Quantas pessoas você conhece que não pensa­riam duas vezes caso pudessem sair do Brasil e morar na Europa? De fato, as belezas do Velho Continente fazem parte dos sonhos de muitos brasilei­ros. Mas e quanto àqueles que decidem pelo caminho inverso? Nesta edição da CHK, conver­samos com Mirtes Meylan, uma das primeiras morado­ras da Rua Garapeba, e que, ao lado de seu marido Jean Claude, nascido na Suíça, escolheu a Chácara Klabin como sua casa há mais de 30 anos.

A mudança aconteceu em outubro de 1981, após terem morado 5 anos juntos no país europeu. Quando voltou da Suíça, morou ainda em um apartamento na região da Aclimação, antes de chegar à Chácara Klabin. Criada no Ipiranga, Mirtes conhecia o bairro quando ainda havia por aqui a Favela do Vergueiro. Com a oportunidade de com­prar um terreno no então loteamento, o casal começou a construir sua casa e mudou-se no mesmo ano com seus três filhos, Frank com 9 anos, Gabi com 1 ano e meio, e a caçula, Nathalie, com apenas um mês de vida.

mi1Do cenário que aqui encontraram, só restam as fo­tografias. Pouquíssimas casas, nenhum prédio e muita tranquilidade. Em plenos anos de 1980, a família Meylan havia encontrado um resquício interiorano em São Pau­lo. “Era um lugar perfeito para se criar os filhos. Em frente à nossa casa, as crianças montavam uma rede de vôlei e passavam o dia brincando. Os terrenos vazios viravam pista de bicicleta. Até os bailinhos da fase pré­-adolescente eram realizados aqui na nossa garagem, com música e a iluminação que a gente montava”, lem­bra. “Mesmo perto de outros bairros grandes, a Chácara Klabin era tão isolada que, quando fazíamos as festas de aniversário das meninas, precisávamos desenhar ma­pas para os outros pais encontrarem nossa casa”.

Mercado na época só fora do bairro, mas, mesmo as­sim, a relação com os vizinhos ia muito além do açúcar emprestado. “Todo mundo se conhecia. Nos reuníamos sempre para tomar um café, cada dia em uma casa. Em junho, o pessoal organizava as festas juninas no meio da rua e cada família levava um prato. A gente se diver­tia muito”, conta. Além das fogueiras, também realizadas na rua, soltar balões era uma atividade que reunia muita gente, de dentro e de fora do bairro. “Uma madrugada de sábado pra domingo acordamos assustados com a cam­painha. Era uma mulher que estava vendendo pipoca em um terreno ao lado da nossa casa, onde dezenas de pes­soas estavam soltando balões. Ela insistia para que lhe vendêssemos uma lata de óleo, pois as que tinha trazido de casa já haviam acabado, tamanho o movimento. Nós doamos a lata pra ela e ficamos pensando por algumas semanas em montarmos também um carrinho de pipoca ali”, recorda aos risos.

Mirtes e sua família viram a Chácara Klabin crescer e se transformar. Viveram a chegada das constru­toras, a demolição das casas e o surgimento dos edifícios. “Foi horrível. Passamos a conviver com o barulho e a sujei­ra das obras”. A moradora conta que, naquele momento, ela e Jean Claude perceberam que o bairro não seria o mesmo em pouco tempo. Mesmo assim, ir embora nunca foi uma opção. “Nós somos apaixonados por este bairro. Meu mari­do costuma dizer que só sairá daqui quando falecer. Ele não trocaria a Chácara Klabin nem pela Suíça, onde nasceu”.

mi2

Mesmo com as mudanças que os anos trouxeram, Mir­tes adora morar por aqui. “Todos os dias eu acordo com os passarinhos. A poucos metros da minha casa está a Praça Kant, onde encontro amigos e passeio sempre com meus cachorros, o Fred e Madá. Na praça conheci tam­bém muitos novos moradores do bairro. É um ótimo espa­ço de convivência”, afirma. A moradora aposta que muitos de seus vizinhos mais recentes não conhecem a história da Chácara Klabin, mas ressalta a importância de se criar laços com o bairro. “Com a vida corrida de hoje, acontece de o lugar onde se mora ser apenas um dormitório e de as pessoas não terem tempo ou interesse de criar relações com seus vizinhos. Eu costumo dizer que às vezes vizi­nhos serão mais importantes na sua vida do que parentes, pois são eles que estão mais perto quando você precisa de alguma coisa. Além disso, criar raízes com o bairro só traz coisas boas. É do amor pela Chácara Klabin que vem a vontade de cuidar e melhorar o que estiver ao nosso alcance, e a vontade de viver plenamente o que o local tem a nos oferecer”.

Após 33 anos, os filhos de Mirtes já têm suas próprias casas e seus próprios filhos. Uma de suas alegrias, en­tretanto, é ver seus netos conhecendo e vivendo o bair­ro onde os pais foram criados. “O Frank, meu filho mais velho, comprou carrinhos de rolimã e sempre traz meus netos aqui para brincar. Sinto que quer dar a oportunida­de a eles de que vivam uma infância parecida com a que teve”, se emociona. “A Chácara Klabin nos deu muitas coi­sas e sem dúvida influenciou bastante em quem somos hoje. Quando vejo meus netos brincando com os netos de pessoas que conheci aqui no bairro há mais de 30 anos, tenho a certeza de que tudo valeu a pena”.

Redação CHK

Redação CHK

Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
Redação CHK