Você já ouviu falar de PANCs? Presentes na dieta dos nativos brasileiros há milhares de anos, as plantas alimentícias não convencionais ganharam fama nos últimos anos ao serem descobertas pela gastronomia moderna. Cabem dentro do termo todas as espécies de folhas, fl ores, frutos, rizomas e sementes de plantas não tradicionais, nativas ou exóticas, que podem ser consumidas pelo homem com ou sem preparo culinário. Muitas delas também são chamadas pela maioria das pessoas de “matinhos” ou “daninhas”, principalmente porque costumam brotar espontaneamente em plantações de outras espécies e até mesmo em lugares inesperados, como entre frestas de calçadas, revelando uma força da natureza que desafi a os limites impostos pela urbanização.

Força que o analista de sistemas Sérgio Shigeeda conhece bem. Morador do bairro da Saúde, há cerca de três anos Sérgio vem aprendendo – e ensinando – sobre o poder que o verde tem de romper o cinza de uma cidade como São Paulo e transformar o ambiente ao seu redor, nutrindo o corpo e a mente de pessoas das mais diferentes idades. Ele é o principal idealizador da Horta Comunitária da Saúde, iniciativa que transformou um antigo terreno abandonado no final da Rua Paracatu em um modelo de desenvolvimento sustentável replicado em outras partes da cidade de São Paulo e até fora dela. “A horta é formada por um coletivo que reúne gente da região e de muitos outros bairros, pessoas que vão aparecendo e ficando, de biólogos a pessoas que nunca tinham mexido com isso antes. É um espaço que muda a relação das pessoas com o meio ambiente, com a cidade e com elas mesmas”, explica.

Sergio Shigeeda, idealizador do projeto

O projeto começou em novembro de 2013 por sugestão de duas estudantes de Urbanismo da Universidade de São Paulo, que decidiram convocar os moradores da Rua Paracatu para juntos iniciarem uma horta comunitária em um terreno no final da rua, onde havia acúmulo de mato, entulho e que representava uma ameaça à segurança dos moradores locais. Para divulgar a ação as estudantes distribuíram panfletos nas portarias dos condomínios na região. Um deles, a poucos metros do terreno, era o prédio de Sergio, que prontamente aceitou o convite e se juntou à iniciativa.

O analista de sistemas não imaginava que em pouco tempo seu nome se tornaria uma espécie de sinônimo da Horta Comunitária da Saúde onde quer que fosse. “Eu nasci e fui criado no estado do Mato Grosso, sempre em contato com plantio. Minha mãe, por exemplo, conhecia algumas espécies de PANCs e introduziu isso desde cedo na minha alimentação. Depois nos mudamos para o interior de São Paulo e mais tarde meu pai me mandou para a capital para concluir os estudos. Já adulto eu adquiri um sítio onde desenvolvi criação de gado e também plantio. Mas a minha área de atuação profissional não tinha nada a ver com isso. Quando a oportunidade de desenvolver uma horta na rua de casa surgiu, senti que era a chance de colocar um antigo desejo em prática”, conta Sérgio.

Com a ajuda de voluntários e a colaboração de moradores vizinhos ao terreno, a horta começou a nascer. “O primeiro passo foi fazer um estudo do solo, pois tínhamos medo de haver algum tipo de contaminação. Só então começamos a montar os primeiros canteiros e o sistema de irrigação. Cheguei a investir quase 2 mil reais do meu bolso para concluir o projeto”. Inicialmente a cisterna era abastecida pela água emprestada por um vizinho à horta. Hoje o sistema capta água da chuva e reaproveita para regar as plantas.

Outra técnica inovadora e sustentável é a de fertilização com compostos orgânicos. “Criamos uma composteira feita de bambus, com massa verde produzida a partir de podas da própria horta, reciclando o material orgânico. Também pegamos as podas de jardins dos prédios vizinhos da região, que seriam encaminhados para o aterro sanitário, colaborando para diminuir o lixo orgânico, reciclando e gerando adubo. Isso ajuda a conscientizar as pessoas. Muitos hoje já compostam em suas residências, com vermicompostagem, utilizando minhocas, e doam o chorume e o humus para a horta”, diz. Há ainda espaço para as estrelas da Horta, as abelhas sem ferrão, desmitificando o senso comum de que todas as abelhas representam perigo. A ONG S.O.S Abelhas sem Ferrão resgata essas abelhas que migram para a cidade e as coloca em hortas públicas, para serem cuidadoras e ao mesmo tempo polinizadoras. “Somos protetores de abelhas sem ferrão, que estão em processo de extinção, pois o desmatamento e a nova adaptação em áreas urbanas estão levando para esse fim”, alerta.

Além do trabalho incansável de Sérgio, a horta é cuidada por voluntários que se dividem em escalas de segundas, quartas e sextas, após o trabalho, e de sábados, das 9 às 11hs. Há ainda os “mutirinhos” e o mutirão mensal, realizado todo segundo domingo de cada mês. “Um dos ingredientes do sucesso de mobilização da nossa horta é a gestão de diferentes visões, ritmos e formas de trabalhar. Nós não impomos regras a quem quer ajudar, mas organizamos o processo de um modo que todos caminhem na mesma direção. Houve bastante rotatividade entre nossos voluntários durante esses anos, mas houve também uma grande fidelização entre os membros que ficaram”, explica Sergio.

Modelo para o mundo

Referência hoje entre as diversas hortas comunitárias que têm surgido cada vez mais na cidade, a Horta Comunitária da Saúde é visitada tanto por pessoas que querem colher os deliciosos e saudáveis alimentos orgânicos ali plantados, como por especialistas do mundo todo que vêm conferir de perto os métodos e os resultados dos mais de 10 canteiros que produzem banana, melancia, abóbora, morango, chuchu negro, couve, tomate, maracujá, alface, almeirão, hortelã e muitas outras plantas e temperos. “Muito além de produzir alimentos, a Horta Comunitária da Saúde promove o diálogo e a reeducação sobre temas como cultivo orgânico, resgate de sementes originais, consórcio de plantas, vida no solo, adubação orgânica versus agrotóxicos, compostagem, resgate de abelhas e a importância da polinização, método mulch de cobertura e uma abordagem sistêmica na ciclagem dos nutrientes na horta. Fora isso, é fundamental pensar que as hortas trazem reflexões sobre o ciclo dos alimentos: tipo e local onde são produzidos, quilômetros embutidos no transporte, qualidade dos alimentos, grandes produtores versus pequenos locais, sazonalidade da alimentação. Enfim, horta mexe com nossa vida toda!”, brinca Lara Freitas, do programa Eco-Bairro e do Conselho Regional de Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz da Vila Mariana.

Para Maria Helena Sozzi Godoy, funcionária da Prefeitura Regional da Vila Mariana e voluntária da Horta Comunitária da Saúde, o interesse crescente das pessoas por hortas urbanas se dá devido ao desejo das pessoas de se ligarem ao alimento, à comunidade e à natureza. “Além disso, a horta urbana orgânica é uma ferramenta eficaz a ser utilizada no aproveitamento dos espaços ociosos da cidade, dando a eles uma nova utilização sustentável. Para Elisa Rocha, também conselheira do CADES-VM, a iniciativa social e comunitária das hortas surge como uma resposta a uma demanda real e à carência do tema no âmbito do planejamento urbano e das políticas públicas. “É uma iniciativa que atende aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável postulados pela ONU, nas pautas de Saúde, Alimento e Cidades”, lembra.

O sucesso é tanto que a atuação do coletivo tem transcendido a cerca de árvores da Rua Paracatu. “Nosso coletivo se tornou forte nas ações ambientais e estamos plantando árvores em calçadas, praças, parques e outras áreas. Já participamos do plantio de 6 florestas em São Paulo. Na nossa região, atuamos na Praça Soichiro Honda, onde mais de 300 pessoas plantaram cerca de 130 árvores de 40 espécies da Mata Atlântica nativa. Esses bolsões de florestas adensadas ajudam a restaurar esse espaço de terra, e servirão como um pouso de avifauna e abelhas, gerando uma biodiversidade aérea e subterrânea. Também colaborará no sequestro de carbono, ajudando a diminuir de 2 a 3 graus na área do entorno melhorando as condições climáticas e a saúde dos moradores locais”, afirma Sérgio. No primeiro final de semana de fevereiro, Sérgio nos convidou para participar de um mutirão de 60 voluntários na floresta de bolso da Praça Soichiro Honda, onde, por iniciativa própria, os presentes executaram serviços de manutenção e limpeza.

Hortas pela cidade

Além da Horta Comunitária da Saúde, destacam-se também em São Paulo iniciativas como a Horta das Corujas, na Vila Beatriz, e a horta do Centro Cultural São Paulo, na região do Paraíso. Na Chácara Klabin, por iniciativa da Catedral Budista Nikkyoji, há uma pequena horta comunitária em atividade na Rua Francisco de Vitória. Para Daniel Moral, idealizador da Revista CHK, o bairro tem potencial para abrigar outras iniciativas do tipo. “Uma horta comunitária produz valores como sustentabilidade e senso coletivo, que são pilares de um bairro melhor e pronto para o futuro. Com certeza está nos nossos planos encontrar parceiros na região para desenvolver trabalhos como o do Sérgio, da Horta Comunitária da Saúde, e o da Catedral Budista Nikkyoji”, afirma. Para Sérgio, a presença de crianças na Horta Comunitária da Saúde é um fator importante para um amanhã melhor. “Nós temos a participação das crianças da escola vizinha, que plantam e cuidam de um canteiro da escola. Quando colhem, elas consomem os alimentos na própria escola, completando um ciclo. Curiosamente, são elas que trazem os pais para conhecerem a horta e os ensinam sobre alimentação saudável. Compartilhando com a futura geração, certamente elas compartilharão todas essas informações e colaborarão para uma formação permacultural”. Mas comemora: “Estive recentemente no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e tudo o que está em exposição é exatamente o que fazemos há anos. Não podemos esperar pelo amanhã. Acho que cada cidadão voluntário que participa conosco terá uma ponta de orgulho de estar colocando a nossa Vila Mariana e outras regiões na vanguarda”.

Quem quiser participar dessa transformação pode procurar o Sérgio na Horta Comunitária da Saúde, na Rua Paracatu, 66, e acompanhar todas as atividades pelo grupo de mesmo nome no Facebook.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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