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Ao chegar à Praça Kant, local combinado para a entrevista, avistei de longe a cena já conhecida por muitos paulistanos: a “Ferrari” conversível estacionada, ao lado de um homem de terno impecavelmente alinhado, sapatos brilhando e o lenço combinando com a gravata borboleta — o Homem do Carro Amarelo, nome pelo qual ficou conhecido o professor de Educação Física aposentado, João Lara Nunes. Morador da Chácara Klabin há 12 anos, João é um ícone da cidade, embora para muitos seja uma incógnita. Com o carro parado nas vias mais movimentadas de São Paulo, ele faz pose para quem quiser ver suas belas roupas e o cabelo bem penteado, como se estivesse em uma sessão de fotos. “Eu adoro que me olhem”, ele ri.

Há 25 anos o Homem do Carro Amarelo repete o ritual, cada dia em um ponto da cidade. “Gosto de ficar entre a Faria Lima, a Ibirapuera e a Avenida Brasil. Escolho lugares que tenham trânsito e farol”, conta. O começo, entretanto, foi em uma das esquinas paulistanas mais conhecidas. “No começo dos anos 90 eu andava com um Bug amarelo conversível, parecido com essa Ferrari, e ia buscar minha mulher que trabalhava na loja Pernambucanas, na Paulista com a Consolação. Como sempre gostei de andar bem vestido, eu chamava a atenção das pessoas que passavam, enquanto esperava com o carro parado”.

h2O Homem do Carro Amarelo nasceu ali, mas a paixão pela beleza acompanha João desde criança. “Quando pequeno eu já gostava de roupas, de fazer um penteado no cabelo. Me inspirava no Roberto Carlos e no Ronnie Von”. Com a herança herdada da avó, vieram os carros, que faziam o jovem de longos cabelos loiros se sentir uma estrela de cinema. Anos depois, tornou-se professor de futebol no Parque da Aclimação, onde por várias vezes deu um jeito de trocar o uniforme por uma elegante combinação de bermuda e camisa polo.

Mais do que um simples hobby, o exibicionismo preenche um papel importante na vida de João. “Se estou mal vestido, de calça jeans e camiseta, ninguém olha pra mim. Quando estou bem vestido, andando no meu conversível, sou outra pessoa, confiante, bonito”. Como Vinícius de Moraes, o Homem do Carro Amarelo vê a beleza como algo fundamental. “Uma pessoa é 50% a roupa, 30% o cabelo e 20% ela mesma”, teoriza.

Enquanto conversamos, o entrevistado chama a atenção de quem passa no local — a trilha sonora, garantida por um radinho portátil tocando os sucessos do Bee Gees, ajuda. Converso com um morador que diz que conhece o Homem do Carro Amarelo há anos e sempre teve curiosidade sobre os motivos de suas exibições. Outro passa de carro e aos gritos faz piada com João: “lindo!”, debocha pela janela. “A reação das pessoas é muito variada. Alguns me xingam, outros me elogiam. Uma vez, duas mulheres pararam ao lado do carro e me perguntaram se eu era garoto de programa. Respondi que não e que atualmente poderia ser apenas um ‘senhor’ de programa”, conta aos risos.

Em outra exibição, lembra, quase foi atingido por bombas de chocolate atiradas por dois adolescentes que passavam de carro. “Sorte que não pegou no terno”, avalia. “Outra vez, uma mãe trouxe um menino até o carro. Ele tocava cada parte do carro, admirado. Foi quando ela me disse que o filho era cego. Me emociono só de contar. O menino estava ali porque a mãe disse a ele que era um carro muito bonito”, lembra.

No tranquilo bairro da Chácara Klabin, como João define, o Homem do Carro Amarelo é também uma figura conhecida. “Já fiquei muitas vezes parado em frente à Padaria Iracema, na Av. Fábio Prado”, afirma. “Uma vez estava andando na rua de bermuda e camiseta e fui reconhecido por dois lixeiros, que me perguntaram onde estava o carro”. É no bairro, inclusive, que João projeta a vida quando “aposentar” o personagem. Embora não revele a idade, que está entre os 60 e os 70, João acredita que em alguns anos trocará as “sessões” na rua por uma vida mais caseira com a família – a esposa, a filha, que mora no litoral paulista, e o bulldog Rocco, com quem passeia pelas praças da Chácara Klabin. “Só não vou ficar jogando dominó”, brinca.

Antes de encerrar a conversa e posar para as fotos que estampam essa edição, João lembra de outra história. “Uma vez um motoboy parou ao lado do carro e me contou que havia brigado por minha causa. Ele sempre me via parado com o carro e gostava do jeito como eu me vestia. Um dia ele chegou ao trabalho com um lenço no bolso, igual ao meu, e um colega fez graça com ele e disse que ele estava parecendo o Homem do Carro Amarelo. Ele me defendeu”, diz orgulhoso. “Acho que a beleza e a autoestima podem ser contagiantes”, finaliza.

Redação CHK

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Somos apaixonados por comunicação e pela Chácara Klabin. Acreditamos que moradores unidos têm o poder de transformar o bairro e a cidade onde vivem.
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