Na última edição da CHK contamos a história da Favela do Vergueiro, a maior favela da cidade entre os anos de 1960 e 1970, que chegou a abrigar mais de 5 mil famílias e ficava exatamente onde hoje é a Chácara Klabin. No terceiro episódio desta série sobre as raízes do nosso bairro, voltamos ao começo dos anos de 1980, quando os resquícios da Favela do Vergueiro deram lugar ao “loteamento Klabin”, como era conhecido na época. Seria o começo do bairro como o conhecemos hoje, com a chegada das primeiras casas e, mais tarde, os primeiros prédios.

E ninguém melhor para relembrar dessa época do que Jair Freire, que junto com sua esposa e três filhas, é o primeiro morador da Chácara Klabin. Em um bonito sobrado na Rua Garapeba, Jair nos recebeu para uma tarde de muitas lembranças. “Eu trabalhava na Indústrias J.B.Duarte (fabricante do famoso óleo Maria) e morava
na Rua Costa Aguiar, no bairro do Ipiranga. Quando surgiram as primeiras notícias sobre o loteamento no Klabin,
o sonho de todos era atravessar a Ricardo Jafet e vir morar para estas bandas. Comprei o lote 31 por cerca de Cr$ 500.000,00 (quinhentos mil cruzeiros) em 1976. Embora a maioria dos lotes fossem de propriedade de 4 dos herdeiros da família Klabin, comprei o terreno da empresa que fez o asfaltamento das ruas no loteamento, que deve ter recebido o lote como pagamento”.

Quando começou a construir sua casa em 1978, Jair não era o único no loteamento. Onde hoje é a Rua Garapeba,
seu vizinho Rafael também já estava levantando sua casa. Em 1980, a casa da família Freire foi a primeira a ficar pronta e eles se mudaram para o Klabin. Cristina, sua filha mais velha, lembra até hoje dos primeiros dias no bairro. “Dava medo. Nós éramos a única casa com gente morando em uma área de quilômetros. Tinha muito mato em volta e o vento fazia um barulho ensurdecedor. Lembro que quando a gente voltava de táxi da escola, no Ipiranga, o motorista se recusava a entrar no loteamento, acho que com medo de assalto”.

Jair se lembra com detalhes dessa fase. “Após a saída das últimas famílias da Favela – diz a lenda que muitos foram ameaçados de morte para isso –, eles fecharam todas as entradas e saídas com cavaletes e muito arame farpado. Além disso, havia a vigilância atenta do Seu Joviano, um homem negro enorme, que andava pra cima e pra baixo numa Veraneio de 6 cilindros, cuidando para que ninguém entrasse e montasse algum barraco novamente. O mato cobria tudo. A única entrada que havia era aquela que hoje é a saída para a Rodrigo Vieira. Existia também próximo da saída um barraco de madeira que era o ‘escritório’ do Klabin, onde ficava o corretor, sr. Guimarães, um velhinho simpático, sempre sob a ‘proteção’ do sr. Joviano. Ele dava o início no negócio, mas o fechamento era em um escritório no centro da cidade, na Rua Pedro Américo, uma travessa que ligava a Praça da República à Av. São João”.

O início da comunidade

Quando Jair e sua família chegaram ao bairro, não havia nenhum recurso por aqui. Nem mesmo luz, saneamento básico ou telefone. Cada uma dessas conquistas surgiu das primeiras reuniões com os moradores de 8 casas na época. Nessas reuniões os moradores discutiam todotipo de assunto relacionado ao bairro e decidiam juntos as ações. Tudo dependia do esforço e dos contatos que alguns moradores tinham com autoridades e pessoas que pudessem ajudar. Chega ao Klabin nessa época o conceito de comunidade.

“Pra tomar banho, no começo, a água caía do chuveiro de pingo em pingo. Depois de um tempo a rede foi ligada
na caixa d’água da Vila Mariana, e aí melhorou bastante. O esgoto era fossa no fundo da casa. A iluminação da rua no começo era uma lâmpada que cada uma das casas colocava do lado de fora”, lembra Jair. Mas havia também muita coisa boa no dia a dia dos primeiros moradores do bairro. Claudia, filha mais nova da família Freire, cresceu brincando nas ruas, onde era muito difícil ver um carro passando. Todos se conheciam pelo nome e a Chácara Klabin era uma cidade de interior no centro da maior cidade do país.

Daniel Moral, idealizador do portal e revista CHK também viveu essa época, chegando à Chácara Klabin em 1982, com 2 anos de idade, quando seu pai construiu uma casa na Rua Agnaldo Manuel dos Santos. As lembranças da infância continuam vivas em sua memória: “O bairro era basicamente de casas e me lembro de apenas um prédio que ficava na Rua Pedro Pomponazzi. Na minha rua tinham mais 8 ou 9 casas e todos se conheciam. Lembro que na minha infância nós entrávamos em todos os terrenos do bairro e montávamos ali pistas de bicicleta, rampas de skate, esconderijos e fazíamos muitas guerras de mamonas, pois existiam várias mamoneiras no bairro. Além disso era comum abrirmos uma rede de vôlei entre o portão de uma casa e outra para jogarmos no meio da rua, isso era normal. Descíamos a rua Pedro Pomponazzi de carrinho de rolemã, aliás a rua era conhecida como a “Rua do Prédio”, pois só existia um prédio no bairro”.

daniel

“Outra figura inesquecível desta época era o Seu Joviano, que vigiava o bairro e sempre aparecia em nossascasas para reclamar sobre a bagunça que fazíamos nas ruas (risos). As noites eram bem escuras, pois a iluminação era muito precária. Escutávamos os grilos e constantemente fazíamos fogueiras dentro e fora dos terrenos do bairro, era muito bom! Tínhamos uma turma de mais de 30 crianças e adolescentes que se encontravam quase todos os dias em frente a minha casa na Rua Agnaldo Manuel dos Santos”. Renata, a filha do meio de Jair, se lembra de quando o cenário começou a mudar. “Com a chegada dos prédios e a abertura das entradas o bairro mudou bastante. As ruas se tornaram passagem de carros e a vizinhança aumentou muito. Infelizmente, a proximidade que havia entre os moradores acabou e aquele clima foi se perdendo”. Daniel concorda: “O bairro mudou muito, as casas deram lugares aos prédios, a quantidade de moradores quadriplicou. Hoje temos um distanciamento muito grande entre os vizinhos, o que é normal pela verticalização.” Para a família Freire e a família Moral, apenas uma coisa permaneceu: o sentimento pelo bairro. Com 76 anos completos em maio, Jair não pensa em sair da Chácara Klabin – mesmo que o bairro não se pareça em nada com o lugar que o recebeu em 1978. “Jajá”, como era conhecido pelos vizinhos, guarda até hoje com carinho as fotos da época e até as atas das primeiras reuniões de moradores.

Na vida de Daniel, a paixão pela Chácara Klabin é mais que uma boa lembrança, se tornou um ideal. “Eu cresci
brincando pelas ruas deste bairro e o sentimento que tenho é de gratidão pela infância maravilhosa que passei
aqui. Isso me incentivou a buscar um meio de resgatar o sentimento coletivo que existia no bairro. Montei o portal em 2002 justamente para as pessoas terem um canal para se conhecerem e através disto buscarem melhorias ao bairro. Além disso, quero que meu filho consiga ter uma infância aqui parecida com a que tive e luto diariamente para que isso aconteça, pois acredito que é possível”.

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Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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