Eu cresci e vivi Nesse grande espaço vazio Deixado pela expulsão da maior favela do Brasil Nesse lugar sem muros sem postes de luz

No meio da grande cidade a gente vivia bem à vontade em total liberdade só fazendo arte solto pelo imenso matagal e o morro todo era nosso quintal Eu me lembro

Quase como se fosse hoje não havia postes de luz nas ruas

E quase toda madrugada eu acordava

Com o barulho dos tiros na rua atrás da minha casa

Era mais um que a polícia apagava no anonimato da escuridão o corpo lá ficava no chão e eu demorava para conseguir voltar a sonhar com o sobressalto do coração

Quantas vezes Quando abria o portão de casa à noite via a esquina forrada de velas acesas

Nas ruas escuras era comum

Nas encruzilhadas ter sempre uma macumba e mal amanhecia faziam a alegria dos mendigos que saíam sorrindo mal conseguindo carregar de uma só vez a cachaça, a galinha, a farofa o cigarro e a pinga

Nos fins de semana lotava de gente nas ruas vinham de todos os lugares

E milhares de pipas penduravam nossos olhares nos ares

Com seus pássaros de papel brigavam sem parar pra ver quem podia fecundar sozinho o grande azul do céu E toda vez que uma pipa estourava a linha e começava a flutuar na imensidão Um arrastão se formava para pegá-la e o primeiro a pegá-la saía gritando exibindo-a como um troféu: tá na mão, tá na mão!

De noite era a atração dos balões que faziam o klabin em festa atraíam multidões

Balões gigantescos

Subiam todos acesos

Com um arsenal de bombas

Carregando milhares de lanterninhas Subiam pesados como elefantes Levantando do chão com dificuldade e subindo

Às vezes quase raspando no telhado de minha casa E assim que os balões decolavam estampando seu desenho aceso na escuridão Seguiam-no em desespero, afoitos, em alvoroço dezenas de carros em caravana íam acompanhando seu vôo numa corrida desenfreada pelas ruas

Esperando recuperá-lo de novo seja lá onde fosse

Não perdiam as esperanças

Às vezes chegavam até o litoral E viam ele ganhar sua liberdade no além mar

Eu me lembro uma vez

Que havia tantas bombas

Que o balão não conseguiu sair do chão

E milhares de rojões começaram a explodir no meio da multidão foi um salve-se quem puder!

Depois de um tempo

Começaram a murar os quarteirões

Onde nós vivíamos completamente à vontade o que foi uma afronta à nossa liberdade e nos fez criar uma nova modalidade de diversão

Não se passava um só dia Sem que um de nós protestasse contra a invasão do nosso reduto disputando quem derrubava mais paredes com um festival de voadoras nos muros Só tinha que tomar cuidado

Para não ser visto pelo seu Joviano Famoso testa de ferro da família klabin que vigiava o espólio como um cão fiel

Diziam que ele foi o único homem capaz de expulsar a favela da Vergueiro foi uma verdadeira operação de guerra os mais rebeldes se recusaram a sair foi necessário um cerco de muitos dias quem saía não entrava mais e tiveram os que não saíram vivos dali e que derramaram seu sangue naquela terra chamada Klabin

A favela era na época a maior favela do Brasil a favela da vergueiro homenageada em músicas pelo Adoniran tinha até um cinema, muitas festas, muito samba e campos de futebol, água eles tiravam dos poços que por sinal foi uma herança sinistra que deixaram porque escondidos sob o mato alto foram armadilhas que fizeram várias vítimas

De repente começaram a surgir os primeiros prédios e seus canteiros de obras foram uma fonte inesgotável das artes

Com esse patrocínio das construtoras tínhamos todo tipo de madeira para montar nossos carrinhos de rolemã para construir nossas pistas de skate pranchas de metal para o surf no asfalto lenha à vontade para nossas intermináveis fogueiras que eram feitas no meio da rua sob inspiração da claridade da lua onde ficávamos cantando até o amanhecer e até hoje suas marcas estão lá indelével como a saudade das nossas amizades o que sobrou desse tempo de felicidade as marcas das fogueiras que eram feitas no chão ficaram gravadas pra sempre no asfalto assim como as canções ficaram pra sempre gravadas nos nossos corações

Aos poucos os prédios foram aumentando

Aos três, aos quatro, aos cinco, aos dez um mais alto que o outro disputando entre si o primeiro raio de sol

E então começamos a fazer nossas festas em suas coberturas Praticamente não houve um só prédio em toda a redondeza

Que não tenha sido estreiada por nós Livres aventureiros da noite

Querendo avistar de lá de cima os distantes horizontes

Que roubavam de nossos olhos Enquanto foi possível aproveitamos

Mas aos poucos essas construções se proliferaram

Como uma praga por toda essa terra E foram durante mais de uma década

O despertador supersônico que me acordou todas as manhãs com a sinfonia dos martelos toda a série de metal das serras E seu cortejo de caminhões e máquinas

Tocaram essa música atonal

Por anos a fio Desde a hora em que o sol se levantava até a hora de o sol se pôr e por todo esse tempo eu aspirei o pó de suas construções até que ao abrir a janela já não via mais o nascer do sol Agora tudo se transformou subiram essas paredes até o céu e se trancaram em suas torres de babel

Estão todos aí mas suas caras nunca se vê parece um bairro fantasma com carros blindados e vidros fumes refém de suas fortunas presos em suas coberturas chegam tão perto da lua mas não podem mais pisar o chão da rua

Vivem em outro mundo com certeza nunca vamos nos encontrar acabaram as fogueiras, os campos ficaram as câmeras e os seguranças e repente eu fui vendo com desgosto que entre a favela e os condomínios não existe mais o nosso lugar ficamos como estrangeiros no próprio lar

Que triste ironia

Chegou a hora de deixar essa terra como um dia expulsaram a favela Agora nos mandam embora e os prédios derrubam nossas casas como um dia derrubaram as malocas

Hoje vivem com medo em seus condomínios e a favela que foi expulsa sempre retorna alguns para trabalharem em suas casas outros não aceitam muito essa história de terem sido mandados embora e agora

Zombando de todas as suas seguranças eles insistem em invadir seus prédios querendo tudo o que era seu de volta.

Marco Piantan

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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