Obras da literatura brasileira estampará as paredes do local até 2 de julho

Os admiradores da literatura nacional já têm um grande passeio em São Paulo: De 29 de março a 2 de julho a exposição “Contaminações” no Sesc Ipiranga discute como algumas importantes obras da literatura brasileira contemporâneas foram ‘contaminadas’ por outras linguagens artísticas. A proposta é provocar a reflexão sobre as fronteiras entre as formas de expressão artística e fomentar a exploração desses pontos de contato.

Para tanto, a exposição parte do universo de três obras fundamentais da literatura brasileira dos últimos 50 anos. São elas: Zero (1974), de Ignácio de Loyola Brandão; O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982), de Sérgio Sant´Anna; e Eles eram muitos cavalos (2001), de Luiz Ruffato.

O conjunto dos três trabalhos literários compõe um arco temporal que percorre diferentes e consecutivos períodos da história brasileira: os anos 1970 e toda a dureza de um regime ditatorial que procura calar, das mais diversas formas, a sociedade; o início dos anos 1980 e o clima otimista vivido com os ventos de uma transição à democracia; e o final dos anos 1990, que é carregado com a insatisfação de quem percebe algumas mudanças na realidade do país, mas se decepciona com a velocidade dessas mudanças e com os resultados conseguidos com elas.

Os autores e suas obras “Contaminadas”:

Ignácio de Loyola Brandão

Loyola concluiu Zero em 1973. Recusado pelas editoras brasileiras, o romance foi publicado na Itália em 1974, traduzido por Antonio Tabucchi, um dos maiores romancistas italianos. Um ano depois o livro chegou aos leitores do Brasil, mas em 1976 foi proibido pelo regime militar, sendo liberado somente em 1979. A contaminação que se dá no livro Zero é a do filme , de Federico Fellini. Em entrevista afirmou: “Tem filme que vejo e revejo. Todos sabem que já assisti 8½, de [Federico] Fellini, mais de 100 vezes. Já contei como a estrutura desse filme influenciou a do Zero, com seus vários planos. Quando Fellini morreu, fiquei de luto. Mas claro que a liberdade de câmera e narração de Godard em Acossado também foi essencial.” Um ciclo de cinema com filmes indicados por Loyola Brandão irá integrar a programação do projeto. Precedendo às exibições, o autor comentará aspectos do filme exibido e como ele influenciou sua obra.

Luiz Ruffato

Aclamado pela crítica, seu primeiro livro, Eles eram muitos cavalos, publicado em 2001, recebeu os prêmios APCA — Associação Paulista de Críticos de Arte — e Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional, e inspirou a peça de teatro Mire veja, da Companhia do Feijão, agraciada com os prêmios APCA e Shell. Em 2002, o autor lançou o livro de poemas As máscaras singulares e, entre 2005 e 2011, o ciclo Inferno provisório, ganhador dos prêmios APCA, Jabuti e Casa de las Américas, relançado em 2016 em volume único. Eles eram muitos cavalos é contaminado pela instalação Ritos de Passagem, do artista plástico Roberto Evangelista. Durante a Bienal de Arte de São Paulo de 1996, Ruffato passou pela obra de Evangelista e fez uma leitura muito particular da obra, e que foi disparadora da concepção de seu romance. O livro retrata a classe trabalhadora paulistana, suas tensões diárias e as vicissitudes de uma parcela da sociedade que luta diariamente para continuar, teimosamente, sobrevivendo num mundo que não é moldado a ela. Aqui, a série fotográfica de Cristiano Mascaro, com pessoas das ruas em São Paulo, dialoga de forma intensa com o universo dos personagens de Ruffato. Uma seleção de fotografias desta série estará exposta na unidade.

Sérgio Sant´anna

O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro traz a contaminação evidente do contexto cultural, especialmente da música e do teatro, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Além de João Gilberto, referências a outras figuras icônicas da cultura aparecem na narrativa, como John Cage (determinante na obra), Bob Wilson, Antunes Filho, Tom Jobim, Miúcha, Caetano Veloso e Milton Nascimento. O próprio autor se coloca como personagem-narrador no conto, que é um dos percursores da autoficção no Brasil.

John Cage, no início do conto, presenteia João Gilberto com uma gaiola vazia, dizendo ao compositor brasileiro que ela contém o pássaro da perfeição. Essa é uma imagem muito forte e que acompanha toda a narrativa. Neste contexto, a videoinstalação Call Waiting, de Eder Santos, recebe novas chaves de leitura.

 

 

 

Redação CHK

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