Em meio a tantas notícias sobre febre amarela, me peguei refletindo sobre paisagismo nas cidades. O que me fez querer dialogar, com vocês (leitores, colegas de profissão, alunos e estudantes em geral), levantando a seguinte questão: Até que ponto a estética nos projetos paisagísticos deve se sobrepor a uma urgente restauração ecológica?

 

Muitos paisagistas, pressionados por seus clientes ou não, historicamente, vêm priorizando espécimes vegetais EXÓTICOS. Isto se dá pelo seu alto valor estético! Já que tivemos todo um passado na história do paisagismo no Brasil que têm como heranças, em especial em São Paulo, o jardim francês (totalmente geometrizado e podado) e os jardins italianos (com certo grau de geometrização, adoção de vasos em destaque e menos rígidos esteticamente. Mas ambos, remanescentes em nosso projetos atuais, têm algo em comum: adoção de plantas exóticas. Logo, de cliente em cliente, vamos fazendo um mosaico ecologicamente desarmônico. Fato que leva à desequilíbrios ecológicos nas manchas verdes urbanas. Incompatíveis com a natureza local.

Alguns devem estar lembrando: Mas no meu projeto têm nativas! Mas sabemos que ainda são minoria nos memoriais botânicos aprovados. Paradigmas históricos, pré-conceitos nos imobilizam. Onde quero chegar, visando conscientizar à todos? Como paisagista, tenho um compromisso ambiental com a natureza. Leis atuais ainda não valorizam com prioridade a vegetação urbana nativa. O que leva a impactos significativos – negativos – na avifauna e interfere também na cadeia alimentar. Chegamos então aos sapos e insetos, por exemplo. Sem sapos, sem aves = muito mosquitos! Muito mesmo. Sem peixes = muitas lavas de insetos proliferando.

Como docente, devo elogiar a tentativa musical do CD “Pequeno Cidadão” (música: “Sapo-Boi”, interpretada pelo querido Arnaldo Antunes). A música, de 2009, já alertava para este problema ambiental. Vejam um trecho da mesma:

“SE EU FOSSE O PREFEITO AQUI DA CAPITAL
PEGAVA O SAPO-BOI E ESPALHAVA PELA MARGINAL
SAPO-BOI, SAPO-BOI…
A DENGUE NÃO PASSA DE UM MÊS,
POIS O MOSQUITO É O PRATO DA VEZ”

A criançada cantou muito, mas os adultos (muito menos políticos e governantes) não se conscientizaram e agora, quase dez anos depois, é cada vez mais impactante surtos de doenças associadas à insetos. A intenção não é fazer uma lista. Queremos chegar a um ponto paisagístico: MAIS exemplares vegetais NATIVOS, ou seja, pertencentes ao ecossistema local, MENOS doenças como febre amarela, dengue, etc. Pássaros locais se envenenam com frutos exóticos. Logo…

De 2009 para 2010, com a tragédia da pequena, mas histórica, imersa por lama e água, cidade de São Luis do Paraitinga (observação: a 187 quilômetros de São Paulo). Esta eu pude visitar pós enchente e apreciar os poucos exemplares arquitetônicos históricos que “sobreviveram” (a saber: eram 437 imóveis pertencentes ao século XVIII e XIX tombados pelo Condephaat e um carnaval de rua de referência) e pude visualizar o vale onde, com espanto, percebi que quase inexiste mata nativa.

Inundações e Deslizamentos impossíveis de esquecer na Região Serrana do Rio em 2011. Em 2015 tivemos o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, causado pela mineradora Samarco. Todos fruto de uma conjunção urbanística caótica: ocupação desordenada e irregular + impermeabilização do solo + supressão da vegetação nativa = desastres ambientais. O pior, ecologicamente, é o pós-desastre. Já que a dinâmica do meio
ambiente foi toda alterada! E em casos como este, sapos e outros seres que contribuem para a manutenção da quantidade de mosquitos) morreram. Peixes, inclusive. Aves predadoras, também.

Voltemos no antes da desgraceira. Um dia alguém fundou cidadezinhas muito próximas à leitos de rios. Em estudos de Desenho Ambiental, que pude cursar há anos atrás, sabemos que os rios precisam de margem desocupadas. Na prática, a natureza é muito mais inteligente que qualquer pensamento humano: ela “projetou” estas margens para casos específicos de inundações pontuais ou frequentes, dependendo da região. Bom, mas não
podemos reconstruir estas milhares de cidadezinhas e nem as grandes com sustentabilidade desde a criação das mesmas. Aí entra os paisagistas! Que até hoje – aqui no Brasil – não podem trabalhar devidamente em projetos urbanos, infelizmente. Onde reinam projetos de engenheiros, com suas engenharias, mas pouca sustentabilidade e zero restauro ecológico (no caso do Rodoanel, por exemplo, transferir plantas para o Jardim Botânico não é proteger a natureza ou mitigar processo nenhum, a saber. São só “sobreviventes de guerra”). Mas deixo já meu
parabéns ao Projeto da Imigrantes, que suspendeu as vias e criou túneis para deixar INTACTO o vai-e- vem da fauna e avifauna sem quase interferir neste exemplar raro de Floresta Ombrófila (Mata Atlântica). Já que quando passamos de carro e ônibus por vias em meio às matas, 200 metros de cada lado da via a floresta “morre” (animais, aves, entre outros seres se afastam). Tornando estas bordas verdes em mini “desertos lineares verdes” (como chamamos no desenho ambiental). E outros impactos além dos 200 também. Corroendo a mata – não visualmente- mas ecologicamente condenando-a.

Para mostrar aos leitores que nós, como paisagistas, somos mais do que desenhistas de jardins (mesmo de praças e de jardins públicos, como já fiz): podemos ser mais! Podemos também reequilibrar ecossistemas degradados!

Tenho para vocês uma raro exemplo – pioneiro em restauro de biodiversidade em áreas degradadas – que admiro acima de todos: o arquiteto paisagista e urbanista Thierry Jacquet. Pude vê-lo e ouvi-lo há anos atrás na palestra “Projeto e Meio- Ambiente: A Vegetação como Elemento de Estruturação do Espaço, no 14º Congresso Brasileiro de Paisagismo.

Um ponto da palestra de Jacquet que me fez, na época, refletir não apenas sobre estes projetos urbanos, mas também o que um arquiteto paisagista pode fazer. No caso, o parque Du Chemin L´Ile (2009), em Paris. Fui nesta época da despoluição do famoso rio Sena e pude visualizar cardumes inteiros passeando pelas suas margem e nenhum odor do mesmo ao andar por suas belas e projetadas margens históricas. Pensei: Como? Descobri assim este arquiteto paisagista, que interviu nos 145.000m2 deste local que era um antigo depósito de lixo? Basicamente, ele projetou (junto com a Agência Phytorestore, que ele mesmo fundou) um novo parque que tem a incrível função de despoluir o Sena. Para tanto, na palestra, ele explicou que utilizou o que denominou na
época de “jardins filtrantes”. Não é só com um inteligente sistema de irrigação que este projeto deu certo. Ele mesmo disse que a equipe tem grande conhecimento de Biologia e Botânica porque a ideia não é só fazer um parque, mas restaurar e até melhorar este ecossistema local, com “fitorremediação” (ver foto da apresentação da palestra). Um processo 100% natural. E ele e esta equipe faz em vários outros projetos na Europa.

Exemplo para vocês estudarem: Condomínios e bairros ecológicos na China (Eco-City Wuhan; 50.000 habitantes) e Naturalização dos três rios Shanghai na China (80km de margens).

 

 

É este tipo de filosofia ambiental que o Brasil precisa, para ontem! E que defendo na prática do Paisagismo Urbano. Que pode melhorar a vida urbana, em especial, afastando pestes já que saúde e natureza sempre foram um elo que nunca deveria ser perdido. Já passou da hora de biólogos, químicos, engenheiros ambientais, paisagistas e botânicos trabalharem juntos aqui no Brasil, no caso. Você, paisagista, veja que seus projetos, e de nosso outros colegas, geram impactos – definidos pelo seu livre-arbítrio – negativos ou positivos para todo ecossistema que o contém. Até que ponto a estética nos projetos paisagísticos deve se sobrepor a uma urgente restauração ecológica?

Resposta: Neste caso acima comentado, sempre. O sucesso do visual destes projetos urbanos são evidentes. Só não nascem da pura imaginação. Sua função ecológica revitalizadora é a essência. E tudo isso prova que – já a anos atrás- é possível. Mesmo sem apoio regional, tenhamos um pensamento coletivo também visando o retorno do equilíbrio do ecossistema com nossos projetos paisagísticos interligados – filosoficamente (sustentabilidade)–entre si. De grão em grão…a gente vai refazer boa parte da mancha verde urbana, pensando sim em pássaros,
anfíbios e insetos. Tudo isto ornado com o lado artístico desta profissão.

 

Vamos aprender, de novo, com os europeus, então! 😉

 

Fotos: phytorestore.com.br

Cintia Ribeiro

Cintia Ribeiro

Arquiteta paisagista e urbanista.Professora de Paisagismo e Decoração. Mestre em Arte, Educação e História da Cultura. Especialista em Desenho Ambiental, Arquitetura da Paisagem e Historia da Arte.
Cintia Ribeiro