Há pratos típicos que carregam pelo mundo o nome do local onde foram criados. Como não associar os pastéis portugueses a Belém, a pizza à cidade italiana de Nápoles, o alfajor como doce argentino e o sushi como criação dos japoneses? Mas você sabia que a Vila Mariana também tem a sua comida característica, procurada por apreciadores que vêm de outros bairros, cidades e até países? Trata-se da famosa linguiça do Gijo – “a melhor do mundo”, faz questão de dizer –, especialidade do simpático Luiz Trozzi, que viu a Vila crescer junto com sua casa de embutidos na Dr. Pinto Ferraz.

Filho do italiano Abruzo Domenico Trozzi e a brasileira Giselda Cavallo, Gijo aprendeu cedo a trabalhar com carnes. “Eu fazia entregas para o açougue do meu pai, no Centro, desde os 7 anos de idade. Chamava 7 de Setembro e foi o primeiro a comercializar linguiças calabresas na cidade. Ainda pequeno, observava o trabalho de minha mãe e de sua ajudante, dona Pipina, de preparar e encher as linguiças. Com o tempo passei a cortar e desossar carne, fui me desenvolvendo no ofício”, conta.

Nascido no Bixiga, Gijo chegou à Vila Mariana por volta dos 9 anos de idade, quando os Trozzi se mudaram para uma casa na Rua Potenji. Após alguns trabalhando na casa de carnes da família, o hoje “Rei da Linguiça” teve a oportunidade de começar seu próprio negócio, quando seu pai comprou um pequeno açougue na Dr. Pinto Ferraz e colocou o filho, na época com 23 anos, para tomar conta. “Ele disse: ‘se a loja fechar as portas, as portas de casa também estarão fechadas’. No fundo eu sabia que jamais ele faria isso, era só para me incentivar”, brinca.

Quando o negócio começou, a Rua Vergueiro era toda de paralelepípedos e reunia em suas esquinas desde carroceiros que paravam para comer e beber, até trabalhadores que caminhavam para a Rua Domingos de Morais e precisavam cortar o cabelo de madrugada com o Seu Henrique antes do bonde passar. Mais para baixo, onde hoje fica a Chácara Klabin, lembranças da Favela do Vergueiro, que chegou a ser a maior de São Paulo nos anos de 1960. “Conhecia todo mundo ali. Dos craques que saíram do campo que havia no meio da Favela e do campo da Portuguesinha, como o Valtinho, que depois jogou no São Paulo, ao pessoal do Risca Faca, baile que frequentava toda sexta”, lembra com detalhes.

Algumas décadas depois, Gijo viu a Favela dar lugar ao loteamento da família Klabin, processo que contou com a participação ativa do Seu Joviano, de quem foi amigo, e se transformar no bairro que é hoje. Essa não foi a única mudança presenciada pelo comerciante, que está há cerca de 60 anos na região. De lá pra cá, dos carroceiros aos automóveis, do bonde a duas linhas de Metrô, da carne, do pão e do leite deixados pelo entregador na porta de casa ao pedido feito pela internet no celular, o mundo mudou ao redor do pequeno açougue na Dr. Pinto Ferraz. Mas o sucesso das linguiças da casa não parou de aumentar. “Já nos prestigiaram desde políticos e grandes empresários, a chefs e celebridades, como o Olivier Anquier e minha amiga Hebe Camargo”, comemora.

Para o mestre de carnes, o segredo não está na receita ou qualquer outro ingrediente separadamente. “Esse é o meu dom, simples assim. Desafio você a encontrar qualquer pessoa no mundo que faça linguiça melhor do que eu”. Além disso, Gijo acredita que o “tratamento à moda antiga”, uma relação entre vendedor e cliente que se perdeu com o tempo, é fundamental para manter um número tão grande de consumidores fiéis. “Eu estudei até o terceiro ano do primário, mas aprendi a conversar de igual pra igual com qualquer um, porque atrás do balcão fica a maior faculdade que existe. Então, se você entrar aqui pela primeira vez será tratado como se frequentasse a casa há dez anos. Às vezes a gente dá um pão italiano pra acompanhar ou presenteia com uma garrafa de vinho. O cliente precisa se sentir bem”, ensina.

Hoje, com 83 anos, Gijo não pensa em parar de trabalhar. “Aqui é que nem pronto-socorro, aberto todo dia, só fecha no Natal e primeiro dia do ano”. As conquistas, pessoais e profissionais, acumulam-se nas paredes e nas caixas de fotos e documentos, onde guarda as lembranças dos tempos vividos e dos familiares que já se foram, como os pais e a esposa. Satisfeito, considera-se um bilionário. “Muito mais do que dinheiro, acumulei durante a vida muitos amigos. É isso que importa”. Junte a isso, Gijo, o reconhecimento dos moradores da Vila Mariana, para quem o senhor é um símbolo e patrimônio histórico.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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