Um dos grandes nomes do graffiti mundial, Tinho estampa em suas obras o protesto e sua visão de mundo

Durante os anos 1980, era comum ver as crianças brincando na rua e se divertindo com brincadeiras que hoje em dia poucas conhecem. Na zona norte de São Paulo daquela época, existia um menino que gostava muito de andar de skate pelas ruas do bairro. Walter Nomura era um garoto arteiro que desde cedo conheceu e participou do movimento da pichação na cidade, o que lhe rendeu alguns problemas em casa. Quando iniciou seu trabalho como office boy, no fi nal dos anos 80, no bairro da República, Walter começou conhecer profundamente a cidade e o centro de São Paulo – as belezas escondidas e as verdades que ninguém queria enxergar, como os moradores de ruas e crianças abandonadas. Percebeu que a selva de pedra não exibia apenas pichações, mas sim coisas muito mais coloridas que também apareciam em suas revistas de skate. Eram os tais graffitis. Por coincidência, naquela mesma época, estreava nos cinemas do Brasil um filme americano chamado Beat Street, que desvendava ao mundo o que era o graffiti e a cultura Hip Hop. A partir daí, Walter começou a comprar tintas e buscar inspirações para começar os seus primeiros trabalhos.

Andando pela zona central da cidade e de skate pela Praça Roosevelt encontrou a inspiração que precisava. “São Paulo era muito ruim nessa época. Todo lugar tinha morador de rua, criança vendendo doce no farol e como eu tinha um pensamento politizado, preocupado com as questões sociais, pensei em começar a desenhar aquelas crianças sem rumo”, lembra. Sempre com um caderno no bolso, sentava no skate e desenhava para depois passar para a parede. Os desenhos costumavam vir acompanhados de frases como “Você acha bonito isso? “, para um desenho de uma criança comendo o lixo das ruas. Mais tarde, por perceber que as crianças não tinham brinquedos, inspirou-se em alguns da época, como Sansão e Emília, para criar uma boneca de retalhos que apareceriam nas mãos das crianças, o que virou a sua marca registrada.

Atualmente, Tinho, como é conhecido, expõe suas obras em galerias do mundo inteiro e seus graffitis estão espalhados por muitas cidades. O graffiti teve início nos Estados Unidos nos anos 1970, quando os jovens de Nova Iorque decidiram deixar suas marcas nos muros da cidade. Mais tarde, se tornou uma manifestação artística que cresceu e evoluiu no uso de técnicas e desenhos. Hoje, podemos ver o graffiti pelo mundo inteiro, de diferentes formas e de acordo com a cultura de cada região. O Brasil não poderia ficar de fora. Tinho conta que o reconhecimento internacional veio devido a atitude dos brasileiros de realizar o graffiti. Ele lembra que a ideia de não ser igual ao resto do mundo funcionou, e isso acabou chamando atenção de todos lá fora que queriam entender como os brasileiros realizavam o graffiti. “Não só eu, mas também Os Gêmeos, o Speto, o Binho e toda galera que pintava aqui, acompanhava o que eles faziam lá fora e a gente pensava: Nossa, um dia eu quero pintar com esse cara, aí de repente, o cara estava aqui para aprender com a gente”, lembra. A partir daí, Tinho conta que ele e vários grafiteiros renomados atualmente começaram a ser convidados para trabalhos lá fora.

Tinho aprendeu que nem todos entenderiam seu trabalho, mas acredita que muita gente começou a pensar a respeito, e afirma que existia a vontade de que suas obras melhorassem o que ele enxergava de São Paulo, mas ainda não sabe se isso funcionou. O grafiteiro acredita que o que se vê é tão forte e violento, que as pessoas passam a criar uma barreira. “Quando você não gosta de algo, aprendemos a criar uma barreira e aquilo fica como se não existisse. Mas quando está numa pintura, cinema, peça de teatro ou música, as pessoas recebem essa mensagem de uma outra forma. Ela entende que aquilo existe, pelo menos por um instante”, afirma.

Quando perguntado sobre quem era o Tinho do passado, o artista conta que começou a pichar ainda quando criança e a pichação sempre foi algo proibido. Mas em uma época de ditadura militar e censura, o proibido tinha outra carga e fazer algo proibido era como um grito de liberdade. “Eu queria ser livre. E no meu pensamento isso era uma forma de luta contra tudo aquilo, contra esse sistema todo, que ainda é hoje”, explica. Tinho acredita que a pichação ainda se trata disso, mas perdeu um pouco a carga embora a ditadura militar tenha dado espaço para a ditadura social e econômica. Hoje, com mais maturidade, afirma que a batalha é mais intelectual e menos de punho, passando experiências aos mais jovens. Na FAAP, faculdade em que se formou, percebeu que precisava estudar muito pois a “máquina” da arte contemporânea funciona dentro de um quadro elitizado de uma minoria, difícil de entrar e fazer parte. Tinho descobriu que muita gente das ruas tinha a vontade de pertencer à elite cultural das artes e que, assim como ele, sofreram as mesmas pressões e preconceitos por virem da rua. “Então eu pensei em virar esse jogo, tirar essa diferença. Comecei a reunir um grupo de artistas lá em casa, de gente que estava nessa onda de querer aprender mais sobre arte contemporânea. Então eu funcionava como um organizador, provocador, um cara meio rabugento, mas a ideia era todos aprenderem e crescerem juntos”, conta. O projeto existe há 7 anos e é composto por mais de 20 pessoas.

Apesar de atualmente ser mais valorizado e reconhecido pelo mercado, o graffiti ainda gera polêmicas entre a sociedade que se divide por considerar uma manifestação de arte ou vandalismo. Tinho não se importa com esses questionamentos, continuando sua trajetória de sucesso no mundo das artes.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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