Todo ser humano tem uma tendência inata ao desenvolvimento biológico, intelectual, afetivo, espiritual e psíquico. O desenvolvimento ocorre durante toda existência do indivíduo, desde a gestação até a velhice. Estamos sempre nos desenvolvendo em algum aspecto, mesmo que em outros já tenhamos estacionado ou encontremos limitações.

O estilo de vida que adotamos interfere de modo decisivo nesse processo, moldando nossa existência, a relação que temos com o mundo e com as pessoas, e principalmente a relação que temos conosco, determinando quão saudáveis podemos ser. Entretanto, nem sempre estamos conscientes dessa escolha. Ao mesmo tempo em que desejamos saúde, alegria, paz interior, inclinando nossos desejos para um modo mais simples e sereno de viver, aproveitando o momento presente em sua plenitude (slow life), estamos mergulhados em milhões de estímulos que conferem aos nossos dias uma constante sensação de estarmos correndo, apressados, impacientes, intolerantes (fast life).

Estamos mergulhados num ciclo de consumo que nos diz aquilo que precisamos para a plena felicidade, porém sendo os produtos descartáveis, tal felicidade é também descartável, e portanto nos move a desejar sempre um outro item que nos tornará mais felizes, e assim por diante… Nessa onda “fast life”, os recursos tecnológicos, legítimos representantes da modernidade, estão cada vez mais acessíveis a todos, inclusive às crianças, desde a mais tenra idade. A indústria de brinquedos e aparelhos tecnológicos se fortalece dia a dia, oferecendo ao público
infantil e adulto um universo de opções que usa o apelo visual (sedutor), a velocidade e o universo virtual para excitar e encantar seus consumidores. Os conteúdos apresentados por esses aparelhos e brinquedos são recheados de conceitos e afetos que são transmitidos de forma ostensiva ou subliminar, e geralmente são itens secundários na avaliação de consumo. Os apelos principais são a moda, o status e o quanto se acredita que vá “distrair a criança”.

Mas atenção: Crianças não precisam se distrair!

Oferecer um brinquedo ou uma brincadeira à criança é algo muito mais complexo do que simplesmente “algo para se distrair”. Distrair, segundo o dicionário, é tornar desatento!! Será que é isso que queremos? Vivemos, como nunca, uma epidemia de síndromes e transtornos, tendo na medicalização da infância a marca triste de um recorde mundial. Seria fruto de uma adultização da infância?

 

Os gadgets, de um modo geral, solicitam da criança o raciocínio objetivo, lógico, veloz. O universo se apresenta pronto, ao toque de uma tela. Quase não é necessário utilizar o corpo na percepção de si mesmo, ou na relação com outras pessoas.

As consequências?

A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadense de Pediatria estabelecem que os bebês de 0 a 2 anos não devem ter nenhum contato com dispositivos portáteis (telefones celulares, tablets, jogos eletrônicos).

Apontam para alguns problemas sérios da superexposição das crianças aos dispositivos portáteis:
– rápido crescimento do cérebro;
– atraso no desenvolvimento;
– epidemia de obesidade;
– transtorno do sono;
– distúrbios psíquicos;
– agressividade;
– imaturidade e labilidade emocional;
– timidez;
– ansiedade;
– pensamento acelerado;
– déficit de atenção;
– dificuldade de aprender;

Advertem ainda para a questão da exposição à radiação, cujos critérios são revistos constantemente, pois os resultados de pesquisas apontam de forma desfavorável para os critérios de saúde.

Enfim, podem ser muitas as consequências de uma vida onde careçam as relações saudáveis e os estímulos necessários e adequados à infância. A perspectiva lúdica da vida fica prejudicada, influenciando a maneira como a criança se comportará em diferentes situações, inclusive quando atingir a adolescência e a vida adulta. O brincar para a criança é mais do que preencher seu tempo, e vai além de ser um meio de entreter a criança para que ela fique “quieta”. Brincar é um modo de lhe apresentar o mundo.

Brincar é estar em contato com a natureza, com outras crianças, com adultos que se permitam entrar no jogo da criança, através de situações ricas em possibilidades, colaborando com seu desenvolvimento integral e estimulando as potencialidades a serem desenvolvidas, enriquecendo a vida da criança de uma forma integral. Os pais devem estar atentos ao ambiente em que a criança cresce, para sintonizarem com as reais necessidades de seus filhos, sabendo discernir com mais critério o que proporcionar ao universo infantil.

O modo como as crianças são criadas e educadas superexpostas à tecnologia não é mais sustentável. É preciso refletir sobre “que filhos queremos deixar para o mundo” e não somente no mundo que desejamos para nossos filhos. Para a criança, brincar é um meio saudável de desenvolver recursos fundamentais para lidar com a realidade. Quando tornar-se um adulto, o lazer e a arte terão a função desse brincar, como possibilidade de compreender a si mesmo, ao mundo que o cerca, tornando a vida mais significativa, podendo utilizar os múltiplos recursos que o corpo e a psique possibilita. A vida precisa ser lúdica para que haja espontaneidade, curiosidade saudável, questionamento, investigação, utilização livre do corpo, possibilidade de acertar, errar e corrigir-se. Na vida, para ter sentido, é imprescindível a relação interpessoal franca e verdadeira e o prazer de viver.

Brincar é conquistar o mundo através dos infinitos recursos pessoais. É aprender sobre si mesmo e sobre a própria subjetividade. É aprender sobre o outro e sobre as relações e os afetos. É experimentar, de diferentes maneiras, os desafios e as superações. É usar a si mesmo para conquistar a autonomia, é encontrar o prazer de sentir a própria humanidade.

O natal está chegando… vamos pensar bem nos valores e hábitos que queremos alimentar em nosso lar, em nossa família. Brincar é coisa séria! E não é algo para a infância apenas… todos somos habitados por uma criança ávida para brincar de viver!

Andrea Tarazona

Andrea Tarazona

26 anos como Psicoterapeuta. Especializada em Psicologia Clinica e Psicologia Institucional. Atuando nas áreas: Psicoterapia de Adultos (individual e casal) e Adolescentes, Orientação para pais e gestantes.
Andrea Tarazona