Andar ao lado de João Boca pela região conhecida como Cracolândia faz o local parecer menos assustador. Por alguns minutos, não há “craqueiros”, “zumbis” ou qualquer outro termo que desumanize ainda mais os moradores da área, mas pessoas chamadas pelo nome, de quem João sabe a história e oferece ajuda. Desde 1996, o pastor desenvolve trabalhos com a Missão Cena, que atende a população em situação de rua, crianças em situação de risco, travestis, garotas de programa e dependentes químicos. “Sem cobrar um centavo de ninguém”, faz questão de dizer.

ce4

João Carlos Batista virou “Boca” quando deixou Campo Mourão, no Paraná, para vir para a região também conhecida como Boca do Lixo, onde hoje está a Cracolândia. “Comecei trabalhando com presídios, na pastoral carcerária. Na época conseguimos tirar da cadeia muita gente que já estava com o processo vencido fazia tempo, uma situação bastante comum até hoje”, lembra. A motivação de ajudar, conta, veio de família. “Não me lembro de nenhuma época da minha infância em que não tivesse algum morador de rua em casa, pessoas que a minha mãe ajudava”, conta João.

ce6

Quando chegou, a Missão Cena já existia há quase uma década, desde 1987. “Começou com apenas uma pessoa, distribuindo chocolate quente para os moradores de rua da região. Depois começaram a acontecer os cultos em uma borracharia, até surgir a oportunidade do Cena ter uma sede, na General Osório”. No espaço, os voluntários ofereciam banho, comida e orientação para as pessoas resgatadas. O surgimento do nome Cena vem dessa época: Comunidade Evangélica Nova Aurora é uma referência ao endereço da Borracharia 5 Esquinas, na Rua Aurora à época.

ce1

Em 1995, a Missão receberia a doação de 34 alqueires de terra na região de Juquitiba, onde nasceu a Fazenda Nova Aurora, que se tornou peça-chave para o processo de restauração dos dependentes que frequentavam o Cena. “Após triagem na sede, as pessoas que querem largar o vício são encaminhadas para a fazenda, onde têm a oportunidade de ficar longe do ambiente da droga e de praticar a laborterapia, que envolve trabalhar na terra, marcenaria, artesanato, além de conhecer a fundo a mensagem cristã”, explica. O tratamento dura em média nove meses e é bancado por doações de pessoas apoiadoras e igrejas.

Além do resgate, restauração e reintegração dos dependentes químicos e pessoas em situação de risco, merece destaque outro trabalho do Cena: a prevenção. “Em 2009 nós pudemos criar a Creche Esperança, uma tentativa de quebrar esse ciclo de prostituição, drogas e pobreza, atingindo crianças que, na maioria dos casos, são familiares de dependentes químicos”. Localizada na antiga sede totalmente reformada – hoje o Cena conta com outra unidade para atendimento aos adultos, o Clube Esperança Nova Aurora, ou “Casa Amarela” –, a Creche oferece educação infantil, alimentação e atividades para cerca de 30 crianças. A estrutura impressiona e pode ser comparada a de muitas escolas de alto padrão.

ce3

A luta é contínua e exige empenho. Para João, falta vontade do poder público para resolver o problema na região. Mas não acredita que o desinteresse seja uma exclusividade do alto escalão. “As pessoas daqui são invisíveis para o resto da cidade. Mas não só elas. Pouca gente tem o hábito de dar bom dia para um gari que seja. Ninguém se importa com ninguém. Nós não suportamos lixo na rua, um carro velho abandonado na nossa porta ou um cocô de cachorro deixado na calçada, mas conseguimos conviver com um ser humano caído e largado à própria sorte”, declara.

ce5

Para o pastor, fazer algo a respeito dá mais trabalho do que dar uma esmola ou assinar um cheque, mas traz um ganho imensurável. “Você aprende a valorizar o que tem e a minimizar problemas que na prática não são tão grandes assim. Acima de tudo, amar ao próximo traz sentido para a vida”, aconselha. O prêmio vem com histórias como a de Sueli. Há 17 anos no projeto, a dona de um largo sorriso também foi dependente química e moradora da Cracolândia. Da época, carrega uma cicatriz que cruza o pescoço e o peito. “Uma navalhada durante uma briga, que não me matou por milímetros”, conta. “Antigamente eu tinha muita vergonha dessa marca e fazia de tudo para escondê-la. Hoje tenho alegria em saber que essa cicatriz simboliza o amor de Deus por mim, que me permitiu sobreviver e colocou o Cena no meu caminho”. Hoje Sueli é uma das missionárias do projeto e trabalha para salvar a vida de outras pessoas na situação que viveu por anos.

Quem lê, pode se sentir protegido a situações extremas como as atendidas pelo Cena. Mas, para o pastor, “há muitas Cracolândias por aí na vida das pessoas, mesmo que não haja dependência química ou outra miséria visível”. Independente do problema, João acredita que há salvação. “Você é o maior patrimônio da humanidade”, diz a placa na entrada do Clube Esperança. Perder a esperança não está nos planos de João.

ce2

Redação CHK

Redação CHK

Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
Redação CHK