am3Gisele Doho sempre procurou uma oportunidade para fazer a diferença na vida das pessoas. No ano passado, uma amiga lhe apresentou o trabalho da Obra Assistencial Mãe Florinda, que tem ajudado centenas de famílias na região da Freguesia do Ó há mais de três décadas. “Há algum tempo já colaborava com instituições, fazendo doações de alimentos quando surgia a oportunidade, mas sentia que ainda havia uma lacuna”.

A resposta, conta, veio com o envolvimento mais próximo e pessoal com a instituição. “Deixou de ser uma ajuda simplesmente financeira e virou uma doação do meu tempo, do meu carinho e amor. E foi isso que acabou me mostrando o sentido maior de participar do trabalho”, diz a gestora de marketing, que há um ano assumiu voluntariamente a comunicação da Obra. “O envolvimento com as pessoas tem me ensinado muito, especialmente as crianças. Elas são meu primeiro pensamento ao acordar”, completa.

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Mãe Florinda, que dá nome à ONG, foi benzedeira na cidade de Casa Branca, interior de São Paulo. Agradecidas, as pessoas que a procuravam retribuíam as orações com alimentos, que a senhora repassava para pessoas mais necessitadas que ela. Após sua morte, seu neto, João Batista de Souza Filho, decidiu continuar com a missão solidária. Atualmente, a Obra ajuda 160 pessoas – divididas em 36 famílias – em situação de miséria, com alimentos, roupas, utensílios de higiene pessoal e para casa, cobertores, material escolar para as crianças, enxoval completo para os bebês das gestantes. Ao mesmo tempo, oferece oficinas e palestras para os adultos, aulas de Judô e desenho para os mais novos, além de atendimento médico e odontológico para os participantes. “É um processo de capacitação dessas pessoas como cidadãos e cidadãs, até que elas alcancem condições de caminhar sozinhas”, afirma Michele Neregato, a amiga que levou Gisele até a instituição.

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Ainda segundo Michele, a transformação que o trabalho produz pode ser sentida tanto pelas famílias ajudadas, quanto pelos voluntários. “São realidades muito difíceis e conhecê-las de perto tem um impacto muito grande no peso que dou para os meus problemas. Aprendi a ser grata por um prato de arroz e feijão, por exemplo. Há problemas muito mais reais do que as nossas preocupações comuns do dia a dia”, explica. “É uma troca constante, visando a evolução de todos como seres humanos. Ninguém é tratado como coitado. O pleno exercício do amor traz esse sentimento de igualdade entre as pessoas”, afirma Marilene Simão Kehdi, psicóloga e diretora – ao lado de seu marido, João Batista – da Obra Assistencial Mãe Florinda.

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Marilene é uma dessas vidas transformadas. O que começou como trabalho voluntário se transformou em carreira. “Ajudar as pessoas na Mãe Florinda me motivou a estudar psicologia, trabalho que exerço atualmente com especialização em atendimento clínico. Depois da faculdade, vieram as pós-graduações em Psicossomática e em Psicopatologia, Psicofarmacologia e Saúde Mental, e a decisão de me tornar escritora. Hoje estou no meu sétimo livro, todos eles pensados para ajudar o leitor a encontrar equilíbrio emocional e uma vida mais feliz”, conta. Mas essa não é a maior realização para a psicóloga. “O que realmente me faz feliz é ver vidas sendo salvas. Crianças, por exemplo, que chegam até a ONG e apresentam um comportamento agressivo, desconfiado, muitas vezes com histórico de maus tratos, e, aos poucos, são tocadas pelo amor dos voluntários e acabam sendo muito transformadas. Com certeza essas crianças serão adultos muito diferentes graças ao apoio dessas pessoas”, acredita.

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A afirmação não é à toa. “Certa vez, o João estava andando na rua, quando foi parado por um jovem de aproximadamente uns 20 anos. Ele parecia muito animado e começou a contar sua história. Disse que frequentou a Obra Assistencial Mãe Florinda desde os cinco anos de idade e que lembrava da alegria da mãe e da avó quando recebiam as cestas básicas. Contou então que agora ele estava se formando engenheiro químico e que as cestas doadas não só garantiram a saúde da família, mas com o dinheiro economizado ele pôde comprar os livros que usou para estudar. Disse ainda que na Obra ele aprendeu o valor da família e que trazia isso com ele até hoje. Esse tipo de história faz a gente enxergar que a nossa caminhada está valendo a pena”, conta.

Caminho de esperança

Andrea Tarazona começou a frequentar o Núcleo Assistencial Bezerra de Menezes, na Chácara Klabin, em 1990. Convidada pelo marido, que já participava das atividades do Bezerra, a psicóloga a princípio assistia palestras e comparecia aos eventos. Após o nascimento dos dois filhos, se interessou pelo trabalho social mantido pela casa e em 1998 se tornou voluntária. “Desde a adolescência já participava de campanhas beneficentes. Conheci o trabalho que a instituição fazia na região de Cananeia, uma das mais pobres do Estado de São Paulo, e decidi participar. No começo, era a única atividade que realizava como voluntária, indo a Cananeia uma vez ao mês. Logo depois comecei a me envolver também com as atividades da unidade em São Paulo”, lembra.

am8Quando Andrea conheceu o Bezerra de Menezes, a organização sem fins lucrativos já tinha mais de uma década. A fundação aconteceu no dia 6 de dezembro de 1979, por um grupo liderado pelo Sr. Geraldo Belletti Britto, em um sobrado na Rua Pelotas, Vila Mariana. Três anos depois, o Núcleo Assistencial Bezerra de Menezes receberia da Prefeitura a concessão de uso do terreno na Av. Prefeito Fábio Prado, onde está até hoje. Desde o começo, o objetivo da instituição é auxiliar pessoas carentes em suas necessidades, sejam elas sociais, financeiras ou emocionais.

De lá pra cá o trabalho não parou de crescer. Atualmente são cerca de 300 famílias cadastradas (São Paulo e Cananeia) que recebem cestas básicas mensalmente e orientação familiar. Além dessas, quase 900 pessoas frequentam o Bezerra semanalmente, participando das atividades e palestras oferecidas pelo Núcleo. “Cada pessoa precisa de um tipo diferente de assistência. Há situações urgentes em que, antes de qualquer coisa, aquela família precisa de alimento. Outras pessoas estão carentes de um ambiente onde possam refletir sobre o atual momento de suas vidas e, aos poucos, encontrar novas alternativas para resolver seus conflitos. O trabalho dos voluntários dedica-se a prestar apoio nas duas situações”, afirma Andrea.

E tem dado certo. Todo mês o Bezerra de Menezes arrecada em média 4,5 toneladas de alimentos, além das campanhas sazonais, como a de Natal, que presenteia mais de 2.000 crianças carentes com roupas e brinquedos novos. “Para esses meninos e meninas, o Natal começa em novembro, quando as doações da campanha serão, muitas vezes, o único presente que eles irão receber. Mais do que um brinquedo ou uma roupa, o contato com os voluntários desperta nessas crianças um sentimento de gratidão e de amor também. Quando elas recebem os presentes, elas cantam, beijam, abraçam e não desgrudam do Papai Noel nem por um minuto. A resposta do trabalho está no olhar desses pequeninos”, conta.

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Ao mesmo tempo, a procura pelas atividades no Bezerra está sempre em alta. Destaque para a criação do Centro de Convivência, que está completando um ano, e que oferece gratuitamente atividades como ioga, meditação, artesanato, dança de salão, aulas de culinária, informática e dança circular. “Antes de abrirmos já havia fila de espera. Havia uma demanda grande de pessoas carentes dessas atividades sociais e ocupacionais. Recebemos senhoras que superaram a solidão e agora estão aprendendo como lidar com o computador para conversarem com um neto que mora longe, realizando pesquisas via internet. Recebemos também outras que redescobriram o próprio corpo de uma maneira mais saudável após começarem a participar da ioga ou das danças”, comemora.

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Ambos os trabalhos contribuem para o surgimento de um terceiro tipo de auxílio prestado aos frequentadores, segundo a psicóloga. “Quando essa pessoa começa a se transformar e se sentir mais feliz, que é a filosofia da casa, a chance é grande de que ela também multiplique essas ações em favor dos outros. E isso tem um grande poder de transformação: sair de si mesmo e identificar-se com a necessidade do outro, mobilizando o que estiver ao seu alcance para ajudar ao próximo. Essa é uma porta de entrada para o voluntariado”.

Atualmente, o Bezerra conta com mais de 400 voluntários, com as mais diversas funções dentro da organização. “Existe o cuidado de encaminhar o voluntário a uma atividade com a qual ele se identifique e acompanhá-lo para que se sinta realizado naquilo que faz. Todos que desenvolvem uma atividade voluntária na casa podem colaborar em forma de auxílio material (como sócio mantenedor, com doações para as campanhas, prestigiando os eventos e bazares) e oferecendo seu tempo, dedicação e compromisso, doando aquilo que transcende o material”, explica Andrea, que hoje é diretora da área de Assistência Social Campanhas, no Bezerra.

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“Batalhamos para que a casa funcione com toda sua estrutura, para que as atividades se realizem e para atingirmos nossas metas. Ao mesmo tempo, é uma imensa satisfação ver a evolução daqueles que nos procuram. Quanto mais caminharmos nesse sentido, mais poderemos evoluir como pessoas e, mesmo que por alguns instantes, sentirmos o gosto de viver o pleno amor ao próximo”, conclui.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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