A coqueluche é uma doença de distribuição universal, com ciclos hiperendêmicos a cada três ou cinco anos. Atualmente, a coqueluche ocupa o quinto lugar dentre as causas de mortalidade das doenças imunopreveníveis em crianças menores de cinco anos. Também conhecida por Pertussis ou tosse comprida, é uma doença infectocontagiosa aguda do trato respiratório transmitida pela bactéria Bordetella pertussis. Se caracteriza por de tosse seca com guinchos.

Como ocorre a transmissão?

A transmissão ocorre pelo contato direto com a pessoa doente, através de gotículas de secreção da orofaringe, eliminadas por tosse espirro ou fala. Menos frequente, a transmissão também pode se dar por objetos contaminados. O homem é o único reservatório natural. A infecção pode ocorrer em qualquer época do ano e em qualquer fase da vida, mas acomete especialmente as crianças menores de dois anos.

Quais os principais sintomas da coqueluche?

Os primeiros sintomas costumam aparecer de 7 a 10 dias após o contágio, podendo variar de 1 a 3 semanas. A princípio, o muco na região da garganta, traqueia e vias respiratórias é fluido, mas torna-se espesso e viscoso com o tempo. Há presença de tosse persistente, prolongada e seca. A infecção dura aproximadamente seis semanas. Indivíduos não adequadamente vacinados ou que estão vacinados há mais de 5 anos, podem ter um quadro atípico com tosse persistente, sem paroxismos ou mesmo assintomático. As crianças menores de um ano são as maiores vítimas da coqueluche. O fator primordial é que elas não têm idade para receber o esquema vacinal completo. Nessa idade, as vias aéreas têm menor calibre e o sistema imunológico ainda é imaturo, o que amplia as chances do desenvolvimento de complicações, como pneumonia e insuficiência respiratória, que frequentemente levam a internações e podem provocar paradas respiratórias, capazes de deixar sequelas mentais e motoras por causa da falta de oxigenação do cérebro.

A vacinação promove imunidade permanente?

Não! A vacinação hoje contra a Coqueluche é feita aos 2, 4 e 6 meses, em três doses. Com 15 meses é feito o reforço e outro aos 4 anos de idade. A vacina (componente Pertussis da DTP, seja acelular ou de células inteiras), não confere imunidade completa e permanente. Segundo pesquisadores a imunidade é completa somente no primeiro ano após a imunização e cai gradualmente com o passar do tempo, tendo ainda 84% de eficácia após 4 anos, chegando a cerca de 50% nos três anos seguintes e após 12 anos nenhuma proteção é evidente.


Por esse motivo, dois reservatórios de suscetíveis passam a ter grande importância para o controle da doença:

– Crianças menores de um ano, que ainda não completaram o esquema básico;

– Adolescentes , adultos e idosos que perderam a imunidade e podem contrair e transmitir a doença.

No início da adolescência ou idade adulta o paciente já está suscetível à doença. As infecções assintomáticas ou com poucos sintomas são comuns. O portador, mesmo assintomático, pode transmitir bactéria para seus contatos domiciliares, dentre os quais, os lactentes jovens (principalmente menores de 6 meses) que estão mais propensos a apresentar as formas graves da doença, muitas vezes fatais.

Qual o tratamento da criança com coqueluche?

O paciente com coqueluche deve permanecer em isolamento respiratório enquanto durar o período de transmissão da doença. Na maioria dos casos, o tratamento pode ser ambulatorial e realizado em casa, mas com acompanhamento médico. A hospitalização só se torna necessária, quando ocorrem complicações e é preciso oferecer suporte de oxigênio ou alimentação por sonda ou parenteral. Antibiótico específico na fase catarral é útil para encurtar a duração da doença e acalmar as crises de tosse. Analgésicos e anti-inflamatórios ajudam a aliviar os sintomas.

Recomendações importantes para controle da doença:

Mais de 80% dos casos de coqueluche envolvem os menores de 1 ano de idade, e, desse total, a estimativa de óbito é de quase 5%. Em 75% dos casos lactentes, a transmissão da coqueluche ocorre dentro de casa, com familiares e amigos portadores ou doentes representando um grande risco para os bebês que ainda não seguiram, pelo menos, as três primeiras etapas da vacinação. Com a expressividade desses números, o lançamento da vacina chega em tempo para alavancar de uma vez uma estratégia imunológica chamada de cocoon. Internacionalmente bem-sucedida, seu nome já entrega o objetivo: Cocoon em inglês significa casulo. Em outras palavras, sua finalidade é proteger.

Todos ao redor da criança devem procurar a imunização. É recomendado que, os adultos que terão contato com recém-nascidos, vacinem-se antes do nascimento da criança e que a mãe já tome o reforço no último trimestre da gravidez para proteger o feto. A maioria dos casos requer tratamento ambulatorial, porém nos lactentes menores de 1 ano a atenção deve ser maior, pois a maioria dos casos evoluem com necessidade de hospitalização.

Segundo orientação do Ministério da Saúde, todos os comunicantes íntimos, familiares e escolares, menores de 7 anos não vacinados, inadequadamente vacinado ou com situação vacinal desconhecida deverão receber uma dose da vacina tríplice e orientação de como proceder para completar o esquema de vacinação. As gestantes têm à disposição a vacina acelular contra difteria, tétano e coqueluche (dTpa) no Calendário Nacional de Vacinação pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Dessa forma, o Ministério da Saúde busca reduzir a incidência e mortalidade causada pela doença entre os recém-nascidos. A vacina dTpa está disponível nos 35 mil postos da rede pública. A recomendação do Ministério da Saúde é para aplicação da dose a partir das 20ª semanas de gestação.

Uma vez diagnosticada a doença:

– Seguir as orientações médicas;
– Atentar aos sinais de alerta e, se necessário, procurar o hospital mais próximo;
– Nos episódios de tosse paroxística, a criança deve ser colocada em lateral ou decúbito de drenagem para evitar a aspiração de vômito e/ou de secreção respiratória;
– Mantenha o paciente afastado das atividades habituais (escola/creche/trabalho) por 5 dias após início de antimicrobiano apropriado;
– Mantenha o paciente afastado de outras pessoas e em ambientes arejados, enquanto durar a fase de transmissão da doença;
– Oferecer líquidos com frequência para evitar a desidratação e refeições leves, em pequenas porções, mas várias vezes ao dia;
– Separe talheres, pratos e copos para uso exclusivo da pessoa com coqueluche;
– Lave cuidadosamente as mãos antes e depois de entrar em contato com o paciente;

Converse sempre com o pediatra que acompanha a criança e com o ginecologista, no caso das gestantes, para maiores esclarecimentos e medidas preventivas.

Renata Scatena

Renata Scatena

Pediatra geral / Puericultura/ Aleitamento Materno - CRM 124.384

Formada pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos
Residência Médica em Pediatria pela Universidade de São Paulo - HCFMUSP
Especialização em Terapia Intensiva Pediátrica pela Universidade de São Paulo – HCFMUSP
Título de especialista em Pediatria pela SBP
Título de especialista em Terapia Intensiva Pediátrica pela AMIB
Médica Plantonista da Unidade de Terapia Intensiva do Instituto de Oncologia Pediátrica/GRAACC
Médica Pediatrae Diretora técnica da Clínica de Pediatria e Imunização Klabin
Renata Scatena