grande morro, com algumas casas e muitos terrenos vazios. Desse lado aqui era só mato”. Nessa época, a Império do Cambuci passou a guardar os carros alegóricos em um barracão no Anhembi e o antigo local ficou apenas para produção das fantasias. “Nós fomos construindo outros quartos e acabamos nos mudando de vez para cá. Na época, para ter água e luz a gente contava com a ajuda de uma fábrica vizinha, porque era um local esquecido pelo governo”, lembra Sérgio.

familia

Sérgio, Sidnei e a família Rosa

Enquanto a família crescia, o bairro crescia em volta da pequena viela. Grandes condomínios foram chegando e ocupando o horizonte. “Pra gente foi bom. Antigamente a gente tinha que subir esse morro inteiro se quisesse comprar pão ou ir na farmácia. Agora tem comércio aqui do lado”, afirma Pelé. A distância, entretanto, entre o antigo barracão e a Chácara Klabin, que antes era de apenas uma rua, aumentou. “Nós nunca tivemos problemas com ninguém, mas acontece de as crianças irem brincar no bairro e ficar gente de olho”, relata Sérgio. O tempo também passou para a Império do Cambuci. Brigando em um Carnaval cada vez mais dominado por grandes escolas de desfiles milionários, a agremiação precisou parar por falta de dinheiro. “Samba hoje em dia a gente toca no Bloco Caprichosos da Zona Sul, aqui pra cima, ou vez ou outra quando tem algum aniversário e a gente se junta e toca um pouquinho”, diz o filho de Silval. Mesmo sem a escola, abandonar o local nunca fez parte dos planos. “Aqui nós somos todos uma grande família e um está sempre ajudando o outro. Isso é o mais importante”, conclui o ritmista

Silval Rosa por Wagner Celestino

Silval Rosa, fundador da Império do Cambuci, pelas lentes de Wagner Celestino

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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