Posso dizer que vivi minha vida inteira na Chácara Klabin. Todas as minhas lembranças mais antigas remetem às ruas vazias de prédios e cheias de outras crianças, no loteamento que vi, ao longo dos anos, transformar-se em um grande bairro. Os primeiros amigos, as primeiras pedaladas em uma bicicleta, as festas na rua, os finais de tarde. Todas essas recordações vivem comigo e ajudaram a construir um sentimento de pertencimento e cuidado com a Chácara Klabin, que me motivam a buscar constantemente melhorias para o bairro onde hoje vive a minha família e onde crio meu filho.

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Desde a primeira edição da revista CHK, sempre abrimos espaço para os primeiros moradores do bairro contarem suas histórias, na tentativa de resgatar os valores que faziam daqui um lugar incrível para se viver nessa época. Não se trata de nostalgia ou de ser contra as mudanças – quem chegou por aqui antes da água encanada sabe que o progresso pode ser bom. Acredito que há algo sobre vida em comunidade que podemos aprender com as pessoas que viveram antes de nós uma vida menos individualizada por tecnologias, pela verticalização dos bairros e pelo ritmo acelerado de São Paulo.

Escrevo essas palavras pensando em Dona Dirce, minha avó materna. Hoje, aos 88 anos, ela mora na mesma casa na Rua Moreira e Costa há 24 anos, no mesmo bairro, o Ipiranga, há 74. Chegou à região com seus pais e mais 7 irmãos em 1940, para morar em um sobrado na Avenida Nazaré, onde hoje encontra-se uma grande loja de lustres. À época, uma das principais avenidas do bairro sequer tinha luz elétrica. “Era tudo barro, por isso na porta de toda casa havia um acessório em ferro para tirar a terra dos sapatos”, ela sempre conta.

vo4Onde hoje há a escola técnica Getúlio Vargas, ficava um grande campo de futebol, frequentado pelos irmãos. Nas ruas do bairro, as grandes mansões eram ainda residências, onde moravam algumas das famílias que impulsionaram o crescimento do Ipiranga, como os Jafet. Na Avenida Nazaré, o único bailinho da região, em que as moças e os rapazes podiam dançar. Trânsito só se fosse de charretes.

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Em 1948, quando se casou com seu Antônio, habilidoso pintor e meu avô, mudou-se para uma casa na Moreira e Costa, onde ficou por 40 anos até pular para a casa do lado, onde está até hoje. Na época, conhecia as terras da família Klabin de nome, pois comprava verduras de uma mulher que morava e plantava em uma das chácaras na região. A vida era tão diferente que caminhava quilômetros para ir e voltar das Linhas Correntes, fábrica na Rua do Manifesto, onde trabalhava. “Voltava de noite e, se a lua não ajudasse, não havia uma luz sequer na rua. Mesmo assim, tinha menos medo de andar por aí do que hoje em dia”, lembra.

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Dos anos em que está na região, viu muita coisa mudar. O bonde que passava na porta de sua casa deu lugar a alguns poucos automóveis. Os trilhos que a levavam à Cidade, como o Centro era chamado, não estão mais lá. Mas não é deles que ela sente falta. Mais do que qualquer coisa, Dona Dirce sente falta de seus vizinhos, os amigos que fez na região desde a mocidade. “No fim, o que mais importa são as pessoas”, me ensina. Hoje a maioria já faleceu ou deixou o bairro. Enquanto viver, minha avó tem certeza que nunca se mudará do Ipiranga.

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Das minhas lembranças na casa dos meus avós, há algo que confirma o que a Dona Dirce me diz: um muro dividindo sua casa com a da vizinha, onde havia uma grande janela para tomar o café da tarde em companhia e botar o assunto em dia. Em comum com todas as histórias que me lembro e que ouvi de outros moradores antigos da Chácara Klabin, enxergo nas histórias da minha avó que o melhor que um bairro pode oferecer é uma comunidade para se viver. Mais do que qualquer outro atrativo imobiliário, um bom lugar é feito por pessoas. Pessoas unidas podem construir um grande bairro.

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Esse é o motivo desta revista, do portal e de todas as outras iniciativas existirem. Convido todos os amigos e leitores a, junto conosco, fazerem da Chácara Klabin o lugar onde queremos viver e criar nossos filhos.

 

*Daniel Moral tem 34 anos, está no bairro desde 1982, e é o idealizador do portal e revista CHK, dos projetos Segurança Participativa, Cãominhada e Caminhada da Chácara Klabin, entre outros.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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