Olá pessoal!

Vamos falar hoje de um tema que interessa a todos, desde a mais tenra infância, até a mais avançada idade: Vínculos amorosos. Quem poderia dizer, com toda certeza e convicção, que pode prescindir de vínculos afetivos? Acredito que ninguém. Vamos dar uma espiadinha na nossa trajetória de vida…

Ela começa desde antes de nascermos. Sim. Quando fomos pensados, imaginados e desejados – mesmo que de forma inconsciente – pelos nossos pais (biológicos ou não). Já estávamos ali, no ambiente imaginário daquele universo familiar, quais forem as dezenas de configurações familiares estabelecidas pelo afeto amoroso. Naquele imaginário familiar, surgimos. De alguma forma esse desejo que nos envolveu, nos deu uma forma, foi o precursor dos primeiros vínculos afetivos que estabelecemos em nossa vida, com expectativas e afetos de diversos matizes. A forma como fomos recebidos, acolhidos, embalados, aconchegados, as emoções que nos envolveram, são as bases para criar o primeiro vínculo, especialmente com a pessoa que realizará a maternidade, geralmente a mãe. É com ela que aprendemos a criar laços. E não qualquer laço, mas aquele mais fundamental e primitivo, que fala do nosso existir enquanto pessoa, da possibilidade de nos tornarmos um ser que seja capaz de desejar, que confia na vida e em si mesmo. Se isto estiver de certa forma garantido, podemos seguir em frente. Poderíamos dizer que lançamos aí a base do que seja amor.

Os vínculos podem agora se ampliar e ganhar novos horizontes, levando as marcas desses vínculos iniciais. Através dessa base, iremos iniciar os laços com outras pessoas e com um universo de situações, sentimentos, afetos…

Aprenderemos, sempre e constantemente, com as novas relações que surgirem em nossa vida, ao mesmo tempo em que utilizaremos nosso repertório interno e psíquico, para criar e recriar essas novas relações. Alegria, criatividade, espontaneidade, medos, inseguranças… vivemos e experimentamos todos os afetos a partir de quem somos. Infância, adolescência, juventude, adultidade, senioridade. Em todos períodos da vida teremos oportunidade de aprender e reaprender sobre os vínculos afetivos que criamos. Em cada fase da vida atribuiremos um significado a eles, que será atravessado pela história familiar, social, afetiva.

Olhando, porém, para o fenômeno atual e tão generalizado da rapidez com que acontecem os vínculos afetivos na atualidade, surge uma questão: Não seria uma grande contradição a existência de vínculos tão passageiros, fugazes, inconsequentes da hipermodernidade, sendo que os vínculos são tão fundamentais para todos nós? Percebo, nas histórias que chegam ao consultório, esse paradoxo. Ao mesmo tempo que as pessoas fazem e desfazem vínculos com uma velocidade espetacular, desejam ainda aquele aconchego primordial. Penso na globalização, que atinge em cheio o universo das relações pessoais. A aparência do momento, as ideias pré-fabricadas, as relações, tudo é preciso ser consumido… e parece que a sociedade se especializou nisso nos últimos tempos.

Muitas relações são regidas pela “liquidez do mercado”, onde o que se busca é ganhar sempre, que na linguagem do sentimento significa “não sofrer nada e nunca”! É o retorno ao hedonismo (a vivência extrema do prazer) superespecializado e sofisticado, aliado ao “consumo do prazer” – um dos indicadores de felicidade atual. São essas relações marcadas por uma ausência de peso e profundidade. Parece que a velocidade é mais importante que a direção. A mídia parece ser o reator atômico que produz a energia que não deixa morrer a ideia do imprescindível-descartável que todos devemos ter. Nesse mundo de relações instantâneas, é preciso estar sempre “pronto para outra”. Não há tempo para o adiamento, para postergar a satisfação do desejo, para o seu amadurecimento, o que significaria um tanto de dor…  É como se não houvesse espaço para viver consigo mesmo, para a pausa da reflexão, da solidão, da introspecção.

Como diz Zigmunt Bauman, são relações líquidas, livres de vínculos duradouros com o outro, e eu diria, consigo mesmo.

Uma infinidade de pessoas transitando por conexões líquidas, usuários de todos os ‘gadgets’ existentes no mercado – porém, fechados em si mesmo. Homens e mulheres presos em uma trincheira sem saber como sair dela, e, sem reconhecer, com clareza, se querem sair ou permanecer nela. Movimentam-se em várias direções, entram e saem de casos amorosos.

Busca-se o outro pelo medo da solidão…

Busca-se liberdade sem compromisso…

Busca-se um universo de relações rasas, estreitas e ultra excitantes, que possam surgir e desaparecer em instantes…

No entanto, permanecem em um mesmo lugar: em busca de si mesmos.

Vivemos um tempo de conquistas e renovações constantes. Será possível reinventar os vínculos afetivos, onde haja tempo e espaço para profundidade? Penso que sempre caibam alegrias e tristezas, conquistas e dissabores, certezas e dúvidas, em nossas relações amorosas e vínculos afetivos. Penso que possamos viver a profundidade de uma relação, mesmo que comporte um certo desconforto, um certo temor e uma certa dor de não termos tudo que queremos, do jeito que queremos, mas termos ainda a oportunidade de viver uma relação complexa e imperfeita, onde podemos aceitar tanto ao outro, como nós mesmos, exatamente como somos, e ainda procurar nos tornar mais felizes. Há espaço para amar! Mas é preciso criar e recriar esse espaço em nós.

Clarice Lispector, em seu belíssimo texto ” A Nossa Vitória de Cada Dia”, nos traz essa reflexão, quando diz:

“Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada… Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos”…

Não permitamos que a vida passe, nessa velocidade estonteante, sem que aquilo que temos de mais precioso possa ser vivido em toda sua profundidade: o amor.

 

Referências:

Zigmunt Bauman –  Amor Líquido.

Clarice Lispector, in ‘Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres’

Andrea Tarazona

Andrea Tarazona

26 anos como Psicoterapeuta. Especializada em Psicologia Clinica e Psicologia Institucional. Atuando nas áreas: Psicoterapia de Adultos (individual e casal) e Adolescentes, Orientação para pais e gestantes.
Andrea Tarazona