Há um conhecido ensinamento de Dalai Lama, mestre budista tibetano, que diz: “Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã. Portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”. Não é preciso ir tão longe para confirmar a veracidade dessas palavras: cinco minutos de conversa com Cristina Freire podem ensinar o mesmo. Cris, como prefere, é conhecida por seu trabalho à frente da 4Cão, organização sem fins lucrativos que luta ativamente para mudar a história de animais em situação de abandono. Sua contribuição para o mundo, entretanto, vai além dos milhares de cães salvos pelo projeto. O ativismo de Cristina pela vida é sua grande mensagem, capaz de transformar também a história das pessoas.

Há quatro anos a publicitária foi diagnosticada com esclerose múltipla, uma doença crônica do sistema nervoso central que afeta o cérebro e a medula espinhal e que pode interferir no controle de funções como caminhar, enxergar e falar. Há dois anos, Cristina se tornou cadeirante. Na mesma época, suas duas cachorras, Gaya e Cacau, faleceram. O fim, porém, deu lugar a um novo começo. Procurando um cão para adotar, encontrou em um abrigo o pitbull Snow. “Assim que vi seu olhar de abandono, profundamente deprimido, não tive dúvidas em levá-lo comigo”, conta.

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Além da adoção, ao ver tantos cachorros em más condições, Cristina sentiu que precisava fazer algo para ajudar aqueles animais. Na mesma semana começou a trabalhar voluntariamente no abrigo. “Por causa da doença, precisei sair da publicidade. Decidi então que ia trabalhar com todas as minhas forças para salvar a vida daqueles e de outros cães. Por um lado, foi um jeito de me sentir viva e útil. Ao mesmo tempo, despertou em mim uma necessidade urgente de agir. Além de sentir que era uma obrigação moral, não havia e não há até hoje uma iniciativa do Estado que ampare animais em situação de abandono. Escolhi assumir a responsabilidade”, afirma.

A ajuda institucionalizada, porém, logo trouxe conflitos. “Presenciei coisas que não eram corretas, como desvio de ração e coisas do tipo, e achei melhor sair”. Mas a causa estava longe de enfraquecer na vida de Cristina. Assim, em 2012 surgiu a 4Cão, reunindo voluntários para promover mutirões de banho, castração, vacinação, campanhas de arrecadação de ração e cobertores, construção e reforma em abrigos e casas de protetores independentes, além de fornecer auxílio médico-veterinário a custo zero ou valores solidários. “Nós atuamos na linha de frente dessa luta, dedicando nosso tempo e esforço para ajudar animais que são praticamente invisíveis para o resto das pessoas”.

Em pouco mais de dois anos, a ONG já ajudou milhares de cães com suas atividades. Uma delas é investir na castração de animais de rua, para tentar diminuir a reprodução descontrolada que causa a superpopulação e só coloca mais animais em condições de abandono. Para isso, a 4Cão conta até com método próprio de castração, desenvolvido por um professor de farmacologia veterinária visando o mínimo de dor possível aos cães. Em muitos casos a ONG conta com a ajuda de pessoas que decidem apadrinhar cães abandonados e arcam com os custos da castração (em torno de R$60).

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Outra situação frequente para a 4Cão é o resgate de animais em más condições. “Uma vez fizemos uma intervenção em Tremembé, em uma casa onde uma mulher havia falecido e deixado para a mãe, uma senhora já de idade, cerca de 20 cães criados a vida inteira em caixas de transporte. A cena era horrível. Muitos estavam atrofiados, por causa do confinamento. Outros apresentavam tumores e outras doenças. Nós conseguimos fazer o resgate de alguns deles e submetê-los a cirurgias. Infelizmente, alguns não resistiram. Para os que ainda residem no local, nós fazemos doações mensais de ração para ajudar a dona”, conta.

Além dos desafios inerentes ao trabalho, Cristina precisa adaptar suas atividades às dificuldades impostas pela sua saúde. Mas isso está longe de ser motivo de lamentação. “Eu faço o máximo que posso. Divido meu tempo entre resgates aos finais de semana e nos outros dias faço tudo que consigo pelo computador. O importante é fazer, essa é a lição que aprendi. Uma noite eu fui dormir normalmente e acordei quinze dias depois na UTI. Não tenho tempo para ficar parada me lamentando. Viver é agir, é estar em movimento!”, ensina. “Se você consegue mexer um dedo, mexa um dedo. Se você for capaz apenas de sussurrar, sussurre o mais alto que puder”.

Perguntada sobre o que a faz continuar, Cristina se emociona. “Às vezes uma pequena atitude pode mudar completamente a vida de uma criatura, seja ela um animal ou uma pessoa. E isso é o que me traz satisfação e bem estar. Toda vez que ajudo alguém, sinto que é uma vitória. Não importam as dificuldades, eu jamais me rendi e tenho certeza que estou recebendo tudo de volta”, conclui. Que exista uma Cristina em cada um de nós.

Redação CHK

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