Lembro, quando era menina ainda, que o clima de Copa era algo especial, demandando muitos preparativos e encontros familiares. Cada Copa era uma oportunidade única de viver um espírito lúdico social: as emoções da disputa pelo primeiro lugar!

Pais e filhos, avós e netos, tios e primos, amigos e vizinhos se amontoavam diante daquelas pequenas TVs, em nada parecidas com as atuais, mas que nos transportavam para um mundo mágico de estórias e derrotas, com sabor de alegria simples, descomplicada.

Cada página completa do álbum de figurinhas nos premiava com pequenos mimos, que levávamos para casa como representantes do prêmio maior: sermos os campeões. Vivíamos em êxtase coletivo, tão necessário quanto oportuno, que nos devolvia um sentimento de pertença, de aconchego.

Produzíamos o mito da conquista coletiva, através da narrativa de torcidas, disputas, sofrimentos (sim, podíamos sofrer!), alegrias e tristezas vindas da paixão nacional. Não havia culpa, nem vergonha, nem medo de ser um torcedor, projetando ali nossas esperanças de um gozo possível, diante de tantos dissabores.

Muitas vitórias, muitas derrotas, muitas histórias…

Fomos país sede da Copa nos anos 50. Naquele tempo, como hoje, as obras estavam atrasadas, o clima político era tenso. O povo se calava diante dos horrores do pós-guerra.

Naquele ano éramos a possibilidade real de algo que se assemelhasse a “esperança de dias melhores” para um mundo que reconstruía a vida, a história, o patrimônio e a identidade, destruídos pela barbárie.

Éramos o Brasil de “um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança”, como entoa nosso hino.

Hoje a Copa voltou ao nosso país, depois de 64 anos. E o que podemos oferecer enquanto anfitriões?

Oferecemos um cenário onde as individualidades se agigantaram em todos os segmentos, no âmbito público e privado.

A “guerra total” do consumismo instalou-se definitivamente na sociedade, evidenciando efeitos tão nocivos quanto os das guerras mundiais.

A vida se institucionalizou. A Felicidade tornou-se um produto final, contratado desde cedo na vida das nossas crianças. Houve uma perda significativa da subjetividade, da simplicidade, da intimidade e do sonho.

Sabemos tudo o que temos que fazer, pensar, comer, vestir, falar, sentir… Sabemos a forma que devemos ter.

O espaço da intimidade foi se esgarçando, o deserto afetivo se consolidando, o prazer escasseando.

Tornamo-nos ineficientes para devolver a nós mesmos o bem estar e o relaxamento saudáveis. Criamos as pílulas para dormir, para acordar, para se divertir, para aprender, para viver… Medicalizamos a vida e não encontramos a felicidade.

Um cenário complexo, com questões significativamente profundas e absolutamente cruciais, para as quais estamos, hoje, mais despertos que outrora. Mas ainda assim, temerosos quanto à nossa capacidade de atuar aí mesmo onde somos constrangidos pelos sofrimentos psíquicos decorrentes de nosso tempo.

Por outro lado, podemos oferecer aos nossos visitantes e, principalmente a nós mesmos, o desejo de ver nosso país triunfar, superando nossas injustiças.

Fazer sentir o desejo de transformar nossa terra num lugar melhor de se viver, para além das fronteiras do politicamente correto.

Mostrar o quanto podemos criar experiências que sejam verdadeiramente produtivas, subjetivas, pessoais, intransferíveis.

Evidenciar a necessidade de nos comprometermos, enquanto sociedade, na ampliação de nossa consciência individual e coletiva, criando os bens sociais que desejamos e que necessitamos: liberdade, segurança, alegria de viver.

Estamos em plena Copa.  E novamente estamos torcendo pelo Brasil.

E esse torcer, como expressões de nossas subjetividades, está impregnado de significados e desejos, como sempre esteve em todas as Copas.

Estamos torcendo para despertarmos nosso ser criativo, original, único, pleno.

Torcendo pela nossa liberdade, pela nossa felicidade, pelo nosso progresso.

Torcendo por mais justiça, por mais harmonia, por mais sabedoria.

Torcendo para que possamos ser, hoje e sempre, o gigante pela nossa própria natureza sensível, gentil, solidária, fraterna…

E para que o nosso futuro espelhe toda essa grandeza!

Copa-torcida

Andrea Tarazona

Andrea Tarazona

26 anos como Psicoterapeuta. Especializada em Psicologia Clinica e Psicologia Institucional. Atuando nas áreas: Psicoterapia de Adultos (individual e casal) e Adolescentes, Orientação para pais e gestantes.
Andrea Tarazona