O artigo de hoje refere-se a um tema bastante atual e que merece nossa especial atenção: O Jogo “Baleia Azul” ou BLUE WHALE. Suspeita-se que seja originário da Rússia, e esteja operando desde 2015 na Deep web. Formam-se grupos secretos via internet, onde denominados “curadores” impõem 50 tarefas aos participantes.

Inicia-se com tarefas que, muitas vezes, passam desapercebidas ou são deliberadamente escondidas do grupo familiar e mesmo de amigos, como virar a noite assistindo filmes de terror, colocar-se em locais de alto risco – telhados, andaimes – , seguindo num crescente de complexidade e risco à saúde e à vida – provocar o próprio adoecimento, automutilação, ingerir substâncias corrosivas –  finalizando com a tarefa mortal – o suicídio do participante. Registrou-se aproximadamente 130 casos de suicídios entre jovens, ligados a este jogo. Alguns casos bem recentes no Brasil. Os jovens são testados durante todo o tempo que durar o jogo, sendo intimidados a apresentar provas de sua “fidelidade”. As tentativas de sair do jogo são recebidas pelos curadores com retaliações e ameaças à família.

Da forma como compreendo, esse jogo mortal parece criar inicialmente uma aura de autoconfiança e poder de realização para o adolescente. Esse clima é usado como elemento sedutor e de aderência às propostas. Na sequência, lança-se mão de outros elementos como a persuasão e intimidação, promovendo o medo e a subserviência. Instala-se então o terror através da chantagem e da ameaça, encurralando o jovem em uma teia perversa, donde se lança mão do suicídio do “jogador”. Por mais estranhas e perversas sejam as tarefas propostas, a aderência a esse tipo de game é por si só uma denúncia, um sintoma de que existe uma lacuna emocional no desenvolvimento dos jovens, que precisa ser reconhecida e auxiliada. Vamos lançar algumas ideias sobre esta questão que vem preocupando as famílias e a sociedade.

A adolescência é o período de transição entre a infância e a vida adulta, quando o jovem perde o status de criança sem ainda ter alcançado a maturidade. É um período de incertezas, não só quanto ao futuro, mas também quanto à suas vivências e sentimentos, em meio a transformações de natureza física, social e, especialmente, emocional e psíquica. Necessita, portanto, de um suporte firme e um ambiente de confiabilidade. O adolescente empreende uma luta para sentir-se real, em meio a vivências de isolamento ou irrealidade, culpas, medos e ansiedades. E esse é o cenário de seu mundo interno. O caminho para a maturidade não se faz em linha reta, nem aos saltos. Seria mais apropriado pensar em uma “espiral de amadurecimento”, sendo que, a cada giro, reeditam-se as fases anteriores, acrescidas das experiências adquiridas, das mudanças físicas e sociais.

Se as experiências proporcionarem o desenvolvimento gradual, sem grande prejuízo da espontaneidade e criatividade, podemos apostar em uma continuidade do ser, e um direcionamento ao amadurecimento também gradual e contínuo, o que não significa que não haverá conflitos e crises, que devem ser esperadas pelos pais. A tarefa dos pais, então, inclui a aceitação do desafio desse adolescente “ser por si mesmo”, permanecendo presente, não só fisicamente, mas simbolicamente na vida do jovem. Este jovem irá oscilar entre gestos de maturidade e busca de refúgio a um ninho acolhedor, e isto deverá ser esperado pelos pais. Quando os pais abdicam deste lugar na relação, a experiência do adolescente é de abandono emocional, empurrando-o para uma vida adulta prematura, por um falso processo. Neste cenário, não há mais o reconhecimento da família como um espaço de confiabilidade, onde haja a resistência necessária e onde possa recorrer para sentir-se seguro. As cobranças e expectativas dos pais geram ainda mais conflitos quando presentes em um ambiente onde carece o acolhimento e pertencimento. É nesse panorama que surgem os problemas associados à adolescência.

Acrescemos a isto, a progressiva terceirização de cuidados da infância e da adolescência, delegando a profissionais, à escola ou mesmo aos recursos tecnológicos, tarefas que deveriam ser plenamente exercidas pelos pais ou adultos responsáveis. E ainda, as questões associadas ao consumo de drogas e álcool, já bastante conhecidas pela sociedade, mas não menos preocupante e de difícil solução. Temos, portanto, muito a refletir acerca da experiência adolescente.

Afirma Winnicott*, ao considerar a adolescência em seu rumo natural e saudável, que “ ninguém poderia dizer que a palavra saúde é sinônima da palavra fácil”. Toda luta empreendida pelo jovem, para se sentir real e estabelecer uma identidade pessoal confere uma espécie de patologia. É preciso que o adolescente encontre um lugar onde os conflitos possam emergir e tenham espaço e tempo para elaboração. É bom que o jovem possa contar com a família para viver esse processo. O adolescente testará sua capacidade de continuar acreditando em si e na vida, apesar de todas as intempéries e dificuldades. Ele testará sua capacidade de saber suportar a indefinição, de não saber no que irá se tornar, testará a possibilidade de ser ele mesmo!

Caso o ambiente familiar não lhe ofereça a resistência adequada e ainda a confiabilidade e a segurança nesse processo de amadurecimento, o adolescente pode criar ou buscar uma outra realidade que lhe ofereça desafios, limites e a capacidade de sentir-se real, vivo. Nessa busca alternativa podemos ver uma brecha, um espaço psíquico ideal para buscar os “jogos letais”, causando prejuízo da própria saúde, e à própria vida.  

Segundo Knobel*, o adolescente “exterioriza seus conflitos de acordo com a sua estrutura psíquica e suas experiências”. Entendemos, portanto, que os comportamentos apresentados pelos nossos adolescentes são expressões de si mesmos. Tem um sentido, um significado, algo que tem relevância e precisa ser compreendido.

É urgente que a família esteja bastante comprometida com seus jovens, empreendendo uma revisão na forma de se relacionar e educar a juventude. É preciso compreender o “sentido da vida” desses jovens e criar um ambiente onde ele possa desejar viver e não morrer. Esse tipo de fenômeno não pode ser tratado como um problema somente dos adolescentes. É uma questão da família e dos adultos responsáveis por eles, e o tratamento deve abraçar a todo grupo familiar. A solução certamente não está nas drogas antidepressivas, o que pode ser apenas um recurso, mas está longe de ser o único. É preciso tocar nas feridas. E para isso é necessário construir um ambiente seguro para que se recupere a capacidade de promoção do crescimento do grupo familiar. É também uma questão a ser considerada no âmbito da escola e do meio social, promovendo o debate incômodo e difícil, porém necessário.

Referências bibliográficas:
Winnicott, D. W. – Tudo começa em casa

Aberastury, A. e Knobel, M. – Adolescência Normal

 

 

Andrea Tarazona

Andrea Tarazona

26 anos como Psicoterapeuta. Especializada em Psicologia Clinica e Psicologia Institucional. Atuando nas áreas: Psicoterapia de Adultos (individual e casal) e Adolescentes, Orientação para pais e gestantes.
Andrea Tarazona