“Sim! Ela entrou naquele antigo parque
Com o coração derretendo na ventania
No anseio de entre as árvores encontrar
Um amor que pudesse lhe eternizar!
E que lhe roubasse longos beijos e sorrisos,
entre cavalos, lhe causando quentes arrepios!
Aves, folhas, garoa, chão e cor
Tudo ali no verde lembrava só amor!
Dali em diante, ali, nunca mais a dor…”

(poema da autora, no Parque da Água Branca)

 paisagismo-belle epoque

Como podemos resgatar o Paisagismo que “iluminou” a cidade de São Paulo, tornando o espaço verde urbano um locus de sociabilidade? Que fez a cidade “inspirar” amor?

Estamos resgatando os ares dos jardins públicos da Belle Époque Paulistana, locus de encontros, lugares de memórias…

Áreas verdes “nasceram” pela cidade com uma qualidade projetual até hoje não alcançada. Áreas ajardinadas, floridas e bem detalhadas, com heranças declaradas no paisagismo francês e inglês. Ambos de um charme e romantismo até hoje fáceis de identificar.

A nossa Champs Elysées, a Avenida Paulista. Suas antigas árvores enfileiradas aos pares de ipês amarelos! Como me contou o arquiteto Miguel Forte (in memoriam, meu antigo professor da FAU-Mackenzie). Dizia que ele costumava passear com sua bela esposa, em trajes refinados e gestos elegantes.

Sim! A cidade tinha uma identidade forte. E até o vestuário estava “ornando” com o paisagismo.

Casarões ecléticos, cheiro de café no ar…

Bondes, boinas e sombrinhas…

Tudo um pouco, a Paris se parecia!

Já os jardins em estilo inglês também se destacavam. Ruínas, esculturas, lagos e em formatos orgânicos e bosqueados…

Um estilo romântico inconfundível, onde o verde deveria se parecer natural.

O parisiense: para momentos da multidão!

O inglês: discreto e para momentos mais a dois!

Na minha tese de mestrado, intitulada “Pátios Invisíveis”, redescobri aquarelas destes projetos paisagísticos incríveis. Crianças e damas de sombrinhas eram as escalas humanas desenhadas. E tornou “visível” uma Praça da Republica recém inaugurada em 1901, Belle Époque! Incrível.

Dona Jecy de Mattos, hoje com mais de 90 anos, me confirmou! A praça era elegante e um lugar de encontros e do amor! Para frequentá-la, pessoas deveriam se arrumar, se pentear e se perfumar. Para então apreciarem lagos, fontes, um verde projetado, exótico, escultural e ornamental!

Bancos, lixeiras, postes. Tudo nos mínimos detalhes. Guarnições, portões e gradis. Todo o mobiliário urbano de uma qualidade até hoje nunca mais vista na cidade, em estética e em qualidade!

Theatro-Municipal-de-São-Paulo

Os jardins da Belle Époque Paulistana marcaram o “espírito de uma época”. O “espírito do lugar”, urbanisticamente impactante. O que chamamos de “genius loci”.

Capricho, qualidade, repertório histórico e, por que não, poesia e romantismo!

Quem não gostaria de ter andado nesses caminhos?

Tudo combinava com tudo. Até a torneira de jardim, um objeto a apreciar. Hoje, a ocultar.

Projetos paisagísticos muitas vezes executados por estrangeiros. Pelo pouco que descobri, a maioria engenheiros!

Entre muitos exemplares hoje “invisíveis” pela cidade, como o parque Trianon, as plantas exóticas “invadem” nossa “floresta” (originária: Mata Atlântica). E assim são presentes até hoje no nosso paisagismo contemporâneo, por serem esculturais e geometrizadas. Com cores diferenciadas.

Como paisagista, desejo um dia que nossas áreas verdes novamente unam as pessoas, com sons, verde e poesia. Promovam sensações, memórias e amores.

Retomemos o Paisagismo Belle Époque, para que a cidade dos paulistanos volte a ter perfume de camélias e magnólias, o charme de suas curvas e de seu capricho, esculturas evocando poemas e lendas esquecidos…

Um pipoqueiro…
Um algodão-doce…
O pião rodando no chão…
E o amor, elegantemente, aos beijos tímidos…
Entre árvores e recantos iluminados!

Só assim poderemos devolver a cidade dos paulistanos, toda esta “poesia verde urbana”, com o paisagismo capaz de religar a cidade à alma humana.

Saudades dessa São Paulo dos jardins!

Cintia Ribeiro

Cintia Ribeiro

Arquiteta paisagista e urbanista.Professora de Paisagismo e Decoração. Mestre em Arte, Educação e História da Cultura. Especialista em Desenho Ambiental, Arquitetura da Paisagem e Historia da Arte.
Cintia Ribeiro