Os últimos meses não têm sido fáceis para os paulistanos. Se a falta de chuvas contribuiu para uma alarmante crise hídrica que tem afe­tado o abastecimento de água em diversos bairros, a volta delas trouxe à cidade incontáveis casos de que­das de fornecimento de energia elétrica. Na Chácara Klabin os “apagões” não são novidade, mas os casos se intensificaram nas primeiras semanas do ano, dei­xando moradores sem luz por até 72 horas. Para en­tender a situação, a CHK conversou com um especialista em engenharia elétrica, com a AES Eletropaulo e com vizinhos que passaram dias no escuro por causa da falta de eletricidade.

Um deles é o corretor de imóveis Mauro Martone, morador do bairro há 12 anos. No dia 12 de janeiro, segunda-feira, seu prédio, localizado na Rua Joao Luís Vives, teve o fornecimento de energia elétrica interrompido às 19 horas. Foi o começo de um martí­rio que duraria três dias. “Ficamos na escuridão total, sem TV, sem Internet, sem elevador. Subir e descer só de escada. Sem a geladeira funcionando tivemos um grande prejuízo com alimentos e bebidas”, conta. “Enquanto isso, eu e minha esposa abrimos mais de 30 chamados por dia na Eletropaulo. As respostas que recebemos eram sempre mensagens automáticas, di­zendo que já estavam a caminho”.

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Mesmo com a gravidade da situação, a energia só foi reestabelecida após 72 horas. “Os apagões são cons­tantes no bairro, basta chover. Meus pais, moradores da Rua Ernesto Oliveira, ficaram por 36 horas sem luz entre o Natal e Ano Novo. Mas nunca vi durar tanto tem­po assim”, reclama. “Ainda no segundo dia sem luz, um carro da Eletropaulo veio até à rua, onde dois disjun­tores estavam desarmados no poste em frente ao meu prédio. Inacreditavelmente, os funcionários não tinham a vara para religar os dispositivos e foram embora. No mesmo dia tinha na Rua Dr. José Estéfano um cami­nhão da companhia parado, com dois funcionários. Fui lá e implorei para que ligassem os disjuntores, mas me disseram que não poderiam, porque não tinham o cha­mado. Me senti totalmente menosprezado como cida­dão, um descaso total, pois pago meus impostos e não tive a quem recorrer”, desabafa o corretor.

Maria da Penha Ortale, moradora da Rua Ernesto de Oliveira, também passou pela mesma situação poucos dias antes do Ano Novo. Seu prédio ficou sem luz por 36 horas, mas os prejuízos foram ainda maiores para ela. “Vivemos uma situação de caos no condomínio, sem coleta de lixo, sem elevador, vizinhos perdendo os alimentos que haviam comprado para as festas. Mas pior do que isso foi perder quase uma dezena de doses de uma medicação caríssima que minha mãe, uma senhora de 100 anos, precisa tomar para contro­lar uma doença crônica. Os remédios, fornecidos pelo SUS, precisavam de refrigeração, mas com a geladei­ra desligada por tantas horas eles estragaram”, relata.

A moradora conta que perdeu as contas de quantas ligações fez para a Eletropaulo. A resposta, gravada, dizia que em questão de 2 horas o problema seria re­solvido. “O mínimo que eles deviam ter feito era dizer a verdade, que não havia previsão de volta. Moro há 10 anos no bairro e já enfrentei apagões de uma hora ou duas, mas jamais imaginaria que poderia chegar a 36 horas. Fiquei sem ação. Agora, passada a situação, voltamos ao SUS para retirar novos remédios e eles estão em falta. Abro mão do incômodo e dos alimen­tos que perdi, mas quem irá resolver a situação dos medicamentos, que é urgente?”, conta, indignada.

APAGÕES

Para entender o que são os apagões e por que eles ocorrem, conversamos com o professor José Aquiles Baesso Grimoni, do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétricas (PEA) da Escola Poli­ técnica da USP. Segundo o professor, o crescente nú­mero de quedas de energia na capital paulistana tem a ver com as chuvas intensas que afetam as redes, com ventos e queda de árvores. “O desligamento da rede pode ocorrer por rompimento de algum elemento que conduz a energia elétrica ou por atuação de dispo­sitivos de proteção, como fusíveis e disjuntores, que desligam a rede. Também em situações de sobrecarga de elemento da rede, como cabos, transformadores e outros, em curtos-circuitos ou ainda por perda de parte da geração ou da rede de transmissão”, explica.

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Para Grimoni, toda expansão de bairros ou condo­mínios novos, que incluem novos prédios, casas, co­mércio, indústrias, escolas, hospitais, devem ser ava­liadas pelos setores de planejamento das empresas distribuidoras de energia, para verificar as necessi­dades de reforços da rede e recapacitação da mesma, como, por exemplo, a construção de novas subesta­ções , troca de transformadores e cabos, e o impacto nos sistemas de transmissão, além da necessidade de novas usinas de geração de energia.

Para medir se o sistema de distribuição da cidade de São Paulo é eficiente, é preciso ficar atento aos indica­dores de serviço definidos pela Aneel (Agência Nacio­nal de Energia Elétrica), que indicam a frequência ou o número de desligamentos anuais e a duração destes desligamentos, tanto individuais como de um conjunto de consumidores. Os valores aparecem na conta men­sal de energia de cada consumidor e precisam estar dentro do que é considerado razoável pela Aneel.

Sobre medidas que podem ser tomadas para diminuir o quadro de apagões na cidade e especialmente na Cháca­ra Klabin, o professor entende que a situação é extrema­mente complexa e deve ser discutida por empresas de energia, Prefeitura, associação de moradores e outros órgãos. “Os desligamentos recentes estão ocorrendo por causa dos efeitos da chuva e ventos que, em mui­tos casos, derrubam árvores e, assim, afetam as redes elétricas. Portanto, é preciso pensar na questão da con­vivência de árvores em perímetro urbano com a rede elétrica – que não é só elétrica, pois os postes também têm redes de telefonia, TV a cabo e internet. As redes subterrâneas são uma alternativa interessante para di­minuir os apagões, principalmente em regiões mais ar­borizadas, com árvores frondosas que competem com o espaço das redes elétricas”.

Enquanto isso não acontece, Grimoni adverte sobre o que fazer em caso de tempestades como as que caíram na cidade nas últimas semanas. “Se estiver em espa­ços abertos, abrigue-se rapidamente, pois você pode atrair descargas atmosféricas (raios), como foi o caso da família que morreu na praia recentemente. Os raios podem também induzir surtos de tensão na rede de energia e de telefonia, que, se não estiverem protegidas com protetores de surto (DPS), podem ferir e até matar pessoas. Caso sua rede esteja desprotegida, é aconse­lhável desconectar os dispositivos da tomadas. No caso de queima de aparelho, é possível pedir ressarcimento para a concessionária. Os sites das concessionárias devem informar como fazer essa solicitação”.

RESPOSTA DA AES ELETROPAULO

Para ouvir o outro lado da história, entramos em contato com a AES Eletropaulo e conversamos com o Gerente de Programação e Análise da Operação, Alessandro Alves Martins, que nos explicou sobre os processos de manu­tenção, análise e distribuição de energia elétrica realizado pela empresa, e esclareceu alguns pontos sobre a situa­ção vivida pela Chácara Klabin e outros bairros no período entre o fim do ano passado e o começo deste ano.

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A princípio, é preciso entender como a rede elétrica funciona. Isso pode explicar casos em que não há apa­rentemente nada de errado com a fiação visível, mas, mesmo assim, todas as casas e prédios de uma de­terminada rua ficam sem energia. “O sistema é todo interligado e é constituído em três etapas: geração, transmissão e distribuição. Nossa rede é alimentada, em maioria, por energia gerada em hidrelétricas, que ficam distantes da região metropolitana. Essa eletrici­dade passa pelo sistema de transmissão – as grandes torres que vemos nas estradas -, antes de chegar às subestações, estrutura composta por transformadores, disjuntores e outros equipamentos de manobra, que serve para, entre outras coisas, rebaixar a tensão para o nível da rede de distribuição”, explica Alexandre.

É a partir desse ponto do sistema que os problemas costumam ocorrer. “Cada região é abastecida por uma subestação. Da sub, a energia chega aos fios de alta e baixa tensão dos postes. Em São Paulo, atualmente, são 152 subestações. Em caso de problemas, há uma flexibilidade que permite remanejamento de abaste­cimento, de modo que determinado bairro seja abas­tecido emergencialmente por outra subestação. Essa manobra pode ser feita pelo Sistema de Supervisão e Controle, remotamente do Centro de Operações da AES Eletropaulo em Alphaville, ou direto na rua, por meio de chaveamento”.

Entre os principais problemas está a queda de raios, árvores e outros objetos, danificando a rede de dis­tribuição. “Nos últimos meses temos enfrentado uma situação atípica de tempestades e ventos violentos que têm derrubado árvores, galhos e até telhas de casas na fiação. Há um controle da Eletropaulo para podar árvores que possam entrar em contato com a rede elétrica. Só nos últimos dois anos, foram poda­das mais de 800 árvores nessa situação. O problema é que a força dos ventos foi tão grande, que derrubou árvores do lado oposto à fiação, que acabaram por atingir a rede”, afirma o gerente.

Diante dessa situação, muitos moradores perguntam sobre fiações subterrâneas serem uma saída. Alexan­dre explica que o enterramento de fios elétricos não é via de regra em nenhuma região, mas uma exceção. “O principal fator que inviabiliza essa solução é o preço do investimento, além do que é preciso de uma justificativa para a mudança, como um volume de carga muito alto, por exemplo. Esse tipo de sistema custa de 10 a 15 ve­zes mais do que o comum e também está suscetível a ocorrências e danos”, explica. “Além disso, ao escolher um bairro para implantar esse projeto, seria preciso ra­tear o valor do investimento com todas as outras regiões da cidade, o que resultaria em encarecimento da tarifa. O que já foi feito em outros bairros para viabilizar essa alternativa é a participação da iniciativa privada, como ocorreu na região da Rua Oscar Freire”, declara.

Sobre outra reclamação comum dos moradores, de que a rede elétrica do bairro não teria acompanha­do o rápido crescimento e a verticalização da região, Alessandro justifica que o setor de planejamento da AES Eletropaulo monitora constantemente esse tipo de situação nos bairros atendidos e, quando necessá­rio, realiza os ajustes necessários com a verba que é destinada à expansão da rede. O gerente reforça que as recentes quedas de energia no bairro não têm re­lação com uma suposta defasagem na rede elétrica da Chácara Klabin.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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