Mossi Elkana – em ídiche, Moishe El- Chono Klabin – era um jovem de 23 anos, nascido em Poselva, uma pequena comunidade judaica na Lituânia, dominada à época pelo Império Russo. Empreendedor desde cedo, Moishe teve a arriscada ideia de comprar uma pequena propriedade a fim de extrair e negociar madeira. O risco devia-se a uma determinação do Czar Alexandre III, que proibia que um judeu fosse proprietário de terras. Logo após receber o dinheiro, o próprio vendedor das terras denunciou Moishe. Ameaçado de ser preso, teve que fugir, em companhia de outros judeus que imigravam para a Europa. Após muitas noites frias e longas distâncias percorridas a pé, Moishe conseguiu chegar a um dos portos do Báltico, de onde rumou para a Inglaterra. Agora um “homem livre” (free man, em inglês), adotou o nome Maurício Freeman Klabin. De trabalho em trabalho, conseguiu se manter na capital inglesa por três anos, até o dia em que se deparou com um um anúncio em um jornal londrino, que convidava trabalhadores para oportunidades no Brasil. Decidiu arriscar em busca de melhores oportunidades – e ele as encontraria.

Família Klabin. Da esquerda para a direita: Jenny, Luisa, Mina e Emannuel. Bertha Obstand (em pé) e Maurício Klabin

Família Klabin.
Da esquerda para a direita:
Jenny, Luisa, Mina e Emannuel.
Bertha Obstand (em pé) e Maurício Klabin

Chegou ao Porto de Santos e veio para São Paulo, onde vendeu cigarros para se manter até arrumar um emprego numa tipografia de um casal que conheceu. Ainda sem dominar o português, Maurício se destacava pelos conhecimentos em contabilidade e no relacionamento com os clientes. À espera de uma oportunidade para se aposentar, o casal propôs a Maurício que adquirisse o negócio, que passou a se chamar M. F. Klabin e Irmão, ampliando suas atividades para todo serviço possível que envolvesse papel, de artigos variados de escritório a importação e venda de máquinas de escrever. Logo, sua situação financeira começou a melhorar e Maurício conseguiu trazer sua família para o Brasil. Com a chegada de seus pais, Leon e Sara, sua noiva, Bertha Obstand, seus irmãos, Salomão, Hessel, Luiz e Nessel, e seu primo e cunhado (marido de Nessel), Miguel Lafer, começou a nascer o império dos Klabin.

Em 1899, fundou junto com Salomão, Hessel e Miguel, a Klabin Irmãos & Cia., que logo despontou na venda de artigos de papelaria e escritório. Com a ascensão financeira do grupo, em 1903, Maurício Klabin investiu em alguns lotes de terra na região que ficava entre o Caminho do Mar e a Colina do Ipiranga – região hoje chamada de Chácara Klabin. De lá pra cá, muita coisa mudou. Da favelização que tomou conta do bairro e transformou a Chácara Klabin em maior favela de São Paulo entre as décadas de 40 a 70, passando pelo clima de cidadezinha do interior nos anos 80, até chegar na verticalização dos anos 90, pouquíssimas coisas ficaram para contar história. A Chácara Klabin já não é mais a pequena propriedade da família Klabin e os nomes de Maurício e seus descendentes ficaram em segundo plano, no máximo batizando ruas do bairro. Dois locais, entretanto, construídos na Vila Mariana nas décadas de 20 e de 30, guardam consigo uma parte importante da história da família que fundou a Chácara Klabin, a história das filhas e dos genros de Maurício Freeman Klabin, a segunda geração dos Klabin no Brasil.

Casa Modernista

Mina Klabin foi a primeira filha de Maurício e Bertha. Passou sua infância e adolescência estudando em lugares como Londres, Berlim e Genebra, onde, além do domínio de diferentes idiomas, aprendeu sobre música e pintura. De volta a São Paulo, seu gosto pela arte a aproximou do arquiteto Gregori Warchavchik, frequentador do mesmo círculo intelectual e artístico modernista que despontava na capital paulistana à época. Casaram-se em 1927, mesmo ano em que Gregori começou a projetar a residência do casal na Rua Santa Cruz, em terreno da família Klabin. Gregori Warchavchik nasceu na Ucrânia, também parte do Império Russo na época, e chegou ao Brasil em 1923, após alguns anos em Roma trabalhando para o professor e arquiteto neoclássico Marcello Piacentini (autor do projeto do Edifício Matarazzo, atual sede da Prefeitura de São Paulo, no Viaduto do Chá). Os modelos europeus, entretanto, ficaram por lá: cerca de um ano após o casamento ficaria pronta a primeira casa de arquitetura modernista do país, projetada pelo arquiteto para ser algo adaptado ao clima e às tradições do Brasil.

casa_modernistaIndício disso está no paisagismo projetado por Mina, que, na contramão das tendências da época, foi um dos primeiros jardins a utilizar-se especialmente de espécies tropicais como agaves, mandacarus e cactos. Com uma estrutura sem ornamentações e composta por prismas brancos e lisos, a construção foi bastante inovadora para a época. A casa “é a obra mais emblemática da virada arquitetônica brasileira. Urbana e suburbana, moderna e clássica, inovadora e convencional, provinciana e cosmopolita, representa eloquentes matrizes compositivas e, simultaneamente, a negação de todos os estilos: uma vontade de correspondência entre o objeto e a função, a forma e o uso, mas também um vínculo com velhos esquemas de projetação e construção”, afirma o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, José Tavares Correia de Lira, em Ruptura e construção: Gregori Warchavchik, 1917-1927. Nos anos de 1930 e 1940, a casa da Rua Santa Cruz passaria por duas reformas. A primeira para acompanhar a expansão da família, agora composta também pelos filhos Mauris e Anna Sônia, e outra posteriormente durante a Segunda Guerra Mundial, quando Mina acrescentou ao jardim um bosque de eucaliptos rente ao muro frontal, para resguardar a propriedade do Hospital Nipo-Brasileiro que estava sendo construído do outro lado da rua – judeus e japoneses estavam em lados opostos da guerra à época.

A Casa Modernista abrigou a família Warchavchik até meados dos anos de 1970. Na metade dos anos de 1980, após a tentativa de uma construtora de comprar a propriedade e construir um condomínio no local, o conjunto foi tombado e adquirido pelo Estado. Desde 2008 sob coordenação da Divisão do Museu da Cidade de São Paulo, a Casa Modernista oferece aos visitantes exposições, acervos da família e outros materiais educativos.

Museu Lasar Segall

Poucos anos depois de construir seu imóvel na Rua Santa Cruz, Gregori Warchavchik projetou outra casa na região para mais um casal da família Klabin. Jenny Klabin, também filha do patriarca Maurício, havia se casado em 1925 com um artista nascido na Lituânia, o irmão de Luba, mulher de seu tio Salomão Klabin. Seu nome era Lasar Segall, que viria a ser um dos principais ícones da arte moderna no Brasil. Os dois se conheceram cerca de 12 anos antes, quando o artista, recém-chegado ao país, fora professor de desenho de Jenny, que tinha 14 anos de idade na época. Após quase uma década longe do Brasil, Lasar volta a São Paulo, onde reencontra sua antiga aluna. Na casa projetada pelo concunhado Warchavchik, Lasar montou seu ateliê e morou com Jenny e os filhos que viriam, Oscar e Maurício.

museu_lasarPor décadas o lugar serviu como ponto de encontro para artistas e pessoas ligadas à arte, e abrigou o processo criativo de Lasar – pintor, desenhista, gravador e escultor. Esse foi um dos motivos para que, após sua morte, em 1957, Jenny tenha decidido reunir e catalogar as obras do marido, e transformar a antiga residência do casal no hoje Museu Lasar Segall. Infelizmente, a idealizadora faleceu alguns meses antes da inauguração do museu, que foi aberto pelos filhos do casal em setembro de 1967.

Atualmente, além de seu acervo museológico, o Museu constituise como um centro de atividades culturais, oferecendo programas de visitas monitoradas, cursos nas áreas de gravura, fotografia e criação literária, projeção de cinema, e ainda abriga uma ampla biblioteca especializada em artes do espetáculo e fotografia.

A Casa Modernista e o Museu Lasar Segall estão entre os espaços culturais mais importantes de São Paulo, e são o ponto de intersecção entre a história da cidade e da Chácara Klabin. Muita gente, entretanto, sequer desconfia que há uma relação tão próxima entre eles e a família que dá nome ao nosso bairro. Além do enorme valor cultural representado pelos dois espaços, vale a pena visitar a Casa Modernista e o Museu Lasar Segall para viajar no tempo e conhecer a vida e obra de personagens importantes de uma época em que o Klabin, o bairro e o clã, dava seus primeiros passos.

Redação CHK

Redação CHK

Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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