O espaço recebe ciclo de bate-papos e espetáculo de diversas linguagens que abordam a temática da morte

Nos dias 13 e 14/12 acontece no Sesc Ipiranga a leitura cênica de “Carta a D.”, derivada da ação processual com um grupo de pessoas idosas, conduzida pelas atrizes Aline Filócomo e Fernanda Stefanski, sob orientação de Leonardo Moreira, da Cia. Hiato.

Inspirada no livro Carta a D., do filósofo austro-francês André Gorz, foram propostos exercícios a partir de fragmentos da carta e de depoimentos pessoais do grupo, resultando em uma composição literária e cênica. A obra é uma declaração de amor do escritor à sua esposa Dorine, na época sofrendo de uma doença degenerativa, e ambos com idade avançada decidem por cometer suicídio juntos.

A leitura cênica é parte integrante do Projeto Finitudes, que reúne bate-papos e atrações de diversas linguagens com o tema do envelhecer e da morte, retirando o assunto do lugar escuro que a sociedade impõe ao considerar um tabu.

Carta a D.

Em setembro de 2007, Dorine Keir e seu marido, o filósofo e jornalista André Gorz, cometeram suicídio juntos em sua casa no sul da França. “Carta a D. – a história de um amor” é a última carta escrita por André a Dorine logo antes de se matarem, ambos com mais de 80 anos.

A carta conta desde o primeiro encontro do casal, o convite desastrado para uma dança, passa pela escolha de não terem filhos, mas de juntos plantarem uma floresta e chega até a doença evolutiva que devastou o corpo de Dorine por longos anos. Carta a D. é a biografia de um amor, a reafirmação desse amor, a última reparação antes da morte, uma constatação da nossa própria finitude.

Até o lançamento deste que foi seu último livro, o austro-francês André Gorz (1923-2007) era conhecido por suas obras nas áreas da filosofia e da sociologia, bem como por sua atuação política nos acontecimentos de Maio de 68 na França e em outros eventos marcantes da cultura deste país, onde se radicou. Mas Carta a D. transformou instantaneamente seu autor num total sucesso na área da literatura, com mais de cem mil exemplares vendidos entre França e Alemanha.

O livro foi escrito para homenagear Dorine, com quem partilhou a vida por quase sessenta anos. Desde o início da década de 1990, Gorz vivia em retiro com a mulher, que sofria, há anos, de uma doença degenerativa. Os dois viveram uma grande história de amor, companheirismo e militância, após terem se conhecido em Lausanne (Suíça), em outubro de 1947. Desde então, nunca mais se separaram. Carta a D. é do princípio ao fim uma declaração de amor, na qual a trajetória intelectual do autor é revisitada.

Discípulo de Sartre e cofundador da revista Le Nouvel Observateur, Gorz era um crítico radical da mercantilização das relações sociais, contrário à crença no trabalho assalariado, além de ser autor de vários livros sobre ecologia.

Oficina e Leitura Cênica

A oficina realizada entre 24/10 e 12/12 tem  por objetivo oferecer uma oportunidade de experimentação artística (individual e coletiva) a partir de uma metodologia que compreende o ato criativo como movimento produtor de sinônimos ou múltiplos dos indivíduos participantes. Trata-se de um espaço para o exercício do protagonismo e autonomia, por meio da criação de cenas individuais e coletivas. A partir de depoimentos, temas e referências trazidos pelos próprios participantes, é realizada a leitura compartilhada do texto de Gorz destinado a Dorine.

Na leitura que acontece nos dia 13 e 14/12, o público é convidado a partilhar o dia do suicídio. O grupo de não-atores alterna suas histórias à leitura da carta de despedida, aproximando (ou revelando a pequena distância que há entre) o amor e a morte. Imerso no jogo entre realidade e ficção, presente para o passado, o casal de intelectuais e o grupo de idosos, cada espectador é anfitrião de um ritual de despedida. Às vezes destinatário da carta, às vezes leitor, às vezes voyeur.

Redação CHK

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