“Amar é permitir àqueles que amamos serem eles mesmos e não tentar moldá-los segundo a nossa própria imagem. Caso contrário, amaríamos apenas o reflexo de nós mesmos”. Thomas Merton

Minha reflexão de hoje é a respeito dos relacionamentos afetivos e a qualidade de vida conjugal. Tenho recebido constantemente jovens, casais, alguns ainda em fase de namoro, queixando-se do seu par, mostrando-se infelizes, frustrados, decepcionados, alegando que o outro não lhe corresponde às expectativas. Cada um mostra-se investido de muitas “certezas”, ditando a forma como acreditam que o outro deve agir, pensar e sentir. São capazes de traçar uma “escultura psicoafetiva” do companheiro(a) baseados na autoimagem, revelando um desejo de que o outro seja uma cópia de si mesmo.

Então, por quem se está “apaixonado”? Pelo outro ou por si mesmo?

Se não abandonamos esta espécie de torpor ou efeito narcotizante que a nossa imagem (o nosso narcisismo) exerce sobre nós, a vida corre perigo. Esse padrão, bastante comum em todos os tipos de relações, quando presente nos vínculos conjugais desencadeiam frustrações inevitáveis e um extenso repertório de atitudes/sentimentos que se somam aos desacertos conjugais: raiva, agressividade, indiferença, perda do desejo sexual, insatisfações sexuais, desconfiança, ciúmes, melancolia, e por aí vai…

Na base dessa edificação frágil e vulnerável podemos encontrar indivíduos que carecem de conhecer a si mesmos e às próprias vicissitudes. São comuns exigências acerbas, na tentativa de controlar ao outro de acordo com os próprios desejos e fantasias. E quando não são cumpridos (e nunca poderiam ser), deflagram-se as desavenças, os desentendimentos. Não há como transferir ao outro a responsabilidade sobre o que se sente, projetando sobre ele aquilo que é próprio de cada um: construir a própria felicidade e segurança emocional. Querer normatizar os sentimentos e atitudes é um desejo mórbido de apagar as diferenças.

Em nome de uma qualidade de vida conjugal mais saudável, observemos pontos cruciais que podem e devem ser elaborados pessoalmente:

Responsabilizar-se pela própria felicidade.

– É um processo de ilusão acreditar que alguém poderá fazê-lo feliz, pois só a própria pessoa é capaz de tornar-se feliz. É um auto-engano depender de alguém para que a felicidade seja uma constante na própria vida. O outro, assim como nós mesmos, é alguém que atravessa infinitas experiências de vida e irá responder a cada uma de acordo com o repertório próprio,conquistado através do modo de viver e existir. Não há como fazer o outro ser responsável por isso!

Observar a si mesmo com sinceridade.

– Muitas vezes, por não sermos leais conosco mesmos, não admitimos nossas falhas na relação com o outro. Essa postura de se desarmar diante de si mesmo torna a relação mais clara e verdadeira, pois cada um pode assumir-se responsável por si mesmo.

Rever as expectativas diante do outro.

– A pessoa que está vivendo ou se relacionando com você é alguém diferente de você, que traz uma bagagem de vida e experiências, modos de elaboração e processamento de sentimentos pessoais e intransferíveis. Alimentar expectativas impossíveis é traçar um caminho de frustrações e desentendimentos. Quando as expectativas são demasiadas e paralisantes, não há espaço para o verdadeiro afeto.

Viver plenamente.

– A relação conjugal é um dos múltiplos aspectos da vida pessoal. Certamente muito importante e talvez determinante de vários outros. Mas não é o único. Perceba se está dedicando atenção a outros projetos de vida e busca de realização pessoal. Muitas vezes concentrar todas as energias, focando exclusivamente a relação conjugal, cria um ambiente de estresse emocional improdutivo e doentio.

Viver junto ao outro compreende compartilhar a nossa própria vida com a vida do outro. Somos seres singulares, únicos, e por isso as diferenças são inerentes a qualquer relação.. É um projeto audacioso e que requer muita coragem: Ser quem verdadeiramente se é!

Andrea Tarazona

Andrea Tarazona

26 anos como Psicoterapeuta. Especializada em Psicologia Clinica e Psicologia Institucional. Atuando nas áreas: Psicoterapia de Adultos (individual e casal) e Adolescentes, Orientação para pais e gestantes.
Andrea Tarazona