– Filho, já fez sua lição?
– Daqui a pouco eu faço, mamãe.
– Você é muito preguiçoso! Estou cansada de ficar pedindo.
– Só vou assistir televisão mais um pouquinho.
– Levanta daí agora! Chega de ser tão devagar e acomodado!

E assim a criança vai crescendo, se desenvolvendo, formando sua personalidade e autoestima. Tomando para si os rótulos e estereótipos que os adultos a sua voltam a classificam e teimam em sugestionar a todo instante. Seja para o bem ou para o mal, as palavras tem poder. Elas mostram para a criança como o adulto a enxerga e o que
ela representa no núcleo familiar. Dependendo da forma como as pessoas que estão a sua volta se manifestam, a criança pode começar a não acreditar mais nela mesma. A duvidar de suas capacidades, de seus potenciais, de suas múltiplas inteligências.

Imagine só: “se você, que é adulto, que é uma referência para mim, que sabe mais da vida, que já viveu muito mais do que eu, não acredita em mim, por que eu mesma acreditaria?” Essa é uma das formas que as crianças lidam internamente ao receberem uma crítica ruim. Elas assumem para si que são incapazes de superarem suas dificuldades, já que as pessoas que as rodeiam não acreditam que elas realmente possam.

Paulo Freire, em um de seus textos, afirma que somos seres que nos fazemos na constância do dia a dia; somos feitos pelo outro também, pelos quais convivemos. Exemplo real disso é do jogador Pelé, quando, por volta de seus 10 anos de idade, encontrou seu pai chorando após perder uma Copa do Mundo. Na ocasião, querendo consolar o pai, ele diz: “Não chore. Um dia eu ganharei uma Copa do Mundo para você”. Como resposta, o pai abraça seu filho e diz: “Isso mesmo meu filho. Um dia ganhe uma Copa para mim”. E todos nós sabemos quem foi o Pelé para o futebol brasileiro. O pai poderia ter dito algo como: “Onde você está com a cabeça? Ganhar uma Copa não é pra qualquer um. Quem você pensa que é?”. Mas, ao contrário, mesmo passando por um momento de grande tristeza, podendo simplesmente ignorar o que o filho havia dito, ele resolveu encorajá-lo: “Isso mesmo, meu filho! Você pode!”. E é justamente aí que está o grande segredo. Precisamos mostrar às nossas crianças que elas podem, que possuem um potencial incrível e que são capazes, inclusive, de superar as expectativas dos adultos. Estamos falando de seres únicos, individuais, mas que também se moldam por aquilo que fazemos deles.

A palavra é incentivar. Mesmo diante da dificuldade do outro, é dizer: “você pode”, “eu te ajudo”, “vamos pensar no que pode contribuir para que você conquiste esse sonho”. É preciso traduzir o adjetivo inadequado em uma situação circunstancial. Por exemplo: “O bolo era pra você e para o seu irmão, não só para você”. A frase apontou onde houve a falha, mas não o rotulou. As crianças precisam ser chamadas a atenção para que percebam quando não acertaram, quando desrespeitaram regras, não cumpriram o que é combinado ou estabelecido pela família, pela escola ou pelo grupo as quais participam. Entretanto, se ela não acerta, não é preciso dizer: “você é burro”. Deixe claro o que aconteceu de forma construtiva: “você é muito inteligente. Não conseguiu fazer nesse momento, mas eu sei que é capaz. Então eu te ajudarei para que você consiga numa próxima vez”. Adjetivos que limitam e inferiorizam apenas prejudicam a criança para que ela tenha uma baixa autoestima. Se há baixa autoestima, a criança não acredita que ela pode. Se ela não acredita que ela pode, ela não se desenvolve.

O mesmo acontece com as rotulações que levam em conta o gênero. É muito comum meninas serem mais elogiadas pela aparência, com termos como linda e princesa. Já os meninos, por sua vez, pela força, coragem e inteligência. Tanto meninas quanto meninos podem ser lindos, corajosos e inteligentes. É oportuno repensarmos a maneira como nós, adultos, fazemos elogios às crianças. O que deve prevalecer é o contexto dos elogios, e o fato de que estamos formando uma personalidade.

De maneira sintetizada, a autoestima e a autoconfiança são construídas por elogios reais e verdadeiros. Além de serem combinações de sentimentos como se sentir amado, se sentir capaz, de saber que é possível enfrentar, sonhar, conquistar. Críticas são bem-vindas, desde que, por causa dela, ou em volto a minha critica, a criança perceba amor. Precisa haver sempre um equilíbrio entre limite, disciplina e amor. A partir do momento em que a criança sente que é amada e respeitada em seu núcleo mais importante, que é o núcleo familiar, ela pode se conduzir num contexto social mais amplo de maneira sadia e confiante, e diante de desafios ou situações que não
lhe são favoráveis.

 

Jozimeire Stocco

Jozimeire Stocco

Jozimeire Stocco é diretora geral do Colégio Stocco, um dos mais tradicionais do ABC Paulista, desde 1954. É pós-doutoranda em Educação pela PUC-SP; doutora e mestra em Educação; especialista em Educação Infantil; e bacharel em Direito. Integra o Banco de Especialistas em Direito Educacional da ABRADE (Associação Brasileira de Direito Educacional).
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