OLÁ, LEITORES!

Venho muito animada lhes contar de minha última descoberta na área de Paisagismo.

Vocês sabem que escolho apenas lugares que considero especiais e não apenas bonitos paisagisticamente. Estes lugares são singulares e não importam onde estão. Sempre transcendem as relações entre humanos & natureza. Muitos, como eu disse em outros artigos, nos tocam sensorialmente, espiritualmente ou são verdadeiros poemas ao ar livre. E até sinto ares do passado e perfumes de outros séculos.

É nesse clima que redescobri Campos do Jordão num lugar incrivelmente inspirador: AMANTIKIR!
foto-1(foto: arquivo pessoal da colunista Cíntia R Rondon)

Tanto anos e anos que exploro as facetas naturais deste lugar tão conhecido por nós. Visito há décadas (décadas mesmos, “repetidamente”. Entre aspas porque a cada estação do ano, estes lugares são outras paisagens que se transformam em si mesmas): Horto Florestal, Borboletário e as Cerejeiras da comunidade japonesa.

Prometo falar destes também em breve, mas hoje tenho como apreço: AMANTIKIR!

Como professora-mestre pesquisadora incansável de História, Cultura e Arte, já me chamou atenção o nome deste lugar. Pelo folder do local, passamos a entender que o nome esta relacionado a uma lenda indígena. O que me causou alvoroço, já que tenho uma bisa materna índia.

Diz a tal lenda que “uma princesa tupi se apaixonou pelo Sol e ele por ela, causando a ira da Lua. Enciumada, a Lua se queixou ao deus Tupã, que decidiu erguer uma enorme montanha e prender dentro dela a indiazinha. De tanta tristeza, o Sol sangrou o poente. A Lua arrependida, chorou as constelações, ao ver a dor do seu amado…desde então, todos os dias quando o sol nasce, a princesa chora de saudades, parando apenas quando o sol se põe. Suas lágrimas formam as nascentes, córregos e rios da serra. Daí Amantikir – a montanha que chora.”

Quando estudamos Paisagismo no Brasil, passamos a saber que o nome “Serra da Mantiquera” significa serra “que chora”. Devido a sua riqueza hidromineral, sua abundância de cachoeiras, rios que percorrem a serra como “lágrimas” na visão indígena. Mas até ai, muitos já sabem disso. Porém encontrar um projeto paisagístico baseado em tais lendas me instigou a lhe mostrar tudo!

Não resisti. Como tenho a fotografia como hobbie, registrei mais de duzentas fotos.

Quando me deparei com a planta-baixa do Amantikir, me pareceu um esboço de um rosto de índia em perfil. Não pude confirmar com que concebeu o projeto, mas percebo que o simbolismo “alimentou” o projeto que agora “degusto” com vocês!

foto-2

(foto: arquivo pessoal da colunista Cíntia R Rondon)

Paisagistas, podemos tentar arriscar que o chamado “Labirinto de Grama” configura os olhos da tal índia (estaria ela ainda “perdida”, tentando encontrar seu amado? Me arrisco a interpretar). E talvez seus longos cabelos se revelam no “Setor Lilás”, onde podemos apreciar o “Jardim de Orquídeas”, o “Jardim de Sombra”, o “Jardim Alemão” e claro (ao meu ver), o “Jardim Romântico” no que seria a parte posterior do pescoço de nossa triste princesa. Já o “nariz” dela, poderia ser a área que se apresenta o “Jardim Árido” e o “Jardim de Capins”. E, no ápice de minha interpretação estético-simbólica, a casa da recepção “engoliria” seus visitantes “para dentro desta índia”, nos imergindo em sua lenda.

foto-3

(foto: arquivo pessoal da colunista Cíntia R Rondon)

Muitos espaços foram setorizados em ares que enfatizam um estilo paisagístico, variando de referências na História dos Jardins do estilo do jardim inglês ao Frances. E, ecleticamente, permeando estilos orientais e ocidentais numa simbiose incrível.

E mais. Dentro do olhar de quem estudou Desenho Ambiental, vejo que “os olhos” da tal princesa Tupi observam o poente no famoso e bucólico “Mirante”.

Visitem Amantikir com este olhar da Micro-História, por mim discípula de Peter Burke (historiador inglês; 1937-). Como ele diz em seu livro “O que é História Cultural?”, nas minhas palavras: As grandes narrativas registram apenas a história dos dominadores. As micro-histórias, no nível da ótica de um único indivíduo ou de uma família pode nos revelar muito da verdadeira realidade, dentro de muitas que coexistem num momento histórico. E do Simbolismo, tão estudado por Carl Yung, já que todo o projeto de paisagismo ou de arte ou de arquitetura tem como matéria-prima nosso pensamentos, nossos valores, nossa cultura. Por mais padronizado e engessado que sejam. Como diz Zélia Duncan naquela música: “Tudo aqui quer me revelar”.  Com certeza!

foto-4

(foto: arquivo pessoal da colunista Cíntia R Rondon)

Aproveitem para se deleitarem com momentos que registrei nestes “jardins que falam”, como anunciam na placa da entrada. Nada inocentemente.

Passeie por todos os setores, sem pressa. Reservem quase um dia todo para ele. Tome chá e coma algo lá. Este projeto é uma “biblioteca ao ar livre”, como gosto de classificar projetos assim. Tem inúmeros espécimes vegetais típicos de cada estilo de jardim. Uma paleta cromática rica. Espaços de ação (caminhar) intercalando com espaços de repouso (até para um cochilo…humm).

foto-5

(foto: arquivo pessoal da colunista Cíntia R Rondon)

Penso porque o que considero “os ouvidos” da nossa indiazinha parece setorizado no grande e clássico “Espelho D´água”. No Feng-Shui água renova nosso espírito e no Simbolismo, água materializa nossas dores e tristeza. Quem sabe pensaram nisso? Eu realmente deixo aqui meu pedido para conhecer o autor deste projeto. Para que ele me conte mais, o que vi e o que ainda não enxergo.

foto-6

(foto: arquivo pessoal da colunista Cíntia R Rondon)

No mais, peço a administração do Amantikir que, com intuito didático (que sempre me preocupo pela minha atuação como docente), que elaborem um projeto visual que possa fazer desta experiência única uma oportunidade de aprendizado para todos que tem a Natureza como meio para estudos e pesquisas. Elaborando placas informativas de cada espécime vegetal, com nomes científicos, país de origem. E, quisá, promovendo visitas guiadas regulares. Nas quais sugiro o contato com os jardineiros do Amantikir. Pessoas singulares que pude ter contato. Que poderiam falar sobre a manutenção e sobre as próprias plantas de uma outra ótica. Como o atencioso jardineiro Mário, que tive o prazer e a sorte de conhecer no Viveiro, que me revelou muito mais sobre este encantador projeto.

Muitas vezes nos deparamos com obras de Arte de todas as formas possíveis, mas só as vemos. Não as enxergamos! Friso com ardor.

Para isso, peço novamente aos alunos das escolas em geral (Educação Infantil, Fund I e II, Ensino Médio), de Arte, de Arquitetura e do Paisagismo, nas palavras de minha avó materna Célia Franco: “Nunca pare de estudar”.

Aguardo, por gentileza, o contato do Amantikir para finalmente conhecer seu paisagista. Para eu poder ampliar meus estudos neste singular jardim! Jardim visitado por gente do Brasil todo, como pude conhecer alguns destes visitantes. Como o casal de Pernambuco (foto acima) que me autorizou a tirar uma foto.

O perfume que senti, o som das árvores, a dança das cores e o detalhe de uma única flor…você que vá até lá. Não tem como descrever. Tem que vivenciar! Para que informação se transforme em conhecimento. Pois acredito na “Educação dos Sentidos”, discípula eu também de Froebel.

Amantikir sempre existiu dentro de mim. E espero encontrar outras partes de mim por este planeta, assombrosamente Sublime!

Carpe Diem! Fugere Urbem!

(em Latim: Aproveite o dia! Fuja da cidade!)

foto-7

(foto da paisagista-colunista no Amantikir)

Para saber mais, dica deste estudo da Prô Cici:

instragam.com/amantikir

facebook.com/amantikirgarden

www.parqueamantikir.com.br

ABERTO TODOS OS DIAS DAS 8H30 ÀS 17H00

Telefone: (12) 996346784

e-mail do Amantikir: amantikir2007@gmail.com

e-mail da Profa Mestre Cíntia R. Rondon/colunista: cintia_arq@yahoo.com.br

……………………………………………………………………………………………………………….

Agradecimentos especiais a minha amiga (que considero irmã), Rita Prescinotti, por me mostrar este lindo lugar que estava invisível para mim (ela aparece numa foto acima, uma forma de agradecê-la).

………………………………………………………………………………………………………………

 

 

Cintia Ribeiro

Cintia Ribeiro

Arquiteta paisagista e urbanista.Professora de Paisagismo e Decoração. Mestre em Arte, Educação e História da Cultura. Especialista em Desenho Ambiental, Arquitetura da Paisagem e Historia da Arte.
Cintia Ribeiro