Antes mesmo do começo efetivo das obras de expansão da Linha 5 – Lilás do Metrô, no começo de 2011, o projeto, que ligará a estação Capão Redondo à estação Chácara Klabin, dividiu opiniões no bairro. Entre as principais reclamações está o impacto das obras nas ruas Pedro Pomponazi e Ibaragui Nissui, onde está sendo escavado o Poço de Ventilação e Saída de Emergência Dionísio da Costa, uma construção relacionada à integração da estação Chácara Klabin com o túnel da Linha Lilás – o poço é o trecho final da escavação que partiu do Poço Bandeirantes, na região do Campo Belo. Moradores questionam incômodos com o barulho, interdição de vias e risco de danos à estrutura dos prédios. Conversamos com os responsáveis pela obra para entender a situação.


Por que expandir a Linha 5 – Lilás?

Em operação desde 2002, ligando as estações Capão Redondo e Largo Treze, a Linha 5, que passa também pelas estações, Campo Limpo, Largo das Belezas, Giovanni Gronchi e Santo Amaro, sempre carregou o estigma de “ligar nada a lugar nenhum”, por, inicialmente, não oferecer aos moradores de uma das regiões mais populosas da cidade (mais de 300 mil habitantes), uma alternativa eficiente para o deslocamento ao Centro. Mesmo com a posterior ligação com a Linha 9 da Companhia de Trens Metropolitanos (CPTM) e a mais recente inauguração da Linha-4 Amarela, que cruza a região de Pinheiros e possibilita o acesso do extremo Sul da cidade à malha metroviária, o tempo de deslocamento é ainda muito grande, assim como o fluxo de pessoas em relação à circulação de trens.

O que sobra é a já saturada Estrada do M’Boi Mirim, principal artéria viária para quem precisa trabalhar ou usufruir de serviços nos bairros centrais de São Paulo. Pesa ainda a região ser uma das mais carentes e abandonadas da cidade, o que impulsiona o deslocamento em massa para o Centro. Por esses e outros motivos, em 2011 as obras para a expansão da Linha Lilás começaram. O projeto incluía a construção de um trecho de 11,5 km, composto por: via permanente em túneis duplos e singelos, 11 estações (Adolfo Pinheiro, Alto da Boa Vista, Borba Gato, Brooklin, Campo Belo, Eucaliptos, Moema, AACD-Servidor, Hospital São Paulo, Santa Cruz e Chácara Klabin), 13 poços, um estacionamento de trens sob o Parque das Bicicletas, um pátio de estacionamento e manutenção (Guido Caloi), uma subestação primária e 26 novos trens.

Quando concluídas as obras, as estações Santa Cruz e Chácara Klabin serão as responsáveis por interligar a Linha 5-Lilás com as linhas 1-Azul e 2-Verde. “A expansão deve impulsionar o desenvolvimento das regiões ao longo da Linha 5-Lilás, permitindo o acesso dos moradores de toda a cidade aos serviços ali oferecidos nos centros empresariais importantes localizados no Largo Treze, Av. Santo Amaro, Av. Vereador José Diniz, Av. Roque Petroni Júnior, Av. Morumbi, Marginal Pinheiros e os centros comerciais de Moema, Ibirapuera, Vila Clementino e Vila Mariana. A operação plena da linha também proporcionará o acesso a complexos hospitalares como Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro, Hospital e Maternidade Santa Marta, Hospital do Servidor Público Estadual, Hospital São Paulo, Hospital Sepaco, Hospital Santa Cruz, Hospital Alvorada, Hospital Edmundo Vasconcelos, Hospital Evaldo Foz e Maternidade do Amparo Maternal e centros especializados para tratamentos como AACD, APAE e Lar e Escola São Francisco, que serão providos de transporte com acessibilidade e rapidez”, informa o Metrô.

Ainda segundo estudos do Metrô, as previsões de demanda indicam que esta linha não será pendular, ou seja, apresentará carregamentos constantes nos dois sentidos. Para o morador da Chácara Klabin e região, atualmente, o deslocamento por transporte público até regiões como Santo Amaro, Moema e até o Parque do Ibirapuera, por exemplo, costuma ser feito por ônibus, o que pode tornar a viagem mais longa, demorada e menos confortável. Com a chegada da Linha 5 – Lilás, quem trabalha nessas regiões ganha uma ótima alternativa para fugir do trânsito na Rua Vergueiro, Av. Domingos de Moraes, Rua Sena Madureira, Av. Ibirapuera, Av. Vereador José Diniz, Av. João Dias, entre outras vias movimentadas nos horários de pico. O mesmo vale para quem mora nessas regiões e trabalha na Chácara Klabin.

Com previsão de conclusão entre 2017 e 2018, até agora apenas a estação Adolfo Pinheiro foi concluída e entregue à operação comercial em agosto do ano passado. Aberta para concessão, a Linha 5 – Lilás será controlada pelo setor privado, conforme anunciou recentemente o governador Geraldo Alckmin, e terá demanda prevista de 750 mil usuários. Para as obras de expansão, incluindo as estações (todas com elevadores, rampas, escadas rolantes e piso tátil), o investimento calculado pelo governo é de R$9,1 bilhões, a princípio.

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Cavando

Para realizar isso tudo, o Metrô e construtoras responsáveis pelo projeto contam com ferramentas de grande poder de escavação. Na obra de expansão da Linha 5 – Lilás, pela primeira vez na história do metrô paulista estão sendo utilizados simultaneamente três shields, também conhecidos como tatuzões, para acelerar o processo. O shield é um moderno equipamento para escavação de túneis, que permite a instalação automática dos anéis de concreto que revestem e estruturam o túnel. Desta forma, em nenhum momento o terreno fica exposto sem suporte, para evitar que as estruturas das casas e edifícios próximos aos túneis sejam abaladas.

Apenas para se ter uma ideia, no caso do megatatuzão, também utilizado durante as obras da Linha 4-Amarela, o equipamento pesa 1,8 toneladas e seu diâmetro de escavação é de 10,58 metros. Segundo o Metrô, com esse shield é possível perfurar de 15 a 18 metros por dia e escavar uma extensão de mais de 4,8 km de túnel, com a instalação de 3.241 anéis de concreto para sustentação. A escavação do túnel começou no Poço Bandeirantes, na região do Campo Belo, e passará por seis estações até chegar ao Poço Dionísio da Costa, onde o shield será desmontado e retirado. Em junho deste ano, o megatatuzão chegou à futura estação Hospital São Paulo, na região das ruas Pedro de Toledo e dos Otonis, de onde seguirá para as estações Santa Cruz e Chácara Klabin.

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 Tinha que ser ali?

Enquanto isso não acontece, moradores do entorno do Poço Dionísio da Costa questionam a necessidade da obra na região e o impacto da construção no dia a dia de quem mora próximo ao local. Entre as principais reclamações, o barulho, a poeira, a interferência no trânsito – as ruas Ibaragui Nissui e Pedro Pomponazzi têm trechos interditados – e o medo de que a escavação cause danos às estruturas de casas e edifícios vizinhos.

Para entender melhor, a obra é uma exigência do Corpo de Bombeiros para dar o aval à construção de novos túneis e estações de Metrô. Nesse poço, após a saída da tuneladora, será construída uma estrutura vertical para permitir que funcionários ou passageiros possam escapar da via em caso de emergências e um sistema de ventilação para impulsionar a entrada de ar no túnel.  me2

Sobre o local da obra, o tranquilo quarteirão de casas e prédios não foi a escolha inicial. Como o nome sugere, o plano, a princípio, era construir o Poço de Ventilação e Saída de Emergência na Rua Dionísio da Costa. Em reunião com moradores e representantes do Metrô e o Consórcio Metropolitano 5 (CM5), formado pelas empreiteiras Odebrecht Infraestrutura (líder), Queiroz Galvão e OAS, os engenheiros responsáveis explicaram que problemas geológicos e a necessidade de muitas desapropriações no local inicial tornaram a obra muito cara e inviável.

Assim a escavação do poço foi relocada para a área atual, em um trecho composto em maioria por ruas. Apenas dois sobrados precisaram ser desapropriados para darem lugar à parte do Poço de Ventilação e Saída de Emergência que ficará na superfície. O trecho está próximo ao Edifício Mondrian, onde Marcos Bruno Daniel é morador e síndico. “A obra traz incômodos, mas a situação é contornável. Tem a questão do barulho, da poeira, mas uma vez que foi decidido que seria ali, não tem muito o que fazer. Nós tivemos reuniões com o pessoal do Metrô e do consórcio, e eles sempre foram muito solícitos e nos apresentaram todos os detalhes da obra e informações que pedimos. Nos foi garantido que farão de tudo para realizar a obra com o menor desgaste possível com os vizinhos”, pondera.

Próxima à construção está também a escola dirigida por Marcelo Rodrigues. O educador conta que um dos funcionários da escola mantém contato diário com um engenheiro e um responsável pela gestão da obra. “Sempre que temos alguma demanda, conversamos com eles e, em todas as vezes até agora, eles tentaram nos ajudar ou prestar algum esclarecimento. Já teve situação, por exemplo, deles retirarem um gerador que estava fazendo barulho ao lado da escola, quando pedimos”, afirma.

O impacto no trânsito da região, por outro lado, é inegável. Há bloqueios nas ruas Ibaragui Nissui e Pedro Pomponazzi que têm causado transtornos como carros andando na contramão ou pedestres esgueirando-se por dois corredores laterais para atravessar a obra, onde já houve alguns casos de moradores deparando-se com motocicletas, que usam a passagem como atalho. “Coube a nós adaptar algumas rotinas, como direcionar a entrada e saída apenas pela porta da Rua Francisco de Vitória e escalonar os horários de algumas turmas de alunos”, relata o educador.

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Quanto ao barulho e a sujeira, o engenheiro responsável, Sérgio Renato, explica que o Metrô está fazendo tudo o que é possível para diminuir o incômodo aos moradores. “Para obras desse tipo, nós costumamos ter equipes trabalhando até 24 horas por dia. Entretanto, no caso do Poço Dionísio da Costa, ficou acertado que faríamos apenas dois turnos, encerrando o trabalho antes das 22 horas. É uma mudança de rotina que nos faz demorar um dia a mais para terminar um ciclo completo da escavação, que pode ser de 90cm por dia. Estamos dividindo a operação em dois dias, para evitar os trabalhos mais barulhentos durante a noite”, explica.

Há também moradores que temem por abalos nas estruturas de seus prédios e casas, e até eventuais acidentes, como o desmoronamento que aconteceu durante as obras de expansão da Linha 4 – Amarela, em Pinheiros, no ano de 2007. “Não há um plano de evacuação do prédio, caso este venha a sofrer abalos ou até mesmo cair dentro do buraco que estão fazendo. Também não há alarme ou sirenes para avisar os moradores caso algo aconteça e tenhamos que sair daqui. Além disso, a saída de pedestres do prédio fica bem em frente ao poço de ventilação que estão fazendo, ou seja, se os moradores daqui tiverem que fugir, vamos cair dentro do buraco”, questiona Claudia Akemi, moradora do Terraço Klabin, edifício vizinho ao poço.

Sérgio Renato explica que a situação é muito diferente daquela que causou a tragédia em Pinheiros e é taxativo: “Não há riscos desse tipo”. Conforme mapas mostrados pelo Metrô em reunião com os síndicos de cada prédio e moradores das casas próximas, há um grande número de instrumentos instalados no solo da região medindo qualquer alteração causada pela obra. “As medições são diárias, na maioria dos casos, e começaram antes das escavações até, em estudos preliminares do solo. Além disso, nesse tipo de obra as alterações não são bruscas. Se for constatada uma alteração constante de milímetros em algum instrument
o, nós analisamos as causas, paramos a construção, se for o caso, e tomamos medidas para aumentar a estabilidade. O Metrô faz esses monitoramentos até depois da obra já ter sido entregue”, afirma.  me3

Um poço de 16,20m de diâmetro e 38,15m de profundidade pode até assustar, mas, segundo o Metrô, a tecnologia e o método de escavação empregado garantem que a obra seja segura. Por exemplo, cada anel do poço que está sendo escavado é, ao fim do processo, revestido por uma tela de aço e uma estrutura de concreto projetado, para que a terra não volte ao buraco. Quando todos os anéis estiverem prontos, será feita ainda um segundo revestimento de concreto, além de espessas lajes no nível mais baixo e no nível mais alto da escavação.

De qualquer forma, os engenheiros responsáveis garantem que há uma equipe de brigadistas treinada para qualquer emergência. “Nós não deixamos chegar nessa situação, mas, por precaução, há funcionários na obra responsáveis por avisar os prédios e casas em caso de uma suposta emergência”, explica o engenheiro José Ricardo, que também coordena as obras. “O morador tem que lembrar que além dele, nós temos centenas de trabalhadores lá embaixo no túnel, pais de família por quem nós zelamos e não deixaremos nada acontecer com a vida deles”, lembra.

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Ao término das obras, o Poço de Ventilação e a Saída de Emergência terão uma parte construída de pouco mais de 2m para fora da superfície, arborizada e iluminada, segundo projeto, na região onde os dois sobrados foram desapropriados. O plano é terminar a escavação em julho de 2016 e entregar o trecho completo entre 2017 e 2018. A promessa é reconstruir os trechos da rua e calçadas impactadas e recolocar a fiação e as tubulações que foram movidas durante a construção. “Podiam aproveitar e enterrar essas fiações”, sugere Marcos Bruno durante reunião. O Metrô afirma que a operação no poço não causará nenhum ruído, cheiro ou poeira, assim como a operação dos trens também não resultará em barulho ou vibração perceptível aos moradores do entorno.

Para o síndico do Mondrian, morador do bairro desde 1998, as obras são mais uma consequência do desenvolvimento da região. “Só aqui no prédio já aguentamos umas duas ou três obras mais barulhentas até, quando esses edifícios ao lado estavam subindo”, afirma. Marcelo Rodrigues concorda. “É claro que ninguém gosta de ter um vizinho como esse, mas a relação tem sido tranquila e, de maneira geral, a obra não tem interferido no bom funcionamento da escola”, afirma. “Se for algo bom para a cidade, nós somos a favor”, completa o educador.

A CHK, junto com a comunidade do bairro, estará atenta para cobrar dos responsáveis o cumprimento do acordo. Em caso de dúvidas, sugestões e reclamações relacionadas ao assunto, entre em contato conosco pelo e-mail [email protected]

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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