Em várias aulas sobre Teoria do Paisagismo provoco os alunos a repensarem o que chamo de “potenciais invisíveis” de um projeto paisagístico. Potenciais que vão muito além do oferecimento de uma paisagem projetada. E estimulo-os sempre a refletir: “Como podemos conceber os jardins do amanhã?”.

Instigo-as com meu “olhar de poeta” (ativo neste área desde meus oito anos de idade) a tentarem imaginar como podemos, por exemplo, oferecer poesia aos usufruidores de um jardim.

Acredito que todo jardim é capaz de oferecer poesia, como um haikai! Termo que nas belas e profundas palavras de Rodrigo de Almeida Siqueira (vencedor do 9º Encontro Brasileiro de Haikai, de 1994, em São Paulo), em seu artigo “O Zen e a Arte Haikai”, pode ser compreendido em sua plenitude:

“O haikai é uma pequena poesia com métrica e molde orientais, surgida no século XVI, muito difundida no Japão e vem se espalhando por todo o mundo durante este século. Com fundamento na observação e contemplação enfatizando o sentimento natural e milenar de apreciação da natureza através da arte, sentimento este inerente a todo o ser humano...”.

O jardim pode sim ser capaz de conter ou de emanar poesia! Sim, um “haikai-verde”, digo! E reforço este ideal com o conhecido poeta haikaísta Paulo Leminski, que entende que “o haikai é uma cápsula de poesia concentrada”.

Ambos são concebidos essencialmente tendo como referência “o sentimento natural e milenar de apreciação da natureza” e ambos também são manifestações de alto teor artístico e de extremada sensibilidade humana.

O caminhar por um caminho ornado com placas de pedra fazem nosso usuário do jardim “sentir” uma métrica imaginada pelo paisagista. Dependendo dos espaçamentos, tornam o caminhar mais lento ou o aceleram, marcando um ritmo específico e imaginado. Assim como a métrica poética do “haikai” o torna singular, por ser breve e profundo, “o caminhar” simbólico neste tipo de poesia.

Com tão poucos elementos o jardim também é capaz de esboçar um microuniverso tão intenso e breve. Por exemplo, trepadeiras-jade (Strongylodon macrobotrys) entrelaçadas num único pergolado, “explodindo” com cachos indescritíveis de cores incrivelmente raras!

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(Fonte: http://quintaldicasa.blogspot.com.br/2013/01/trepadeira-jade.html)

Como se, em linguagem metafórica e poética, o paisagista “pintasse” nuvens com cores singulares num céu que normalmente poderia ser um único manto azul, monótono.

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E quem conhece tal espécime botânico jamais o esquece! Tal qual o famoso haikai do monge Zen, Matsuo Basho (1644-1694), referência nesta arte poética:

Ao sol da manhã

Uma gota de orvalho

Precioso diamante.

Trepadeira-jade, “poesia concentrada”!

E nem comecei a falar de outros espécimes, como centenas de tulipas vermelhas (Tulipa hybrida) “incendiando” campos italianos na Reggio Emilia ou ninfeias-azuis (Nymphaea caerulea) “encantando” águas rasas que vi de espelhos d’água em Lisboa. E muitos outros casos, que agora encantam minha mente, como um “jardim-vertical” natural e raro encravado no penhasco que pude contemplar, repleto de orquídeas-verdes (provavelmente a Cymbidium verde, que segundo o guia local, é endêmica), em um trecho de ar rarefeito da trilha inca que leva a Machu Picchu!

Jardins do amanhã ecoam por jardins cheios de poesia!

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(Fonte: https://www.flickr.com/photos/marcusviniciuslameiras/5398528433/)

Cintia Ribeiro

Cintia Ribeiro

Arquiteta paisagista e urbanista.Professora de Paisagismo e Decoração. Mestre em Arte, Educação e História da Cultura. Especialista em Desenho Ambiental, Arquitetura da Paisagem e Historia da Arte.
Cintia Ribeiro