Antes da Chácara Klabin como a conhecemos, o bairro já foi ocupado por uma das maiores favelas da cidade nos anos de 1960 e 1970

Na última edição da revista CHK falamos sobre o começo da história da família Klabin no Brasil, a compra das terras que hoje compõem o nosso bairro e o processo de favelização que transformou a chácara na favela do Vergueiro, a maior de São Paulo nos anos de 1960 e 1970. No segundo capítulo da série, vamos voltar aos primeiros anos da favela, entender quem eram seus moradores e como era a vida nessa comunidade.

Para analisarmos o fenômeno do surgimento de favelas em São Paulo é preciso entender o contexto vivido por operários e famílias pobres em termos de habitação. No período onde pode ser percebido o início das primeiras favelas na cidade, os dois tipos de moradia para pessoas de baixa renda eram as vilas operárias e os cortiços. O primeiro tipo surgiu no momento inicial da indústria em São Paulo, geralmente nos bairros onde estavam instaladas as grandes fábricas. Eram residências construídas pelos empregadores ou por investidores e que cobravam aluguel de seus moradores.

Segundo o pesquisador Fernão Lopes Ginez de Lara, autor da dissertação de mestrado Modernização e desenvolvimentismo: formação das primeiras favelas de São Paulo e a favela do Vergueiro, “pode-se considerar que as vilas operárias eram similares às casas unifamiliares que predominavam no mercado formal de construções de casas de aluguel, sujeitas aos preções que eram considerados altos para a maioria da população, com a diferença de servirem também ao maior controle dos operários por parte dos industriais. Não por acaso, mas devido aos preços pagos no aluguel, acabavam servindo apenas a uma parcela mais qualificada do operariado. Às vilas operárias coube papel secundário. Foi nos cortiços que a maior parte das classes populares habitou até praticamente os anos 1950, quando despontaram os loteamentos em áreas distantes do Centro, os chamados loteamentos periféricos”.

Cortiço é um termo que pode classificar muitos tipos diferentes de moradias, mas usaremos para descrever moradias coletivas, geralmente precárias, onde garantia-se o direito de morar mediante pagamento de aluguel. Com a reforma do sistema viário e a expansão automobilística da cidade de São Paulo nos anos de 1940, que desapropriou inúmeros edifícios e casas onde havia cortiços para que fossem construídas novas ruas e avenidas, e também com a política higienista do governo que ordenou uma série de despejos em outras habitações coletivas pela cidade, muitas pessoas ficaram sem abrigo, dando início ao surgimento das primeiras favelas em São Paulo.

Na mesma época há o crescimento dos loteamentos periféricos, em áreas distantes do Centro e em terrenos rurais. Nas palavras do urbanista Nabil Bonduki em Origens da habitação social no Brasil, as favelas “foram um produto da crise de habitação na década de 1940. Elas significavam uma resistência dos inquilinos em deixar as áreas mais centrais e mudar-se para a periferia”. Formadas por muitos aposentados e pensionistas, imigrantes e trabalhadores que não conseguiam pagar os altos aluguéis cobrados na parte central da cidade, as favelas espalharam-se por regiões como o Cambuci, Parque Dom Pedro II e proximidades da Avenida do Estado. Em muitos casos, com o crescimento dessas favelas, houve intervenção da Prefeitura, que construiu nos locais sanatórios, tanques para lavagem de roupas e subiu novos barracos para alojar ali famílias de outras favelas.

É nesse contexto de crise de habitação e um intenso movimento de êxodo rural que surge a favela do Vergueiro, em uma época em que já havia grandes favelas como a da Vila Prudente e a do Canindé. Como tratado no primeiro capítulo desta série, publicado na primeira edição da Revista CHK, o processo de favelização na chácara da família Klabin teve início com o processo de sublocação das terras, especialmente relacionado a uma família usucapiente da terra, chamada Bottechia. Enquanto os processos movidos pela família Klabin desenrolavam-se na justiça, o ritmo da incorporação de barracos às terras sublocadas aceleraria no final dos anos de 1950.

“Pode-se dizer que a favela do Vergueiro de certo modo diferencia-se por não ser propriamente uma ocupação no sentido ‘clássico’ – em que a terra não cobra tributo por ser alheia – mas por estabelecer um contínuo processo de subdivisão de lotes e barracos, todas mediadas pelo pagamento em dinheiro para usufruto da posse. Pelo que vimos, não há nuances da favela do Vergueiro: todos os barracos tinham que pagar algum tributo para algum sublocador, arrendatário ou posseiro”, ressalta Fernão. Ao mesmo tempo em que tal relação tenha acelerado o crescimento da favela, tornou ainda mais difícil a disputa judicial para a família Klabin. Cada terreno alugado – já de um sublocador – se multiplicava em 3 ou 4 casas, onde moravam famílias diferentes. Sobre as pessoas que formavam a favela do Vergueiro, uma parte já despejada de outras favelas, como a do Glicério, outra parte de migrantes de Minas Gerais, Nordeste e interior de São Paulo, e ainda trabalhadores de outros bairros da cidade, o pesquisador afirma: “Constatamos uma grande diversidade de profissões dentre as pessoas que viveram na favela do Vergueiro: as que vivem do rendimento obtido por meio do aluguel de barracos, comerciantes, funcionários públicos, motoristas, operários da construção civil, lavadeiras, empregadas domésticas, faxineiras, vendedores de rua, vigias, catadores de papel; mas também, assaltantes, prostitutas, cafetões… Numas existe a figura do salário, noutras a remuneração é instável e variada, ou arriscada”.

Nas horas de folga, o entretenimento dos moradores da favela acontecia principalmente nos botecos, bailes chamados de “risca faca” e nos campos de futebol que havia ali dentro. As três opções de lazer eram, inclusive, também frequentadas por moradores vizinhos à região. No futebol, times do Ipiranga e da Vila Mariana adentravam a favela do Vergueiro para disputar campeonatos. Quanto aos botecos, a situação começou a mudar no final dos anos de 1960, quando o governo proibiu a venda de bebida alcóolica na favela e passou a fiscalizar de perto os bares. Muitos comércios do tipo foram fechados e comerciantes despejados. O fim estava chegando.

Se em 1962 a família Klabin já havia conseguido uma vitória judicial contra um sublocador chamado Alfredo Antônio – que ocasionou uma ação de despejo em menores proporções -, no final dos anos de 1960 o desfavelamento chegou também às terras disputadas com a família Bottechia. Para o pesquisador Fernão Lopes, “não havia mais espaço para a existência de uma grande favela como a do Vergueiro num local como aquele, em que o preço da terra disparava e todo o entorno já há tempos estava edificado por casas e prédios – vale citar que em fins dos anos 1960 foram iniciadas as obras da linha 1 do metrô paulistano e em 1970 no trecho da Vila Mariana. O ganho de causa dos Klabin permitiria que a favela chegasse ao fim, mas reafirmando a forma pela qual se deu a expansão da metrópole paulistana: por meio do aumento do preço da terra e expulsão da população pobre para as periferias”. Ao todo a favela chegou a abrigar cerca de 1.700 barracos e mais de 5.000 moradores.

No começo dos anos de 1970, os tratores já circulavam pela favela derrubando barracos. Muitas famílias foram removidas com a promessa de ajuda financeira ou novas moradias, outras foram colocadas pra fora pela polícia. Teria início o loteamento na Chácara Klabin que transformou a antiga favela em um bairro quase vazio, com poucas casas e muito mato.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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