Fé é uma palavra mágica, poderosa e que move alguns de nós para confiar em algo sem segundas intenções. Quando temos fé em algo, demonstramos e defendemos nossas crenças sem julgamento e com uma força estarrecedora. Mas quantos de nós acredita ser criativo e por que o tema criatividade é uma moeda tão rara? Cada vez mais nos deparamos com problemas diários de difícil solução. O mundo ficou complexo e esse fenômeno se estende no país em que vivemos, nos estados e cidades, até nossos bairros, inclusive esse que vivemos, a Chácara Klabin. Viver em nossas ‘pequenas ilhas’, demanda um pensamento criativo para resolver alguns dos problemas que enfrentamos todos os dias.

Violência, má educação no transito, sujeira, falta de cidadania, para citar os poucos e básicos que nos afligem. E sim, não pense que isso é problema exclusivo de governos e prefeituras. A nova sociedade é mais colaborativa e cada cidadão tem que cumprir um importante papel de mudança e preservação de seus espaços.

Isolando problemas políticos e econômicos que afetam cada um de nós, o fato é que a criatividade pode nos ajudar a viver melhor em nossas cidades e bairros. Em toda a minha infância fui considerada uma “aluna muito esforçada”. Por esforço, entendam, horas de estudo, dias sem brincar na rua e um resultado efetivo de notas boas, mas não as melhores e mais altas. Outros colegas da classe eram considerados os “inteligentes”, mesmo sem prestar muita atenção e estudando apenas por cinco minutos, eles conseguiam obter uma nota no limite, o suficiente para passar de ano. Havia um terceiro grupo, denominado por nós como “diferentes”, eram os mais admirados, exaltados pelos professores pela sua inventividade e capacidade criativa. Quase artistas para nossa época. Os “criativos” obtinham notas boas, as vezes excepcionais, mas o que mais eu admirava neles era a capacidade de eles terem feito algo que eu também tinha pensado de forma similar, por achar que não tinha um pensamento a altura de ser “criativa” não expressava nenhuma dessas ideias e, portanto, não demonstrava a vontade de mudar algo de forma diferente. Parecia algo tão simples quando eu olhava para aqueles colegas. Desejava muito ser uma “diferente”. A criatividade me fascinava, mas eu não era. Ou pelo menos pensava assim.

A frustação de criança em não aprender a ser uma pessoa criativa me guiou para o lado racional, a tangibilidade das atitudes e do raciocínio lógico. Fatos e dados sempre foram muito importantes na minha vida. Após alguns anos estudando inovação e exercitando no dia-a-dia o pensamento criativo, examinei minuciosamente todas as conquistas e feitos de criança e me deparei com muita criatividade incubada por falta de estímulos a expressão e o medo de ser julgada.

No mundo inteiro, executivos, educadores e pensadores tradicionais tem buscado a passos rápidos e largos um modelo de pensamento criativo para suas empresas, instituições e sociedade. Evocam um modelo racional, uma metodologia e uma caixa de ferramenta que possa resolver algo no caos da irracionalidade rotineira.

A criatividade a meu ver trata de um estado mental e por isso é atemporal. Criatividade não tem idade, é só olhar a produção de Martha Graham, a inovadora coreografa, bailarina e viveu até 97 anos revolucionando o mundo da dança moderna ou nosso brasileiro Oscar Niemeyer que até 104 anos criava e ainda deixou um legado de projetos a serem concluídos.

Embora por muitos anos o pensamento criativo tenha sido considerado um dom para uma seleta minoria de humanos, pessoas como Martha e Niemeyer tinham como princípio cultivar o trabalho, e produziram muitas coisas até o final de suas vidas. E para muitas pessoas. A professora e pesquisadora, Theresa Amabile, da Harvard Business School define “a criatividade como a descoberta de um novo significado de valor”; assim fundamentou seus estudos numa posição das chamadas “situações criativas”, as circunstâncias e contextos, o ambiente social e as diversas formas e processos como ele gera, incentiva, desenvolve ou limita a criatividade. Um bairro como o nosso vive dentro de um contexto socioeconômico com sua comunidade que as vezes atua positivamente. As vezes não, pois não entende que o bairro que ela mora é uma extensão de sua casa.

Essa confluência de fatores e valores diversos assim como a interseção de temas que gostamos, frequentemente geram alguma solução criativa. Afinal quantos de nós nesse bairro não tem habilidades únicas e criatividade para ajudar a resolver problemas locais? Vemos pessoas pelo bairro cuidando de nossos canteiros e praças. Outros coletando roupas e alimentos para os mais necessitados. Alguns proclamando causas com melhorias. E claro, reclamando e informando as autoridades governamentais sobre esses problemas cotidianos que causam problemas para tantas pessoas.

A dinâmica da criação é favorecida ao combinar ideias inusitadas, estabelecer analogias, conectar novos pensamentos e objetos que não pareciam ter qualquer relação entre si. A matéria prima para as analogias e conexões são os fatos observados, conhecimentos e experiências adquiridos anteriormente, ou seja, o repertório acumulado em toda nossa existência. Esse contexto cultural é individual é fomentado através da curiosidade, resiliência para recomeçar, motivação para aprender “o que é novo” sem pré-julgamento e satisfação para realizar algo.

Portanto, o processo de criatividade envolve pessoas, processos e serviços e algum tipo de pressão ou problema para resolver ou criar algo. Não nos falta a pressão. Não nos faltam problemas. São preocupações com carros em alta velocidade pelas avenidas do bairro ao atravessar uma rua todos os dias. Não sabemos se teremos água, pois há uma forte seca no Estado. Não sabemos se seremos assaltados a mão armada ou levarão nosso carro, tênis ou celular de nossos filhos. Nos deparamos com garrafas plásticas nas ruas que andamos entupindo bueiros. Enfrentamos viroses sem nomes. Então o que nos falta? Todas essas combinações juntamente com a busca para resolver um tipo de tensão é que proporciona a força motriz da criação. Isso é o que chamamos de Atitude Criativa.

Para encontrar esse manifesto interior de criatividade, pense naquilo que mais atinge de forma negativa sua família ou você pessoalmente, nesse bairro. Pense numa pequena atitude que com sua habilidade e criatividade possa ser resolvida: pode ser na sua casa, no seu condomínio, no local que você trabalha do bairro. Pensou? Agora tente recortar uma pequena fração do que precisa ser feito e amanhã mesmo, ponha em prática. Uma pequena parcela fará a diferença e isso será uma atitude criativa para transformar o bairro numa comunidade melhor para se viver e trabalhar. Tenha fé. Principalmente em você, a auto estima de que é possível melhorar, porque nós todos temos o dom da atitude criativa. Ela pode estar um pouco adormecida ou tímida, mas ao despertar poderá contribuir para melhorar.

Tenha em mente algumas dicas práticas:

• Para ser criativo busque novas atitudes mentais
• Experimente algo novo todo dia
• Aprenda algo novo sempre que puder
• Converse com seus vizinhos e colegas de trabalho do bairro. Pergunte o que eles fazem. Talvez você encontre uma solução para aquele problema que te incomode. Talvez você ganhe um amigo. Ou até faça um grande negócio.
• Seja curioso. Isso requer disposição para explorar alternativas
• Seja resiliente.Nem sempre nossas ideias são aceitas por todos. Nem todas as aceitas dão certo. A prática faz com erremos. Quando erramos aprendemos mais e temos a chance de criar novamente e dar certo.
• Crie desafios pessoais. As pessoas criativas não fogem dos desafios, mas os enfrentam perguntando “como eu posso superar isto? ”. Elas têm uma atitude positiva e veem em cada problema uma oportunidade de exercitar a criatividade e conceber algo novo e valioso.

Martha Terenzzo

Martha Terenzzo

Profissional multifacetada com experiência de mais de 25 anos na área de Marketing e Inovação. Diretora da Inova 360º, empresa de Inovação e Negócios. Sócia da Storytellers Brand´N Fiction.
Martha Terenzzo