Quem já foi para a Itália, em cidadezinhas próximas à Roma, e encontrou paisagens famosas em tons de lilás conhecidas como campos de lavandas, na região da Tuscania, no Lázio? Ou na grande região italiana da Toscana, como eu encontrei? Ou ainda, já pôde visitar a região de Provence, na França e também teve esta experiência sensorial singular? Regiões de uma mistura harmoniosa de charme, simplicidade e sofisticação. Ambas paisagens com ambientes de uma monocromia dominante e de aspectos medievais: cidadezinhas medievais (muitas tombadas pela UNESCO), arquitetura rústica, culinária italiana secular e ao mesmo tempo romântica ao estilo europeu.

Com olhar de paisagistas, pensemos: Porque é tão pouco usado paletas monocromáticas ou de tons análogos nos projetos de Paisagismo no Brasil? Sim…você leitor e eu pensamos juntos… aspectos culturais condicionam estas escolhas e, no nosso caso, o clima tropical, a ecologia e o tipo de solo recebem melhor florações multicoloridas em tons quentes, na maioria: amarelos, laranjas, vermelhos, por exemplo. Mas exceções geográficas e climáticas também acontecem no Brasil. Logo, deixo aqui minha dica: Vá para a cidadezinha de Cunha (SP) – famosa por ser a “nossa pequena Toscana, nossa pequena Provence”!

A apenas 235km de São Paulo ou a apenas 1 hora de Paraty, Cunha (SP) faz parte da chamada “Rota do Ouro” (rota de escoamento das riquezas minerais advindas da Minas Gerais da época colonial e imperial), que interliga ainda hoje muitas cidadezinhas, como Cunha, para aventureiros 4X4 ou amantes das paisagens coloniais remanescentes.

A “Estrada Real” é a principal via e ainda resguarda marcos reais, como totens da época colonial que ainda a demarcam. Passeie de bicicleta nesta rotas e apreciem estes detalhes. Já na cidade em si, edificações históricas coloniais e seu rico artesanato vitrificado, fruto de grupos de artesãos pertencentes a mais de 20 ateliês, que festejam a abertura dos fornos de cerâmica em datas agendadas. Normalmente perto do Carnaval, por exemplo, atraindo centenas de visitantes.  Dos 20 fornos, tipo Noborigama, existentes no Brasil, cinco estão em funcionamento em Cunha, produzindo cerâmica nipônica originária inicialmente na China, posteriormente introduzida no Japão – inacreditavelmente – desde o remoto Período Neolítico. E chega ao Brasil na famosa Imigração Japonesa em São Paulo. Oposta a produção industrial, esta técnica produz peças muito personalizadas e únicas. Muito apreciadas por paisagistas que já incluem elementos artesanais em seus projetos.

(Arquivo pessoal de Cíntia Ribeiro Rondon)

Enfatizando agora o assunto do paisagismo, Cunha (SP) me surpreendeu em minha estadia deste ano, por dois lugares: O chamado “Contemplário” e o “Lavandário”. O primeiro com aspectos que encantou, por ser um campo de lavandas que valorizou (segundo funcionários de lá) o ar bucólico deste tipo de jardinagem. Gerando, dessa forma, uma paisagem mais fiel ao que vi em terras italianas. Já o segundo, visualmente não tem o mesmo charme aos olhos dos paisagistas, mas importante centro de cultivo em escala industrial, com produção expressiva de: sabonetes, perfumes, cremes dermatológicos e decoração.

(Arquivo pessoal de Cíntia Ribeiro Rondon)

Como professora e Historiadora da Arte, focarei o “Contemplário”. Como o próprio nome denuncia: para ser contemplado. Minha surpresa é que antes mesmo de adentrar neste precioso jardim monocromático, os ventos perfumados me fez em estado de deleite indescritível. O que faz qualquer visitante querer entrar o mais rápido possível neste campo. Mesmo com passeio simples de praticamente um único caminho, experiências visuais e estéticas brotam a cada minuto. Os campos de lavandas, mergulhados num silêncio sagrado e altamente relaxante, hipnotizam. Fato que me levou a contemplá-lo por mais de uma hora. A paisagem do entorno é pontualmente remanescente de florestas de altitude, e também neste ponto com interferências das montanhas da Serra do Mar e da área florestal do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Uma complexidade ecossistêmica muitíssimo singular.

(Arquivo pessoal de Cíntia Ribeiro Rondon)

(Arquivo pessoal de Cíntia Ribeiro Rondon)

A saber, as lavandas são do gênero Lavandula, da família Lamiaceae. Pequenos arbustos, perenes e aromáticas. No caso do chamado “Lavandário”, afirmam cultivar a Lavandula dentata, principalmente. E afirmam que no Brasil florescem o ano todo. Mas sei que no Hemisfério Norte, no caso da Itália e França, elas florescem ao final da Primavera e início do Verão. Quando fazem as famosas “Festas della Lavanda”.

Como cultivá-las em ambiente doméstico ou em jardins residências? Segue a dica: terra bem drenada (PH entre 6 e 8), adubo orgânico, muito sol (no Brasil, varandas voltadas para a face Norte tem sol o dia todo) e solo calcário. Mudas novas precisam ser regadas diariamente, sem encharcar. Depois espaçar a cada dois dias e, finalmente, só uma vez por semana. E o mais interessante, pode enfeitar vasos, pratos e até temperar comidas. Neste caso, por exemplo, no “Contemplário” você pode se permitir a experimentar sorvetes de lavanda! Comprar sabonetes para um relaxante banho de lavanda ou perfumar ambientes.

(Arquivo pessoal de Cíntia Ribeiro Rondon)

Outra dica, é alternar os passeios paisagísticos com visitas aos inúmeros atelier de cerâmica, artesanato e até de joias artesanais. E, no meu caso, como boa arquiteta-paisagista apreciadora de história, escolhi pousar na Pousada Samana, de arquitetura colonial, não muito longe do “Contemplário”. Fica dentro de uma fazenda histórica preservada de Cunha, A “Fazenda Santa Bárbara”. Casario datado de 1880, com mobiliário de época e à luz de velas que te remete ao século XVIII. Me senti na “Casa das Sete Mulheres”, sem estar no sul do Brasil. E uma hospitalidade incrível, aos cuidados de Dona Roseli. E com uma comidinha de fazenda da Dona Nenê.

(Arquivo pessoal de Cíntia Ribeiro Rondon)

Paisagismo também é sensibilidade. Paisagismo também é cultura. E estas paisagens, mares de lilás, podem inspirar paisagistas a resgatar paisagens bucólicas, principalmente em grandes centros urbanos como a cidade de São Paulo. Pois tornam sagrado o silêncio, momentos de reflexão e até do que chamo de “poesia paisagística”.

(Arquivo pessoal de Cíntia Ribeiro Rondon)

 

Ao nosso amigo “Nando” (in memoriam*),

Que infelizmente teve que partir,

levando sua “luz” para longe de nós.

*Raul Fernando Nantes Antonio

(Agradecimentos a Rita Prescinotti, amiga de viagem, que contribuiu para a realização desta matéria)

 

Cintia Ribeiro

Cintia Ribeiro

Arquiteta paisagista e urbanista.Professora de Paisagismo e Decoração. Mestre em Arte, Educação e História da Cultura. Especialista em Desenho Ambiental, Arquitetura da Paisagem e Historia da Arte.
Cintia Ribeiro