Primeiro episódio de uma série sobre a história da Chácara Klabin, desde sua fundação, em 1904, até os dias de hoje

Muita gente que mora atualmente na Chácara Klabin, um dos bairros mais valorizados de São Paulo, nem imagina que há poucas déca­das a situação do bairro era bem diferente desta com a qual estamos acostumados: no mesmo chão onde hoje estão os prédios e avenidas, já esteve a maior favela de São Paulo nos anos de 1960 e 1970, a Favela do Ver­gueiro. Para contarmos essa história, é preciso fazer uma viagem no tempo e convidamos você a nos acom­panhar no início de tudo, mais precisamente na história do fundador do bairro.

Moishe Elkana, um jovem de 25 anos, nascido em Possel­va, uma pequena comunidade judaica na Lituânia, na época do Império Russo. Empreendedor desde cedo, Moishe teve a ideia de comprar uma pequena propriedade coberta por uma densa floresta, a fim de extrair e negociar a madei­ra. Entretanto, segundo determinação do Czar Alexandre III, era proibido que um judeu fosse proprietário de terras. Dessa forma, Moishe, sem saída, teve que fugir.

Passando pela Inglaterra, o jovem agora chamado de Maurício Freeman Klabin, se interessou por um anúncio em um jornal londrino, que convidava trabalhadores para oportunidades no Brasil. Chegou pelo Porto de Santos e veio diretamente para São Paulo, onde investiu seu di­nheiro na fabricação de cigarros, até arranjar um emprego numa tipografia de um casal conhecido, tornando-se mais tarde proprietário do negócio (final da década de 1880).

Com a chegada de seus pais ao Brasil, Leon e Sara, sua noiva, Bertha Osband, seus irmãos, Salomão, Hes­sel, Luiz e Nessel, e seu primo e cunhado (marido de Nessel) Miguel Lafer, começou a nascer o império dos Klabin. Em 1899, fundou junto com Salomão, Hessel e Miguel, a Klabin Irmãos & Cia., que logo despontou na venda de artigos de papelaria e escritório. Com a as­censão financeira do grupo, em 1904, Maurício Klabin investiu em alguns lotes de terra na região que ficava entre o Caminho do Mar e a Colina do Ipiranga – região hoje chamada de Chácara Klabin.

Família Klabin. Da esquerda para a direita, os filhos: Jenny, Luiz, Mina e Emannuel. Bertha Osband (em pé) e Maurício Klabin. (Fonte: Coleção Gregori Warchavchik - Gregori, Warchavchik - Acervo Fotográfico vol.I e vol.II, São Paulo, edição Família Warchavchik, 2005 e 2007, Paulo Mauro Mayer de Aquino)

Família Klabin. Da esquerda para a direita, os filhos: Jenny, Luiz, Mina e Emannuel. Bertha Osband (em pé) e Maurício Klabin.
(Fonte: Coleção Gregori Warchavchik – Gregori, Warchavchik – Acervo Fotográfico vol.I e vol.II, São Paulo, edição Família Warchavchik, 2005 e 2007, Paulo Mauro Mayer de Aquino)

Ali se consolidou a chácara da família Klabin, entre a Vila Mariana, a Chácara da Glória e o bairro do Ipiranga, dos dois lados da Estrada do Vergueiro, se estendendo da região da Domingos de Moraes até o Córrego do Ipiranga. Para manter o domínio da propriedade, a família Klabin arrendou a propriedade para outros moradores, onde a posse era cedida mediante pagamento de aluguel.
Em 1923 Maurício Klabin faleceu e coube a seus filhos a administração das terras. Com o tempo a família passou a ter problemas com os arrendamentos, envolvendo-se em diversas disputas judiciais com seus arrendatários e com uma família usucapiente, a Botecchia. O pesqui­sador Fernão Lopes explica: “a propriedade da família Botecchia remonta aos colonos italianos instalados na área pelo Imperador Dom Pedro II, em meados de 1870, antes de a família Klabin adquirir as terras. Na década de 1910, com o falecimento do patrono da família Botecchia, a área foi dividida entre os herdeiros – um dos quais, João Botecchia. Após muitos anos, João Botecchia ten­tou retomar a área nos tribunais, alegando ser de seu direito uma parte da gleba que teria ficado de fora durante a partilha da propriedade; como a área era muito grande, e alugar terrenos ebarracos era rendoso, a favela se alastrou como rastilho de pólvora, enquanto a questão se resolvia ao longo de 20 anos nos tribunais”.

Essas propriedades sublocadas para outras fa­mílias formaram o embrião da Favela do Verguei­ro. Nesta, conviviam barracões alugados para famílias e pequenas chácaras de uso agrícola – algumas plantações estavam na área alagadiça onde hoje está a Av. Pref. Fábio Prado. Enquanto a família Klabin gastava muito dinheiro nos tribunais, em processos longos contra diversos arrendatários, o processo de favelização acelerava, especialmente no começo da década de 1950.

Começava ali a história daquela que foi a maior favela de São Paulo na época, a Favela do Vergueiro. O crescimento e o começo do fim, que resultaria na reintegração de posse e no novo loteamento da Chácara Klabin, veremos na próxima edição da Revista CHK. Não perca!
*Este texto usou como fonte de pesquisa, além de algumas das fotos que ilustram a ma­téria, a Dissertação de Mestrado “Modernização e desenvolvimentismo: formação das primeiras favelas de São Paulo e a favela do Vergueiro”, do autor Fernão Lopes Ginez de Lara.

Favela do Vergueiro, 1965~1968 (Fonte: Geografia do subdesenvolvimento, Yves Lacoste, 1975)

Favela do Vergueiro, 1965~1968 (Fonte: Geografia do subdesenvolvimento, Yves Lacoste, 1975)

**Publicado originalmente na Revista CHK #01 (Jan/Fev – 2014)

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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