São Paulo é um grande organismo alimentado por mais de 4 mil quilômetros de artérias, por onde corre a força motriz que transformou o pequeno vilarejo fundado por padres jesuítas em uma das cidades mais populosas e desenvolvidas do mundo. Se essa afirmação faz você pensar em carros e avenidas, volte um pouco no tempo e se pergunte de onde vieram os nomes de algumas das principais vias paulistanas, como a Marginal Pinheiros, a Marginal Tietê, a antiga Avenida Águas Espraiadas ou a Avenida Pacaembu. Antes de ser uma cidade construída para os mais de 8 milhões de veículos que atualmente ocupam cada canto do território, São Paulo de Piratininga, como era chamada por ter sido fundada à margem dos rios Anhagabaú e Tamanduateí – anteriormente chamado pelos nativos de Piratininga –, viveu por décadas sob o provimento de suas águas, utilizadas para transporte, alimentação, abastecimento, lazer e que, desde muito tempo antes da chegada dos portugueses, alimentavam o rico ecossistema de uma região de exuberante fauna e flora.

Mas um breve passeio pela São Paulo de hoje levanta a questão: onde foram parar todos esses rios? É o que a exposição Rios Des.Cobertos, em exibição no Sesc Vila Mariana desde o final de setembro e até o dia 18 de dezembro, nos convida a descobrir. O projeto é uma parceria entre o Estúdio Laborg e a iniciativa Rios e Ruas, e apresenta ao público um mapeamento da extensa bacia hidrográfica da cidade de São Paulo, trazendo um alarmante panorama: quase todos os mais de 300 rios paulistanos estão atualmente cobertos e escondidos por ruas e avenidas. “Foram enterrados vivos”, ressalta o arquiteto e urbanista José Roberto Bueno, cocriador, ao lado do geógrafo Luiz de Campos Jr., do Rios e Ruas. A exposição tem como destaque uma maquete topográfica
com projeção mapeada e interativa, que permite ao visitante visualizar a cidade em três dimensões e observar seus relevos, suas distâncias e diferentes camadas de exibição, como a posição dos rios em relação aos bairros, grandes avenidas ou linhas de Metrô, que ajudam a enxergar São Paulo de uma forma mais interligada e próxima da realidade. Em um painel eletrônico, o público pode selecionar diferentes apresentações que misturam uma incrível experiência visual proporcionada pela maquete e informações exibidas em uma tela acima, explicando
temas como o curso das águas, a correlação de pontos de alagamento e rios enterrados, as mudanças sofridas pela hidrografia paulistana ao longo do tempo, entre outros caminhos de reflexão que fascinam os espectadores.

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Foto antiga do Córrego do Ipiranga. Ao fundo, o Museu Paulista

 

O Rios e Ruas, iniciativa criada por Luiz e Bueno em 2010, promove o resgate das águas da cidade, convidando as pessoas para explorações in loco dos rios e riachos, soterrados ou não, por meio de oficinas prático-teóricas e vivências em expedições da nascente à foz dos cursos d’água. Expedições que também fazem parte do programa

da Rios Des.Cobertos, como a do Riacho Caaguaçu, próximo ao Sesc Vila Mariana, que levou um grupo de adultos e crianças do Projeto Curumim para descobrirem, ouvirem e até conversarem com o curso d’água escondido sob uma calçada. “É um erro que cometemos toda vez que dizemos que São Paulo costumava ter muitos rios. Ainda tem! Alguns podem estar escondidos, outros podem estar doentes, mas eles estão vivos. Esse tipo de pensamento faz com que os rios sumam não só dos nossos olhos, mas também da nossa consciência”, explica Bueno.

Para o arquiteto, os benefícios de uma relação mais saudável entre a cidade e seus rios são inúmeros, dos impactos positivos no ecossistema e na qualidade de vida dos moradores à diminuição de inundações em áreas onde na maioria das vezes existe a presença de rios soterrados. “O processo começa em abrir os olhos, para então pensarmos em como podemos abrir um rio. Há vários exemplos de como a mobilização das pessoas resultou em restaurações como a do Saw Mill River, em Nova York, em que um importante rio que estava escondido e
canalizado, teve o seu leito reconstruído e pôde voltar à superfície. Hoje essas águas voltaram a ter peixes, algo que não acontecia há décadas”. O exemplo novaiorquino é uma das inspirações para a o processo de revitalização do qual o Rios e Ruas participa nas assim batizadas Nascentes do Iquiririm, descobertas em um antigo terreno cheio de entulho na região do Butantã, e que hoje, após mutirões, reúne peixes, libélulas, taiobas e muitos visitantes.

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Para Elisa Rocha, arquiteta e conselheira do Conselho Regional de Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura de Paz da Vila Mariana (CADES– VM), a identificação dos rios encobertos e as necessárias propostas para recuperação dessas águas deveriam basear o planejamento da cidade. “O Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo prevê a recuperação da qualidade dos sistemas ambientais existentes, especialmente dos rios, córregos e áreas vegetadas, articulando-os adequadamente com os sistemas urbanos, principalmente de drenagem, saneamento básico e mobilidade. Mas essas diretrizes precisam direcionar também os planejamentos locais, como os planos regionais e os planos de bairro. Dessa forma, é possível começar do micro para o macro, com um detalhamento de informações que só a comunidade que vive em determinada região pode garantir”, afirma. Ainda segundo Elisa, o mapeamento de cursos d’água exibido pela exposição Rios Des.Cobertos é surpreendente e transformador para o público, mas não são informações fora do conhecimento da administração municipal. “Grande parte desse material consta nos mapeamentos da Prefeitura, e, inclusive, está disponível no site GeoSampa. O que falta na verdade é a priorização correta desse tema. Há um enorme abismo de informações entre o planejamento e a ponta, que seria responsável pela execução de serviços nesse sentido. Isso reforça a importância de um plano de bairro que mobilize as pessoas e seja capaz de pautar a administração pública”, explica.

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Nascida às margens do Córrego Ipiranga, hoje poluído e comprimido pela Avenida Ricardo Jafet, a Chácara Klabin também esconde riachos que alimentam o rio que, segundo a história, foi palco da proclamação da Independência do Brasil, por D. Pedro I. O próprio nome do bairro vizinho carrega a força dessas águas, já que Ipiranga, para os nativos, queria dizer “rio vermelho” ou “águas barrentas”. Relatos, inclusive, dos primeiros moradores da chácara da família Klabin, remontam uma época em que era possível nadar, tomar banho e lavar roupas no Córrego do Ipiranga, que nasce no Parque do Estado, onde ficam o Jardim Botânico e o Jardim Zoológico, corre pelo fundo de vale que corta a Vila Mariana e o Ipiranga, e deságua no Rio Tamanduateí. Segundo é possível observar durante a exposição, a Chácara Klabin abriga dois córregos enterrados. O primeiro é o Córrego Emboaçu, que nasce no começo da Rua Embuaçu, próximo ao cruzamento com a Rua Dr. Barros Cruz, e segue em direção à Avenida Ricardo Jafet. O segundo é o Córrego Rodrigo Vieira, cuja nascente está próxima ao cruzamento da Rua Pero Correa com a Rua Colônia da Glória, e cujo curso desce pela rua de mesmo nome até chegar ao Córrego Ipiranga. Para identificá-los, é preciso reparar atentamente em bueiros e galerias pelo caminho. O Córrego Rodrigo Vieira, por exemplo, está coberto desde o começo dos anos de 1960, após o pedido do vereador Agenor Mônaco ao então prefeito Ademar Pereira de Bastos. Como consta nos arquivos da Câmara Municipal de São Paulo, em processo arquivado em fevereiro de 1959: “INDICO ao Exmo. Sr. Prefeito do Município a necessidade urgente de que sejam tomadas urgentes providências para que se dote de canalização do córrego que corre paralelamente ao leito da Rua Rodrigo Vieira, no subdistrito do Ipiranga, pois tal curso d’água servida e pluvial transborda e inunda o leito da via pública, além de exalar mau cheiro, como coletor de esgotos vindos das residências limítrofes. Os moradores se veem separados de um lado para o outro por esse córrego de águas sujas que por ali passa, sem que a Prefeitura proceda às mínimas obras de capinação da rua em apreço, ao sarjeteamento manual e a qualquer regularização mecânica, apresentando-se dita via pública em lamentável aspecto, acrescido ao curso d’água que exige de momento uma limpeza em seu leito, de molde a dar-lhe mais capacidade de vazão para suas águas”. Para Bueno, a origem do problema está na visão que tem como um de seus principais símbolos o emblemático “Plano de Avenidas para a Cidade de São Paulo”, defendido por Francisco Prestes Maia e Ulhôa Cintra nas décadas de 1920 e 1930, e que enxergava nos rios um obstáculo para o progresso da cidade. “Fomos educados a enxergar o rio como inimigo, associando-o com esgoto, com enchentes e como um problema que deve ser enterrado. Na verdade, os rios são espelhos que dizem muito sobre a nossa sociedade. Se todos fôssemos embora de São Paulo amanhã, em algum tempo eles estariam todos limpos novamente”, esclarece. “Por isso esse processo de redescobrir os rios é também um processo de cura, não só das águas, mas do olhar das pessoas e da relação dessas com a cidade em que vivem.

Nós não trazemos todas as respostas, mas convidamos todos a trazerem suas perguntas, a se envolverem com a cidade. Os rios são grandes humanizadores”, conclui o cocriador do Rios e Ruas. E você, conhece ou tem alguma história com os rios da nossa região? Entre em contato conosco e vamos juntos redescobrir a cidade.

 

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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